A revista Agitação, n.º 39 (maio/junho/2001), publicação da CIEE Nacional, trouxe duas matérias que me levam a comentá-las pelos assuntos abordados.
Uma, o Editorial, de autoria do presidente do Cons. de Adm. do CIEE/SP, presidente do Cons. Diretor do CIEE Nacional e professor da FGV-SP, Antônio Palma. A outra, intitulada Raio X do Analfabetismo, entrevista concedida à revista pela doutora em Educação Stela Piconez, coordenadora científica do NEA - Núcleo de Estudos de Educação de Adultos e de Formação Permanente de Professores da Faculdade de Educação da USP, coordenadora científica e pedagógica do Programa de Alfabetização Solidária em quatro Estados nordestinos e setenta salas de aula na Grande São Paulo.
O editorial informa que a primeira campanha contra o analfabetismo data de 1947, em setembro deste ano completa 54 anos. Naquela época, metade dos brasileiros adultos não sabia ler nem escrever. Um estudo do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada prevê que, em 2020, serão 4 milhões. Esclarece que o analfabetismo, é o tema central da edição n.º 39, da revista Agitação e uma das preocupações do CIEE, que faz parte do crescente rol de instituições participantes da ofensiva ao problema, visando contribuir para a sua erradicação.
Na entrevista à revista Agitação, a doutora Stela Piconez, traça um quadro sobre a situação do analfabetismo e dos problemas que ainda emperram suas soluções. Explica que os alunos adultos que procuram um programa de alfabetização, são cidadãos que, em nosso país, não têm oportunidade de estudo. Esclarece que os professores alfabetizadores enfrentam despreparo, falta de recursos materiais e baixíssimos salários. Afirma que as críticas feitas aos alfabetizadores de adultos são infundadas quando não se considera que eles não podem ampliar o universo cultural de seus alunos se eles não participam da própria cultura que estão inseridos. Os professores não têm condições de comprar livros, jornais e revistas; são bóias-frias urbanos. Se alimentam nos ônibus ou nas escolas durante um período em que trocam de escola, devido necessitar completar suas jornadas de trabalho para poder sobreviver. Pergunta: Como pode um não-leitor formar um leitor?
Confesso emocionado, esse assunto levou-me ao passado, revivi um período da minha juventude, anos 1953/54/55. Ao mesmo tempo que freqüentava o curso Normal na extinta Escola Normal Livre Guedes de Azevedo de Bauru, lecionava como Voluntário, curso de Alfabetização de Adultos.
Guardo até hoje a Portaria de Designação expedida pela Delegacia de Ensino de Bauru, datada de 2 de março de 1953, assinada pelo então delegado de Ensino, professor Carlos Corrêa Vianna, nomeando-me regente Voluntário do Curso de Alfabetização de Adultos, localizado no então 9.º Grupo Escolar de Bauru, na Vila Independência, onde lecionava das 19h às 21 horas, de segunda a sexta-feira. O prédio do 9.º Grupo Escolar de Bauru era de madeira, hoje em novo prédio, funciona a escola estadual Prof. Henrique Bertolucci.
Além de regente de curso eu exercia também, as funções de secretário das reuniões pedagógicas mensais do Curso de Alfabetização de Adultos de Bauru, que se realizavam com todos os regentes de cursos sob a presidência do professor Joaquim De Michelli, no prédio do 9.º Grupo Escolar, cujo professor é o diretor do Gesc. e auxiliar de Inspeção do Município de Bauru.
Aposentado do magistério estadual, 71 anos de idade, lamento profundamente, passados 54 anos (1947/2001) da primeira campanha nacional contra o analfabetismo, ainda não foi erradicado do Brasil, o analfabetismo. Pior ainda saber que, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, prevê que, em 2020, o Brasil terá 4 milhões de analfabetos, pessoas sem saber ler e escrever. Inconcebível! Ressalte-se, por outro lado, outra humilhação, o exercício do magistério em nível de educação básica, transformado em subemprego pelos aviltantes salários pagos aos professores, inclusive, os professores aposentados, tratados pelo Governo, como coisa descartável.
Porém, é tese pacífica. Só a educação do povo com padrão de qualidade de ensino e professores valorizados, o Brasil terá progresso e será uma Nação respeitada. (Rodolpho Pereira Lima)