Geral

Tímido crescimento

(*) Antonio Delfim Netto
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Final de ano, hora de fazer o balanço do comportamento da economia em 2001 e falar das perspectivas para 2002. Preliminarmente é preciso lembrar que 2001 começou com expectativas bastante favoráveis para o crescimento da economia brasileira: a taxa de crescimento do PIB tinha evoluído para um pouco mais de 4%, de janeiro a dezembro do ano 2000, os níveis de desemprego apresentavam uma ligeira queda, as exportações começavam a mostrar uma tímida reação e as nossas altas taxas de juros tinham finalmente encontrado o viés de baixa. Externamente, os ventos não eram desfavoráveis: a economia americana diminuíra um pouco o ritmo de crescimento, mas oferecendo sinais de uma aterrissagem suave e os preços do petróleo se mantinham relativamente estáveis no mercado mundial. Havia, portanto, razões para acreditar que a economia brasileira poderia manter aquele ritmo de crescimento e até mesmo ampliá-lo em 2001.

Os fados e alguns equívocos importantes na condução da política econômica brasileira logo iriam reverter a expectativa de crescimento. No primeiro trimestre houve uma seca que afetou a produção agrícola, produzindo um choque de oferta que pressionou alguns preços, especialmente no setor de hortigranjeiros. Choques como esses não podem ser neutralizados com elevação das taxas de juros, mas o nosso guardião da moeda se assustou e abandonou a sadia política de redução da taxa básica. Em março, o Banco Central elevou substancialmente a taxa de juros, a meu ver de forma equivocada, um pouco talvez pressionado pelo agravamento dos problemas argentinos, o que introduziu um clima de incerteza nos setores produtivos.

O que era incerteza transformou-se em desânimo nos meses de abril e maio, quando se constatou que era inevitável o racionamento de energia e se assistiu o governo admitir confusamente que foi surpreendido pela crise. Sem a segurança no fornecimento de energia o setor industrial reduziu dramaticamente a produção e logo os índices de desemprego voltaram a crescer. Em setembro, o atentado terrorista nos Estados Unidos complicou de vez a situação, produzindo uma onda de mal-estar que se espalhou pelo mundo, atingindo em cheio o comércio internacional, adiando investimentos, reduzindo o crescimento industrial e causando prejuízos ainda difíceis de dimensionar em setores como transportes e turismo especialmente.

Com todas essas dificuldades, de origem interna e externa, o Brasil termina o ano com um crescimento do PIB em torno de 2%, contra a expectativa inicial de 4% ou 4,5%. O resultado da inflação, tendo superado ligeiramente a meta do Banco Central, ficou dentro do razoável, próximo dos 7%. Nessas circunstâncias, não há muito a comemorar, embora terminemos o ano com uma certa sensação de alívio, em contraste com o sentimento dominante há algumas semanas quando se temia o alargamento do conflito militar além das fronteiras do Afeganistão.

Não tendo acontecido o pior, é de se esperar que os negócios mundiais caminhem aos poucos para a normalidade e que a economia americana confirme as previsões de sair da recessão no segundo ou terceiro trimestre de 2002. O Brasil, tendo perdido o objetivo do crescimento em 2001 pode melhorar sua performance em 2002, graças ao crescimento da produção agrícola e ao aumento das exportações. O câmbio flutuante permitiu o resultado mais positivo da economia neste ano, ao impulsionar as exportações e favorecer a substituição de importações, melhorando as condições do balanço de pagamentos.

Além dos fatores externos, a possibilidade de maior crescimento econômico em 2002 depende de acertos na política monetária (maior oferta de crédito e menor taxa de juros), da regularização da oferta de energia e da ampliação dos estímulos às exportações. Nada nos autoriza, contudo, a pensar num crescimento superior a 2,5%, devido ao alto grau de vulnerabilidade externa de nossa economia.

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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