Polícia

Ladrão passa a raptar por lucro maior

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

A onda de seqüestro, há poucos anos um crime típico apenas da Capital, vem atingindo o Interior Paulista. Marginais vislumbram um lucro maior com o crime e por isso estão migrando do furto e roubo para o seqüestro. O amadorismo dos marginais preocupa a polícia, que vê perigo na situação. O delegado titular do Grupo Especial de Resgate (GER), J. J. Cardia, alerta sobre o perigo. “Eles são amadores neste tipo de crime e por isso podem tomar atitudes precipitadas que resultem em tragédias”, diz.

Segundo o delegado, o amador não sabe planejar minuciosamente o crime. Acha fácil fazer um seqüestro e conseguir um bom dinheiro de uma só vez. “Eles esquecem que o seqüestro é um crime apenado com reclusão de oito a 15 anos”, frisa. Os marginais amadores neste tipo de crime, na opinião de Cardia, se apavoram facilmente e na maioria das vezes conhece a vítima.

“No caso ocorrido em Bauru, os seqüestradores não tinham planejado nem o cativeiro. Eles deixaram a vítima no meio de um matagal. O fazendeiro correu risco de vida. Poderia ter sido atacado por uma cobra ou animal do mato”, ressalta.

Outro risco que o fazendeiro correu foi se sofrer um problema de saúde. “Ele ficou amarrado por mais de 20 horas. Poderia ter tido um problema de pressão ou cardíaco”, ressalta. Ao contrário do que muitos pensam, qualquer pessoa pode ser vítima de seqüestro, adverte o titular do GER. “Na Capital, seqüestram até perueiros. Por isso a população deve ficar alerta. O seqüestro está banalizado”, explica. Fugir da situação é um desafio para a população, frisa o delegado. “Certos comportamentos favorecem o crime. A população deve ficar atenta. A rotina é um dos comportamentos que devem ser evitados”, conta.

A rotina, segundo Cardia, é condenável. “Mudar o horário e o itinerário é uma estratégia que pode dificultar a ação dos marginais”, diz. Ele aconselha, inclusive, que as pessoas não andem sempre sozinhas. “Algumas vezes elas devem arrumar companhia, se possível”. Ao sair de casa, as pessoas devem observar se há estranhos nas imediações. “Tanto quando a pessoa sai ou retorna para casa”, afirma.

Através do telefone, também é possível obter informações sobre um seqüestrável. “Os empregados da casa não devem dar informações por telefone sobre os patrões”, aconselha Cardia. Os empresários devem ficar atentos ao fazer contratações. “Antes de contratar empregados, os empresários devem consultar a Divisão de Vigilância e Captura para saber se o candidato tem passagem pela polícia”, orienta.

O Grupo Especial de Resgate planeja para este ano uma programação de palestras voltadas às pessoas que se preocupam com seqüestros. “Estamos nos organizando para orientar a família toda, desde o pai até as crianças”, adianta Cardia.

Medidas preventivas, segundo o delegado, podem evitar a ação dos seqüestradores. “Eles pensam que a polícia do Interior não está preparada para enfrentar este tipo de crime”. Os dois seqüestros ocorridos na região de Bauru foram esclarecidos em curto espaço de tempo, comemora o delegado seccional, Antônio Ângelo Ciocca. “O seqüestro de Bauru não demorou nem 24 horas para ser esclarecido. O de Itapuí, na área de outra delegacia seccional, também foi esclarecido em tempo recorde”, frisa.

Versões contraditórias

Apresentar provas consistentes ao Ministério Público e ao juiz foi uma preocupação das polícias Civil e Militar, especialmente do Grupo Especial de Resgate (GER), frisa o delegado J.J. Cardia, que coordena o grupo. Esta preocupação fez com que os três rapazes acusados do sequestro fossem separados para que não pudessem trocar idéias ou mesmo combinar uma versão.

Por isso, cada um deles deu sua versão do seqüestro para a polícia. Cada um tentou se livrar de uma parte do crime para cortar uma condenação longa. A parte mais contraditória da história está logo no início. Um dos rapazes presos alega que a vítima foi colocada no carro, um Corcel II, no banco do passageiro, com um capuz no rosto. Outro diz que a vítima foi colocada no porta-malas do Corcel. Por isso, foi feita a reconstituição do seqüestro e a Polícia Técnica fotografou as duas versões.

A vítima garante que foi transportada no porta-malas do carro. Para comprovar a versão do seqüestrado, o GER requisitou a pesquisa de cabelos e outros resquícios achados naquela parte do veículo. As impressões digitais deixadas no carro também serão pesquisadas.

Anderson, que seria o idealizador do crime, tentou se livrar da acusação de tortura. Se ficar provado que a vítima ficou no porta-malas do carro, poderá configurar tortura. Ele também tenta se livrar da acusação de ter levado a vítima para o cativeiro. Para tentar comprovar sua versão, ele.

Por volta das 10 horas de quarta-feira, já com a vítima no cativeiro, ele procurou um proprietário rural das imediações e pediu para que ele apartasse um gado. Em seguida, procurou outro lavrador da região e fechou um negócio iniciado há uma semana, com o Corcel II. Ele vendeu o veículo e só o entregou depois de tê-lo usado no transporte do seqüestrado.

O carro foi encontrado na propriedade do comprador. Anderson alega que esteve com o proprietário rural para apartar o gado e com o comprador do veículo e não teria tempo para participar da prisão da vítima no cativeiro. Ele contou que entregou o carro e o comprador deixou ele e seus companheiros no trevo do Núcleo Gasparini.

Para justificar a companhia dos amigos, ele diz que encontrou os dois no caminho e desconhecia o que eles estavam fazendo. Anderson nega que tenha participado do crime. Além do Corcel, ele tinha uma caminhonete D-20, adquirida por mais de R$ 20 mil. Ele é suspeito de ter idealizado um roubo a um açougueiro. Ele teria comprado o açougue por R$ 15 mil pago em dinheiro e 15 minutos depois ter ssaltado o ex-proprietário. Conclusão, a vítima ficou sem o açougue e sem o dinheiro. Todos esses fatos serão investigados pela polícia nos próximos dias.

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