Política

Dota Jr. deixa liderança do prefeito e diz que cidade está sem comando

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 7 min

O vereador Milton Dota Jr. (PTB) não é mais o líder do prefeito Nilson Costa (PPS) na Câmara Municipal. Ontem, ele anunciou seu rompimento com o prefeito e com o Governo Municipal e fez duras críticas à situação da Administração. A decisão ocorre um dia depois do petebista pedir, publicamente, a exoneração do secretário municipal de Obras, arquiteto Edmilson Queiroz Dias.

“Estou rompendo com o governo por não concordar com o encaminhamento das questões administrativas por parte do senhor prefeito municipal”, adiantou ao JC. A seguir, Dota Jr. concedeu esta entrevista ao repórter Franco Jr., da Rádio Auri Verde, que foi ao ar no final da noite de ontem.

Franco Jr. - Que decisão o senhor tomou hoje diante dos problemas com a Administração? Dota Jr. - Eu quero deixar o prefeito bastante à vontade nas suas decisões político-administrativas. Eu entendo que a partir do momento que tenho o posicionamento que se contrapõe à vontade política do prefeito tenho, por obrigação, de me afastar de toda e qualquer articulação política em prol do prefeito do Município.

Pergunta - O senhor, na última segunda-feira, teve um desentendimento com o secretário de Obras, Edmilson Queiroz Dias. Até que ponto esse desentendimento pesou na sua decisão? Dota Jr. - É única e exclusivamente por esse desentendimento. Eu entendo que nós não podemos esperar mais 60, 90 dias para resolver os problemas dos buracos na cidade. É essa que é a questão. A população não agüenta mais. É como uma injeção de morfina num doente terminal. Vamos dar mais uma injeção para o paciente sobreviver mais algum tempo. Acho isso inadmissível. E eu como homem público e cidadão cumpridor dos meus deveres não posso coadunar com isso.

Pergunta - Esse rompimento é definitivo? Dota Jr. - É político, inclusive.

Pergunta - O senhor, nos últimos 14 meses, defendeu a Administração na Câmara Municipal. Durante esse período, a Administração foi alvo de inúmeras denúncias de irregularidades. Até que ponto essas denúncias pesaram na sua decisão? O senhor teve as explicações que foi buscar para os esclarecimentos dessas denúncias? Dota Jr. - Eu gostaria de deixar uma posição para a população. Eu respeito a pessoa do prefeito Nilson Costa e entendo que ele tem boas intenções para gerir os destinos da cidade de Bauru. Mas acontece que o prefeito perdeu as rédeas do comando político da Administração Municipal, perdeu o controle. Hoje, qualquer um faz o que bem entende. Eu, até hoje, tentei, de todas as maneiras, fazer com que esse processo se revertesse. Mas depois da fala do prefeito na televisão nessa noite (de ontem), eu percebi que realmente o prefeito está preocupado única e exclusivamente com si mesmo.

Pergunta - Perdeu as rédeas para quem, vereador? Dota Jr. - Para si mesmo. Ele não tem mais o controle da Administração. A cidade está como uma nau sem rumo. Mas eu respeito o prefeito. Não gostaria, repito, de ser o algoz de sua passagem.

Pergunta - Com relação às denúncias, o senhor sempre teve as explicações necessárias para o esclarecimento? O senhor sai sabendo que as denúncias não passam de denúncias, o senhor tem dúvidas? Dota Jr. - Surgiu um fato novo hoje (ontem) que me deixou bastante preocupado. É um ofício da CPFL que, segundo consta, estavam usando de todos os meios possíveis para que esse ofício não chegasse ao conhecimento da comissão. As instalações elétricas da perfuração do poço Roosevelt levaram 73 dias para se concretizar. A informação que tenho, e vou apurar isso, é de que a Administração estava intercedendo junto à CPFL para que esse documento não viesse a público, principalmente, na comissão que apurou irregularidades na perfuração do poço do DAE. E que, apenas e tão somente, com a intervenção do Ministério Público do Estado de São Paulo, através de um meio, inclusive, determinante, ou seja, corrente, a CPFL se viu obrigada em fornecer esse documento. E para mim isso muda todo o rumo das investigações atinentes à perfuração do poço Roosevelt.

