Quem? O Nicanor. Morreu!
Era um esquisitão de grande alma e poucos amigos.
Depois do falecimento da mãe, há anos, vivia só e solitário, curtindo sua singela humildade.
Tipo exótico, extravagante, Nicanor era inteligente, prestativo e hábil nos seus conhecimentos como técnico de rádio e TV. Era bom como eletricista. Adorava conversar. Difícil, quando começava a falar. Entendia de tudo, ou de tudo entendia alguma coisa. Não sabia parar. E cançava o ouvinte.
Sempre disposto a servir, não sabia cobrar pelo seu trabalho. Impossível presenteá-lo. Não bebia, por causa dos conservantes. Se lhe déssemos um panetone, não aceitava por causa dos “agrotóchicosâ€, como dizia. Para compensar, dávamos-lhe roupas e utilidades.
A olhos vistos não gozava saúde, tratava-se a seu modo, pois conhecia todas as fórmulas medicinais.
Solteirão, levava a vida como queria.
Certa ocasião, pediu a um amigo que o acompanhasse a um Cartório. Queria doar sua casa e terreno aos velhinhos de São Vicente de Paulo. Assim foi feito.
Honestíssimo, tinha um conceito próprio e inabalável de honestidade, coisa rara em nossos dias. Se sobrasse, no conserto que fazia, um simples parafuso, vinha devolvê-lo. Impressionante!
Nicanor Garutti, brasileiro, solteiro, humilde filho do Senhor, mais de 70 anos, vivia na rua 7 de Setembro 4-26. Acompanhado por Deus.
Há duas ou três semanas, quatro, talvez, telefonou a um seu amigo.
- Dr., estou com dengue.
- Deixa disso, Nicanor, respondeu-lhe o amigo. Quebrei a perna e estou engessado. Não posso atendê-lo. Além do mais só um exame de sangue diagnosticaria esse mal. Você mora perto do Centro de Saúde, vá lá e peça o exame.
- Tá bem.
Três ou quatro dias após, o médico telefonou-lhe. Tocou, tocou, tocou e nada. mandou um parente procurá-lo. Apenas o silêncio respondeu às chamadas. Preocupado, recorreu à Polícia. Portão e porta arrombados, adentraram a humilde moradia. Na cama, morto, perna direita pendida fora do leito - leito?! Último sinal de seu apego à vida. Dengue? Provavelmente, enfarto.
Era, à sua maneira, um caráter.
Deixou, que saibamos, três amigos: dr. Francisco Arieta, Décio Croce e eu.
O Nicanor morreu. Quem? O Nicanor. Morreu!
Descanse em paz! (Hélcio Pupo Ribeiro - RG: 1.653.359)