Tribuna do Leitor

Neutralidade que confraterniza

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 3 min

Teriam sido políticos e econômicos, unicamente, os motivos que possam ter levado vários povos a se desgastarem, conforme conta a história dos primeiros decênios do outro milênio, em guerras as mais cruéis que se conhecem na trajetória dos tempos? Foi só por isso que se desencadearam a 1ª e a 2ª guerras mundiais que envolveram países de todos os continentes, sacrificando pesarosamente milhões de militares e civis componentes de suas populações e decretando, assim, luto imperecível em todas elas? Por que debitar como fundamentais a essas invocações as causas primordiais de tão deploráveis desencontros? A fina flor da sociologia contesta o uso dessas motivações, pois considera que algo muito mais forte influiu para que deixassem de andar de braços dados os mentores das nações desmedidamente belicosas. Convencionam os sociólogos que ontem como hoje os homens levam seus pares a se digladiarem leoninamente por absoluta divergência de seus idiomas comuns. Eles não têm a mesma língua vocabular, falam da forma como o berço os ensinou e, conseqüentemente, não conseguem se entender no terreno da compreensão, da fraternidade e do amor humano. E, convenha-se com o acerto incontestável das eminentes conclusões da sociologia, pois quando vizinhos de parede-e-meia se dirigem uns aos outros em termos diferentes ou inteligíveis não podem mesmo se entender e, é lógico, harmonizar-se plenamente. O ideal seria, então, que todos falassem a mesma língua ou tivessem outro idioma além do seu. Chega-se, portanto, à conclusão de que a humanidade precisa, urgentemente, antes que novas destruições se abatam sobre suas bases, tentar uma forma de derrubar as barreiras lingüísticas que se encontram entre si, obstruindo a fraternidade universal, como ainda agora está ocorrendo na Europa e África, em que facções religiosas se debatem facinoramente, com uma selvageria estonteante. Fazer, então, com que todos possam se ajustar, falando um só idioma, constitui fator da maior importância para a comunhão das coletividades, porquanto será passível a elas, dessa forma, levar uns e outros a conhecerem, reciprocamente, os seus desejos, as suas necessidades e as suas aspirações. Aliás, atendendo a tal imperativo, há tempos o pacifista e filólogo Lázaro Luís Zamenhof idealizou e produziu para tal fim aquilo a que considerou “língua neutra universal” e deu a denominação de Esperanto (esperança), hoje disseminado em inúmeros países do mundo, nos quais se luta ardorosamente por sua definitiva implantação, bem assim em muitas cidades do Brasil e, igualmente, a nossa Bauru, de onde têm partido, desde 1980, gestões junto ao Congresso Nacional, por iniciativa da Sociedade Bauruense de Esperanto, tendo em vista conseguir a aprovação de projeto incluindo o ensino da língua neutra em todas as escolas do País, a partir da quinta série. Reconhece-se, a partir daí, uma contribuição valiosa que Bauru confere ao ideal da comunicação dos povos através do aprendizado e da fala dos vocábulos esperantistas no seio de sua juventude, aquela que um dia haverá de se incluir entre os grandes mandatários das nações, que abjurarão as guerras e os conflitos face à verdade de que “é conversando que se entende”, falando as mesmas letras, a mesma pronúncia e a mesma significação, sem necessidade de tiros, bombardeios e outras ferocidades de homens enfurecidos pela inveja e pelo desentendimento. É também a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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