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Malemolência da mulata

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Os repórteres da comunicação eletrônica pronunciam de forma errada o nome desse mosquito que está infernizando grande parte da população brasileira - Aedes aegypti. As duas palavras iniciadas por ditongos que são entrelaçados no latim, têm som de E aberto. A letra T tem som de C. Quem nasce no Egito é egípcio - do latim aegyptiu.

Esse pernegudo chegou ao Brasil por volta de 1630 de carona nos navios negreiros. A escrava acometida com os mal-estares e dores ósseas provocadas pela dengue andava bamba e o requebro das cadeiras estimulava a libido do patrão. Vem daí o dengosa para qualificar a malemolência das mulatas.

Deixando a cultura de almanaque de lado para melhor cumprir com a nossa responsabilidade social, é lamentável dizer que o espectro da dengue que aterroriza o País poderia ter sido evitado. Matéria da revista Época deixa clara a posição do governo federal em menosprezar o problema e engavetar o plano cuidadosamente elaborado pelo então ministro da Saúde Adib Jatene, em 1996. Os técnicos e cientistas do Ministério diziam em relatório ao presidente FHC que o Brasil seria castigado por uma epidemia de dengue hemorrágica se não fossem adotadas medidas preventivas. Além de advertir e avaliar, o documento de Adib Jatene propunha ações concretas em seu mais alto nível, detalhava-as e orçava um plano de guerra completo e impecável: custaria R$4 bilhões.

Jatene sofreu da mesma síndrome de ignorância que em 1903 levou à execração pública Oswaldo Cruz, na sua cruzada contra a febre amarela transmitida pelo mesmo Aedes aegypti. FHC e seus chegados consideraram caro, caríssimo, esse plano para resguardar a saúde do povo brasileiro. Mas não propuseram nenhuma alternativa mais em conta. Segundo esses assessores, “embora Jatene tenha feito um bom plano, ninguém foi capaz de dizer onde ser possível conseguir tanto dinheiro para bancá-lo”. Belo exemplo de cinismo. A memória curta desses áulicos palacianos obriga-nos a perguntar. E o dinheiro da arrecadação da CPMF, aquela contribuição provisória idealizada pelo próprio Jatene para reforçar o orçamento da Saúde? A arrecadação estimada desse tributo que vai se eternizando é de R$19 bilhões. Muito pouco contempla o SUS e as campanhas contra as endemias e epidemias. Para um governo que encontra dinheiro para socorrer bancos falidos e para o pagamento de todas as exigências dos credores internacionais, R$4 bilhões é dinheiro de trocado.

Bonito fez a jovem bióloga Alessandra Laranja, da Unesp, que começou a colocar borra de café nos vasos de planta de sua casa. Verificou com surpresa que a borra do coador impede o desenvolvimento dos ovos, mata as larvas já existentes e afugenta o mosquito. Esse processo tão barato, fruto de uma dissertação de mestrado, parece uma panacéia, mas não é. Essa conclusão é dos cientistas que leram o trabalho descritivo de todas as experiências da competente bióloga. O Brasil é assolado por dengues dos tipos 1 e 2 e chega ao terceiro estágio da doença que provoca hemorragias internas no infectado, muitas vezes levando-o à morte. A Prefeitura de SJ do Rio Preto está difundindo esse trabalho de pesquisa. Naquele município estão sendo distribuídos folhetos explicativos do uso da borra do café. Além do custo zero, ela não é tóxica e nem prejudica as plantas, podendo servir até como adubo.

(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC

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