Todos os pacientes avaliados tinham sintomas de depressão e 84% deles apresentaram diagnóstico de depressão grave
Um estudo realizado no ambulatório de Endocrinologia da Unifesp comprovou: é elevada a ocorrência de transtornos emocionais em pessoas com problemas graves de obesidade. A depressão é a mais freqüente. Foi detectada em 100% dos pacientes avaliados. É a primeira vez que esse tipo de trabalho é aplicado em pacientes brasileiros.
O grupo avaliado na pesquisa de mestrado da psicóloga Maria Isabel de Matos incluiu 50 pessoas (40 mulheres e dez homens) com obesidade grau três também chamada de obesidade mórbida.
Depois de passar por diversos tipos de tratamento sem sucesso, todos eles receberam indicação para fazer a cirurgia de redução do estômago.
A psicóloga traçou, inicialmente, um perfil dos obesos que foram ao ambulatório a partir de março de 1998, com idades que variavam entre 18 e 65 anos. Em seguida, ela fez a avaliação psicológica propriamente dita e resolveu enfocar o estudo em três aspectos principais: a depressão, a ansiedade e a compulsão alimentar.
A constatação mais preocupante foi que 100% dos pacientes tinham sintomas de depressão, 84% dos quais apresentaram diagnóstico de depressão grave. A ansiedade apareceu como traço de personalidade em 70% dos casos. Além disso, 54% dos pacientes apresentaram episódios de compulsão alimentar.
Sabemos que os fatores psicológicos podem influenciar de forma negativa no resultado dos tratamentos para redução de peso. Por isso, eles precisam ser diagnosticados e acompanhados com seriedade, afirmou a endocrinologista Maria Teresa Zanella, orientadora da pesquisa.
Quando se trata de pacientes que têm indicação para fazer a cirurgia de redução do estômago, esse cuidado precisa ser redobrado. Depois da cirurgia, a pessoa precisará encarar um longo período de adaptação, que começa com uma alimentação somente a base de líquidos, explica a médica. Se tiver transtornos como a compulsão, poderá prejudicar a cirurgia e até colocar sua vida em risco.
Dados levantados em 1999 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 36% da população brasileira é obesa ou está acima do peso. Para ser considerado obeso grave, entretanto, o paciente precisa ter Índice de Massa Corpórea (IMC) medida que estabelece uma relação entre peso e altura igual ou superior a 40.
O obeso grave quase sempre desenvolve outros problemas de saúde. Entre eles estão a hipertensão, o diabetes e as doenças cardiovasculares.
A dona-de-casa Wanda Cardoso, 58 anos, conta que sempre foi cheinha, mas quando chegou aos 38 anos começou a ganhar peso rapidamente. Hoje, com 1,45 metro de altura, tem 108 quilos e sofre de hipertensão. Apesar do jeito alegre, conta que enfrentou vários problemas por causa da obesidade. Não encontrar emprego, com certeza, foi o maior deles, lamenta.
Outro aspecto que o estudo procurou avaliar foi a imagem corporal que os pacientes têm de si próprios. Diferentemente do que acontece com outros distúrbios alimentares (nos quais o paciente pode se considerar mais gordo do que é na realidade), os obesos graves têm uma preocupação condizente com os problemas que enfrentam no dia-a-dia em função do seu tamanho.
O comerciante Nelson Marques Rossi, 44 anos, tem 1,80 metro e mais de 200 quilos. Depois de tentar inúmeros tratamentos para emagrecer, desde os 18 anos, ele espera que a cirurgia para redução do estômago sirva como um pontapé inicial para sua mudança de vida. Nem sei mais há quantos anos não ando de ônibus. É impossível passar naquelas roletas, constata. Espero um dia voltar a fazer coisas normais.
Robson Pastorelli, de 27 anos, também tem obesidade grave e fez parte do estudo da Unifesp. O acompanhamento psicológico tem sido muito importante para mim. Me sinto mais consciente a respeito do problema que preciso enfrentar, avalia.
Para Maria Isabel, é fundamental tratar a obesidade grave como uma doença multifatorial, que envolve fatores genéticos, ambientais e psicológicos. Por isso, cada caso precisa ter suas particularidades investigadas.
Não podemos considerar que exista uma personalidade do obeso. E muito menos que todo obeso não tem personalidade ou é preguiçoso. Esse tipo de preconceito só dificulta o tratamento, ressalta a autora da pesquisa.
Maria Isabel pretende continuar o estudo acompanhando a incidência dos transtornos emocionais após a cirurgia de redução do estômago. Como alguns pacientes já começaram a ser operados, ela está otimista: Nesses primeiros casos, os sintomas simplesmente desaparecem.
Obesidade mórbida
O peso corpóreo e a distribuição de gordura são regulados por uma série de mecanismos neurológicos, metabólicos e hormonais que mantém um equilíbrio entre a ingestão de nutrientes e o gasto energético. Quando há uma desregulação nestes mecanismos de controle levando a um excesso da ingestão em relação ao gasto energético, ocorre um armazenamento da sobra de energia sob a forma de gordura, traduzindo-se no aumento do peso corpóreo.
A obesidade é, portanto, definida como um excesso do acúmulo de gordura no corpo. Quando este acúmulo atinge grandes proporções, passa a ser chamada de obesidade mórbida. A maneira mais objetiva e mais utilizada para quantificar a obesidade é o cálculo do Índice de Massa Corpórea. O IMC é obtido dividindo-se o peso em quilos pela altura em metros elevada ao quadrado.
Pessoas com IMC de 25 a 30 são consideradas como acima do peso, enquanto aquelas entre 30 e 40 já são classificadas como obesas. Finalmente, pessoas com IMC acima de 40, são portadoras de obesidade mórbida, o que equivale aproximadamente 45 Kg acima do peso ideal.
A estratificação dos indivíduos com base no IMC agrupando-os em diferentes classes de peso guarda uma relação direta com a taxa de mortalidade, variando de baixíssima em pessoas com índice normal até altíssima naqueles com IMC acima de 40 Kg/m.