Pergunta - Muda a opinião do senhor, também, em relação ao relatório final da comissão da qual o senhor faz parte? Dota Jr. - Em princípio, sim. Mas eu não gostaria de dar uma posição conclusiva. Recebi esse documento hoje (ontem) no final da tarde. Encetei esforços no sentido de apurar com maior profundidade os acontecimentos e, amanhã (hoje) pela manhã, logo cedo, estarei na Câmara para poder ter uma visão mais clara do que realmente aconteceu.

Pergunta - Essa análise do senhor vem na véspera da votação do relatório final da CEI do DAE. Até que ponto essas informações adicionais vão servir para que o senhor possa, amanhã, votar esse relatório? Dota Jr. - Eu posso dizer que estou repensando o meu voto. Mas eu queria ressaltar que esse documento é muito forte no sentido de demonstrar que o poço não era tão urgente assim, ao que parece numa análise preliminar, como tentou se demonstrar. Como não constava do processo e o que não está no processo não está no mundo, os documentos até agora apresentados sinalizavam para uma posição um pouco diferente. Mas as minhas conclusões apresentarei, com certeza, quando da votação da quinta-feira.

Pergunta - Outras denúncias que o senhor também defendeu a Administração da tribuna da Câmara. O senhor repensa essas denúncias também? A Cohab está sendo alvo de denúncias, o DAE foi alvo de outras denúncias, a própria Prefeitura em casos passados, como o do marmitex. São casos em que o senhor defendeu a Administração. Dota Jr. - Eu tenho por obrigação avaliar toda e qualquer informação que chegue à Câmara Municipal. Em relação às denúncias da Cohab/Bauru, eu já me posicionei. Sou favorável a instalação de uma Comissão Especial de Inquérito. Eu não tenho documentos para avaliar meritoriamente o que está ou não acontecendo. Desde que há denúncias, vamos apurar. Estamos aí para isso.

Pergunta - O senhor está decepcionado com a Administração nesse momento? Dota Jr. - Eu não estou decepcionado com o prefeito Nilson Costa. Ao contrário. Como um todo, não. A Administração peca por uma, vamos dizer assim, por um vínculo de amizade muito grande. E a Administração não tem amigos. A administração tem a população que tem que ser muito bem atendida. A Administração que tem amigos, vai fazendo tudo pelos amigos, inclusive passar por cima dos princípios da moralidade, da lealdade e da legalidade.

Pergunta - E isso aconteceu? Dota Jr. - Nós estamos aí para avaliar com mais vagar alguns posicionamentos.

Pergunta - Por exemplo, vereador... Dota Jr. - Eu não gostaria agora de me posicionar, Franco, até por conta do adiantar da minha fala, mas amanhã (hoje), se Deus quiser, com a sua presença, nos prestigiando, estaremos dando uma entrevista coletiva na Câmara Municipal, a partir das 17h.

Pergunta - Só para fianlizar, qual será o posicionamento, a partir de agora, do vereador Milton Dota Jr., ex-líder do prefeito na Câmara Municipal? Dota Jr. - Eu entendo que a Administração está sendo vítima da cidade. Eu acho que quando há uma denúncia em relação ao Poder Público, a vítima não é o prefeito, não são os secretários, não são os funcionários. A vítima é a população de Bauru que já está estarrecida de tantos desmandos, de falta de comando, como nós temos presenciado nos últimos tempos. Infelizmente, eu esperava uma posição um pouquinho melhor e acreditei, até esse momento, que pudéssemos transformar essa cidade.

Desabafo

“O prefeito perdeu as rédeas do comando político da Administração Municipal”

“Hoje, qualquer um faz o que bem entende (na Administração Municipal)”

“Percebi que o prefeito está preocupado única e exclusivamente com si mesmo”

“A cidade está como uma nau sem rumo”

“Esperar 90 dias para tapar buracos é como dar injeção de morfina em paciente terminal”

“A população não aguenta mais (os buracos da cidade).”

"A Administração que tem amigos, vai fazendo tudo pelos amigos, inclusive passar por cima dos princípios da moralidade, da lealdade e da legalidade."

“Quando há uma denúncia em relação ao Poder Público, a vítima é a população, que está estarrecida com tantos desmandos.”

“A informação que tenho, e vou apurar isso, é de que a Administração estava intercedendo junto à CPFL para que esse documento não viesse a público.”

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