O ex-ministro e embaixador Roberto Campos, recentemente desaparecido, foi figura polêmica pelas idéias que sustentava. Em torno de sua brilhante inteligência, porém, nunca houve controvérsia: todos a reconheciam, mesmo os seus mais vigorosos opositores. E, dentre os traços característicos de sua manifestação, situava-se o espírito sardônico com que vergastava os seus opositores. De tal espírito é exemplo antológico a frase a ele atribuída e segundo a qual “a burrice, no Brasil, tinha um passado glorioso e um futuro promissorâ€.
De nossa parte, porém, sem a pretensão de possuir a acuidade do intelectual a que nos estamos referindo, diríamos que, o que ele atribuía à falta de inteligência, não nos parece uma exclusividade da nossa sociedade - trata-se, aparentemente, de mal que tem afligido inclusive as que se consideram do 1.º mundo, as quais, sideradas por uma tremenda e avassaladora propaganda enganosa, têm se comportado de modo a justificar, não o dizer-se um passado glorioso mas, ao contrário, um trágico passado, ademais prenunciador, não de um futuro promissor mas, ao revés, de um futuro sombriamente inquietante.
De fato, pensamos, a cupidez insaciável dos que regem a orquestra da propaganda enganosa a que acabamos de referir-nos, os vem cegando a ponto de não perceberem que os seus dias estão inexoravelmente contados, tendo marcado os lamentáveis atentados do 11 de setembro do ano passado um ponto de inflexão sem volta razoavelmente presumível. Daí, a brutal arrogância a que o mundo vem assistindo, muito menos indicativa de força do que do desespero com que agem os que, no fundo, se sabem acuados. Trata-se, para eles, de uma cartada de tudo ou nada, pois sabem que, quando as multidões dos excluídos do mundo tomarem consciência de que eles existem e do que eles, na verdade, representam, não terão para onde correr para esconder-se.
Mas, segundo nos parece, nem no caso deles nem no caso de suas vítimas, entre as quais estão incluídos os brasileiros, os equívocos praticados foram devido à falta de inteligência, mas do açulamento de paixões capazes de produzir desvios de comportamento, em fenômeno assemelhável aos que resultam do consumo de drogas alucinógenas. E tudo isso se tem tornado possível desde quando, pela confusão deliberadamente estabelecida entre o conceito de liberdade e o seu uso por parte de seres como somos todos, dotados de boas e más tendências, foi a liberdade transformada em licenciosidade, o que abriu as portas para a promoção de todos os impulsos instintivos, na alucinação coletiva a que nos referíamos acima.
É que os seres humanos não apenas entendem, no sentido intelectual, mas também sentem, na esfera emocional. E esta, freqüentemente, impulsiona a ação de maneira mais eficaz do que o entendimento intelectual.
O que falta, portanto, aos povos, no momento, não é inteligência: faltam informações honestas, que não tenham sido viciadas, na fonte, pela propaganda enganosa que, em catadupa, nos tem atordoado e siderado a quase todos. São, as considerações acima, temas que propomos à reflexão dos que nos honram com a sua leitura. (Jorge Boaventura - home-page: www.jorgeboaventura.jor.br - e-mail: boaventura@jorgeboaventura.jor.br)