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Argentina: a utopia do mercado

Joaquín Roy
| Tempo de leitura: 3 min

O desastre econômico, social e político da Argentina revela, aparentemente, o fracasso da aposta nas reformas (drásticas, comparativamente) neoliberais. Estas medidas transformaram o país, de uma sociedade onde há apenas algumas décadas tudo parecia depender do clientelismo do Estado e da colheita no pampa, em um laboratório utópico do triunfo do sistema liderado pelos Estados Unidos desde o final da Guerra Fria. A utopia marxista foi, no fim da história, substituída definitivamente pela de mercado, ainda mais idealizada.

O malogro dessa estratégia, baseada na privatização, na paridade com o dólar e no cumprimento dos requisitos do Fundo Monetário Internacional, é apenas uma parte da explicação para interpretar os motivos remotos da queda do sistema que desembocou tragicamente em mortes e saques e, especialmente, na renúncia do presidente. O problema vem de longe. Paradoxalmente, mais que a ruína do mercado e do próprio Estado (reduzido de maneira suicida, para usar a terminologia em voga), o que naufragou foi a sociedade que, agora, aparece como vítima.

A Argentina converteu-se num exemplo emblemático da incapacidade contemporânea de cumprir o roteiro de um par de séculos para transitar do velho regime para o moderno, com a colocação em marcha daquele invento mágico chamado Estado-Nação. Em uma das variantes, agora testemunha-se o ressurgimento da Nação primordial, étnica; em outra, ao estilo francês, o Estado deveria encarregar-se da produção da Nação. Na Itália, por exemplo, com a unificação, o espírito descrente dizia que já havia uma Itália e que agora devia-se fazer italianos. Foi o modelo para as Américas, que teve sucesso apenas nos Estados Unidos e no Canadá.

Se há algumas décadas as camadas mais beneficiadas (os que mandam) foram os primeiros que optaram pelo exílio através do capital, pelo menos os de baixo ainda tinham a esperança dos cantos de sereia revolucionários, enquanto a ainda classe média estava marcada pelos restos da economia subsidiada. Com o fim da Guerra Fria, os destituídos ficaram sem opção utópica, a criminalidade instalou-se entre eles, enquanto suas fileiras eram engrossadas pelas camadas médias que deviam permanecer no país, ao mesmo tempo que milhares escolhiam a emigração para a Europa ou os Estados Unidos. Mais do que reduzir o Estado, conseguiu-se diminuir a Nação. O problema não era o Estado, mas a ausência efetiva de Estado.

A aposta neste modelo de Nação voluntarista, do qual, até esta data, o mais claro sobrevivente é a imperante América do Norte, como coagulação concreta do plebiscito diário reclamado por Ernest Renan, é, ao mesmo tempo (novo paradoxo), o mais fácil de propor, já que não requer condições anteriores: são americanos (no sentido amplo do termo) os que desejam sê-lo, geralmente como conseqüência do rechaço de serem europeus ou asiáticos. Mas, simultaneamente, é o mais difícil, já que, ao contrário da lealdade que assumem os laços de sangue e a tradição (freqüentemente inventados) do modelo essencialista, o nacionalismo político deve, ao final do dia, apresentar benefícios concretos: trabalho, alimento, moradia, segurança material e, sobretudo, mental.

O problema é que esta lealdade mental já não é utópica e necessita de realizações palpáveis. No fundo, portanto, a crise não está baseada em algumas causas econômicas. Parafraseando, uma vez mais o lema de Clinton, com o qual arrebatou a Casa Branca das mãos do pai do atual inquilino, é o Estado-Nação, imbecil. (Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet na Faculdade de Estudos Internacionais e pesquisador sênior do Centro Norte-Sul da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

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