E.C.C., 13 anos, foi assassinado com um tiro em frente à escola Ayrton Busch, no Parque Jaraguá, no início da tarde de ontem. O garoto, que havia deixado de estudar, morava no mesmo bairro e era conhecido da polícia, sendo inclusive suspeito de estar envolvido no latrocínio (roubo seguido de homicídio) de um carroceiro, no ano passado. O tiro, segundo a polícia apurou junto à família da vítima e moradores do bairro, foi disparado por um rapaz, provavelmente adolescente, que mora na região do Jaraguá.
A morte de E.C.C. foi a segunda do dia no bairro. Na madrugada, um homem de 31 anos foi morto a tiros, a poucas quadras da escola. Até ontem à tarde, a polícia não sabia se os crimes têm ou não relação, segundo o delegado J.J. Cardia, titular da Delegacia de Investigações Gerais/Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra), que está investigando os casos.
Outros dois adolescentes, que seriam amigos do autor do disparo, teriam presenciado o assassinato de E.C.C. Até o início da noite de ontem, as polícias Civil e Militar conheciam apenas os apelidos do acusado de efetuar disparo e de seus dois amigos, mas ainda não os havia encontrado.
O crime atraiu mais de 50 pessoas, a maioria crianças e adolescentes, que ficaram na rua conversando em pequenos grupos. Porém, à polícia e à imprensa, todos diziam não ter visto nada, não saber de nada e não conhecer o acusado de ser o autor do disparo. A avó materna de E.C.C., a dona de casa Laudelina Cardoso, foi uma das poucas pessoas a falar sobre o crime. Ela conta que uma testemunha lhe disse que três rapazes bastante conhecidos no bairro foram até onde seu neto jogava futebol, perto da escola.
Um deles teria aproximado-se e efetuado o disparo, enquanto os outros ficaram na esquina, dando cobertura à ação. Pelo menos dois dos citados são conhecidos da polícia, suspeitos de envolvimento em outros homicídios no bairro. O motivo da morte de E.C.C. ainda não está esclarecido, mas existem três suspeitas principais.
A primeira é de briga de rua por motivo banal; a segunda de acerto de contas de dívida de droga, e a terceira é vingança por assassinatos anteriores ocorridos no bairro. Anteontem, E.C.C. teria brigado com um outro menino, segundo algumas crianças que estavam no local do crime e foram ouvidas pelo JC (os adolescentes e os adultos, provavelmente com medo de represália, não revelaram nada). Essas crianças disseram que o menino freqüentemente estava envolvido em brigas.
A sargento Eliete Tavares Martins, que responde interinamente pela Base Comunitária Noroeste, conta que E.C.C. já esteve internado na Gilgal (entidade de recuperação de dependentes químicos). A avó do adolescente disse que ele já estava ameaçado de morte por moradores do bairro, fato que vinha preocupando a família.
Ela disse desconhecer o motivo pelo qual seu neto era ameaçado e acabou morrendo. E.C.C. morava com a avó, a mãe e sete irmãos mais novos a poucas quadras do local onde foi morto. O tiro acertou o menino no rosto. Ele chegou a ser socorrido ao Pronto-Socorro Municipal, mas já chegou morto.
Banalização da violência
Além de um grande número de adolescentes, crianças de apenas 4, 5, 6 anos estavam em frente à escola Ayrton Busch ontem à tarde observando a movimentação após a morte de E.C.C. Uma menina de 7 anos conta à reportagem do JC que já presenciou várias brigas, viu uma pessoa morrer atropelada e corpos de vítimas de homicídio.
É a banalização da violência que, segundo a psicóloga Carmen Maria Bueno Neme é muito prejudicial à criança e afeta não só pobres, que vivem em bairros violentos, mas todas as classes sociais. “As crianças do Jaraguá vêem a violência ao vivo enquanto outros, que moram em bairros considerados mais seguros, assistem a programas, desenhos e filmes na TV ou jogos violentosâ€, lembra a psicóloga.
Ela explica que essa exposição à violência aumenta a probabilidade da criança, ao crescer, envolver-se em crimes. “Uma criança exposta à muita violência tende a ter pânico de situações assim ou banalizá-la, achar que é comum e até envolver-seâ€, diz.
Mais o principal fator na escalada da violência, na opinião de Carmen, é a desigualdade econômica, social e cultural. “A desigualdade leva os jovens a perder os seus valores, inclusive da vida. Ele não tem nada enquanto a sociedade o impulsiona a consumir, mas não lhe oferece oportunidade, educação, emprego... Diante dessa situação, perdido por perdido, esse jovem aposta em ser alguma coisa através do crimeâ€, afirma.
A família é importante na formação do indivíduo, mas não é tudo, segundo a psicóloga. “A família também é vítima dessa sociedade de desigualdade econômica, social e cultural. Não podemos culpar apenas a famílias. Toda a sociedade tem culpa nesse processo. A criança já é marginalizada na sociedade e muitas vezes também é marginalizada na escola. Isso tudo pode explodir em violência em algum momentoâ€, diz.
Internado
O adolescente T.H.C., 16 anos, que na semana passada foi esfaqueado em uma briga na Praça Samuel Brasil Reis, que fica em frente à escola estadual Stela Machado, na Vila Falcão, continua internado, em estado regular. O acusado de tentar matar T.H.C., que também seria adolescente, ainda não foi localizado pela polícia.
Além do assassinato em frente à escola Ayrton Busch ontem, a tentativa de homicídio da semana passada, Bauru teve algumas agressões menos graves envolvendo estudantes. A maioria, no entanto, envolve não-estudantes e é registrada fora das escolas. Os dois crimes mais violentos envolvendo escolas foram registradosem 1997 e 1998. No primeiro, um adolescente de 15 anos foi morto a faca dentro da escola Luiz Castanho, localizada na V. Falcão, por um colega de classe. Já no segundo, um servente de pedreiro foi morto com um tiro, em frente à escola Luiz Zuiani, localizada no Jd. Marambá, por um adolescente de 17 anos.