Tribuna do Leitor

HOSPITAL REGIONAL - NEM TUDO ESTÁ PERDIDO...

(*) Luiz Otávio B. Vianna
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar do sentimento de perda de muitas organizações locais, pelo fato de o Hospital Regional ser entregue à Unesp - Faculdade de Medicina de Botucatu, penso que inúmeras questões não menos importantes deveriam agora ocupar as mentes das lideranças políticas, comunitárias ou profissionais de Bauru e região. A capacidade gerencial daquela organização deve ter sido bem avaliada e partindo deste princípio, não há mais o que discutir. No entanto, em relação ao “o que se vai fazer com o hospital?”, alguns aspectos deveriam ser amplamente discutidos com a comunidade. Senão vejamos:

- Qual será o perfil do novo hospital? É lógico supor que está sendo construído para suprimir a falta de determinadas estruturas em vista da demanda da população que se quer abranger: leitos em especialidades específicas; unidades de tratamento intensivo; serviços de diagnóstico e terapia. Ao ser atribuído a uma faculdade de Medicina, o perfil desse hospital não será modificado? Sua missão de atender às demandas da população será mantida, ou o foco deverá ser direcionado para as necessidades da Faculdade, em relação àquilo que os alunos precisam para um bom aprendizado? A resposta a esta questão interfere diretamente, se não nas especialidades que deverão ser atendidas, certamente no quanto da estrutura estará disponível para essa ou aquela especialização. Será que vão coincidir as necessidades da população com as necessidades do ensino?

- Ainda com relação ao “perfil” do novo hospital, haverá um planejamento geral, que leve em conta a existência por exemplo em Bauru, dos hospitais, de Base, Manoel de Abreu e Maternidade Santa Izabel, além de outros na região, diretamente envolvidos com o sistema público? Se esse planejamento não ocorrer, poderá resultar duplicidade de algumas estruturas e manutenção de carências em outras. É de se esperar, portanto, que haja o estabelecimento de atribuições diferenciadas aos diversos hospitais e dessa discussão, possam participar os vários segmentos interessados e afetos à questão;

- Outro aspecto de grande importância, decorre do fato de o modelo atual de gestão da assistência pública de saúde, estar baseado em “tetos/limites” físicos (procedimentos a serem realizados) e financeiros (cota de gastos), estabelecidos em relação à população assistida, ou seja, para a população de Bauru e região, são fixados os limites: quanto se pode gastar e quanto se pode atender. É inegável, que os custos da assistência prestada em um hospital universitário, por uma série de razões, são maiores que a mesma assistência prestada fora de um hospital escola. A SES/SP dispõe suficientemente desses dados. Basta comparar, por exemplo, os índices de “produção x custos” obtidos pelos hospitais que nos mesmos moldes do regional de Bauru, foram entregues, à Escola Paulista de Medicina e às Irmãs Marcelinas, ambos na grande São Paulo. O que interessa saber é se os custos mais elevados e a realização de um número maior de procedimentos (características dos hospitais universitários), não vão acabar prejudicando a população, uma vez que os citados “limites”, acabam sendo atingidos mesmo com um menor número de pessoas atendidas;

- Restaria ainda, por não menos importante, discutir-se o modelo de gestão a ser aplicado no hospital. Existirão mecanismos de controle e avaliação que permitam a efetiva participação da comunidade usuária (clientes internos e externos)? Ainda citando hospitais construídos pelo Estado e entregues ao gerenciamento de organizações sociais, também neste caso, a Secretaria de Saúde possui dados concretos sobre formas bem-sucedidas de participação de conselhos comunitários e os resultados daí advindos. Um exemplo? O Hospital Geral de Pedreira (localizado igualmente na grande São Paulo).

É realmente motivo de preocupação, o destino administrativo do Hospital Regional de Bauru. O gerenciamento de qualquer hospital, independente de seu porte e especialidade, é por si só, bastante complexo. Mais ainda, quando se fala de um hospital geral que deverá contar com 400 leitos, muito provavelmente todas as especialidades médicas e outras tantas profissões da saúde, voltadas para um atendimento de abrangência regional. Efetivamente, trata-se de um empreendimento de grande porte e altíssima complexidade administrativa. Por isso mesmo, seu planejamento não deve se restringir aos aspectos de instalações físicas, recursos materiais e humanos, nem tampouco se esgota na definição de qual instituição deverá gerenciá-lo. O que realmente importa e vai influir no nível de satisfação que o hospital poderá apresentar a Bauru e região, espero que ainda esteja por ser discutido e, aí sim, podemos afirmar que nem tudo ou quase nada está perdido. Portanto, lideranças constituídas, organizações de representação social, cidadãos interessados no assunto: temos ainda muito trabalho pela frente. Eu, de minha parte, havendo abertura e oportunidade, estou pronto a participar e dar minha contribuição.

(*) Luiz Otávio Barbosa Vianna - RG: 7.842.908

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