Dois fatos muito significativos ocorreram no final de 2001 na direção do crescimento do intercâmbio entre o primeiro e o quarto mais populosos países da América do Sul, que tem entre si uma fronteira comum de quase 3000km. E que, apesar disso, mantêm um comércio bastante limitado, da ordem de US$ 500 milhões a US$ 600 milhões/ano (na soma exportações + importações) e um tráfego turístico ainda restrito.
O primeiro fato foi a realização do Encontro Brasil-Peru no Acre, promovido pelo governo desse estado, com a presença de empresários de vários setores, especialmente de transporte, autoridades federais, locais, de Rondônia e do Mato Grosso, embaixador e cônsules do Peru e especialistas em transporte aéreo.
A falta de sistemas adequados de transporte, principal problema que afeta o aumento do intercâmbio, tornou-se o centro das discussões, na busca de soluções. Na verdade, embora o crescimento do comércio e do turismo beneficie ao país como um todo e também ao nosso vizinho - o interesse maior está nos estados do oeste do país, particularmente no Acre, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, que fazem fronteira com o Peru, ou podem chegar lá através da Bolívia.
Para o turista desses estados, as praias do Pacífico no Peru são muito mais próximas do que as do Brasil. Mas hoje o acesso é muito difícil, pois para ir por via aérea é necessário voar mais de 4000 km até São Paulo, uma distância muito superior a que os separa do Pacífico. Por outro lado, as mercadorias, particularmente a carne bovina, a soja, o açúcar, encontram dificuldades de escoamento por falta de estradas e o mesmo acontece com os produtos que poderiam vir do Peru.
No final do Encontro Brasil-Peru no Acre, a Varig se comprometeu a colocar um vôo cargueiro entre a região e Lima e a estudar via sua subsidiária Nordeste uma linha de passageiros. E a companhia aérea local TAVAJ, ao lado da Real Expresso e das empresas peruanas Lan e Tans se dispuseram a colocar vôos regulares entre Rio Branco e Puerto Maldonado - de onde há Boeings para Cuzco e Lima. Além disso, a transportadora Expresso Araçatuba decidiu estabelecer uma freqüência regular de ônibus ligando essas cidades.
Se efetivadas essas decisões e complementadas as obras rodoviárias em andamento, terá sido dado um grande passo na integração entre os dois países e na ligação Atlântico-Pacífico.
O segundo fator relevante foi a formalização de uma linha regular de transporte rodoviário entre São Paulo e Lima, através da Bolívia pela transportadora Araçatuba, pioneira no desbravamento de rotas para o noroeste do país. Seus caminhões já estão transportando produtos diversificados, permitindo o abastecimento regular de mercadorias por via terrestre, que embora um pouco mais cara, é muito mais rápida que a marítima, cujo caminho pelo sul do continente é muito longo.
As duas iniciativas se enquadram no esforço iniciado através da ADVB - Associação dos Dirigentes de Marketing e Vendas do Brasil, que através dos três Fóruns Brasil Peru, vêm contribuindo para aproximar empresários e autoridades dos dois países.
São fatos auspiciosos para aqueles que acreditam na integração da América do Sul como uma forma de expandir o mercado interno, criar vínculos culturais e sociais e preparar nossos países para negociações mais difíceis com os grandes blocos econômicos.
(*) Mario Ernesto Humberg é consultor de empresas, presidente da CL-A Comunicações, membro do Conselho Empresarial Brasil Peru e conselheiro da ADVB - Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.