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Cuba na mira de Bush

Joaquín Roy
| Tempo de leitura: 3 min

De acordo com clamorosos rumores, George W. Bush decidiu encarar de uma vez por todas o final do regime castrista. Foi entre o ceticismo e o escândalo que se recebeu a morte anunciada de regimes como os do eixo diabólico composto por Coréia do Norte, Irã e Iraque. Agora, fala-se claramente em terminar com o de Havana e preparar a transição. A faísca que teria detonado a bomba seria a recente detenção de um diplomata norte-americano no aeroporto de Havana, o registro e confisco de sua bagagem diplomática e o conseguinte protesto do Departamento de Estado.

Os observadores devem perguntar-se onde está a novidade diante de outras tentativas ao longo de mais de 40 anos depois da consolidação da Revolução Cubana. A chave reside no novo clima internacional, depois dos ataques de 11/9, a identificação do terrorismo internacional como o inimigo a ser abatido, e o abandono paulatino do multilateralismo pela política unilateral, sem preocupar-se com a opinião pública mundial. A novidade em Cuba estaria na atitude conciliadora de Castro, depois de algumas declarações contrárias, poucas horas depois da tragédia das Torres Gêmeas. Esta prudente conduta estaria confirmada pela aparentemente surpreendente colaboração oferecida por Castro aos Estados Unidos frente ao uso da base de Guantanamo. Até aqui tudo tem um certo sentido.

Além disso, a tese da nova política estaria confirmando, uma vez mais, a teoria do parcelamento da política externa dos Estados Unidos entre grupos de interesses em temas que não são cruciais para a segurança nacional, global ou regional. Cuba não é uma ameaça, nem faz nenhuma chancelaria perder o sono, e, portanto, pode ser entregue a um setor do qual se obtém um apoio concreto e pontual. Se o roteiro for seguido, e a apresentação, desenvolvimento e desenlace da trama desembocarem num final rápido (e, supõe-se, incruento) do regime castrista, seria tragicômico que o desaparecimento do sistema totalitário cubano fosse conseguido, depois de mais de quatro décadas de tentativas sistemáticas, todas elas contraproducentes (invasões, infiltrações, leis extraterritoriais e embargos).

Curiosamente, um dos perdedores desse desenlace seria nada menos que o próprio Papa, de cuja visita, em 1998, ainda lembrada, se esperavam resultados milagrosos. Como se fosse um exorcista, de seus poderes se desejava um resultado semelhante à decomposição dos regimes do Leste da Europa, em cuja estratégia teria sido efetivo aliado de Ronald Reagan. Se Castro caísse como resultado do périplo papal e de seus poderes religiosos, o resultado seria uma derrota norte-americana e dos esforços dos cubanos exilados.

Também deve-se contar com os países vizinhos, alarmados com uma desestablização em contraste com a situação atual. E, naturalmente, em caso de obter-se a ativação da lei Helms-Burton, será o caso de ver se a União Européia desencadeia uma guerra comercial com os Estados Unidos e, de quebra, se produz a destruição da Organização Mundial do Comércio. Mas, toda essa lógica pertence à era anterior a 11/9. Agora, tudo é tão previsível quanto o inimaginável.

(*) O autor, Joaquín Roy, é catedrático Jean Monnet de Relações Internacionais e pesquisador sênior do Centro Norte-Sul da Universidade de Miami. E-mail jroy@miami.edu

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