O fator financeiro, aliado à tendência feminina de resolver os problemas de forma emocional, faz com que muitas mulheres, mesmo nos dias de hoje, aceitem conviver com a violência, sem denunciar ou se separar do companheiro agressor. A titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Rejani Borro Ortiz Tiritan, explicou que, em alguns casos, isso ocorre porque a mulher não tem emprego e não sabe como se sustentar sem a presença do marido.
Em outras situações, mesmo tendo condições de viver sozinha, a pessoa prefere insistir na convivência com o agressor na esperança de que ele vai parar com a violência e voltar a ser o companheiro que era quando eles se conheceram. “A mulher usa o seu lado emocional nesses casos. Muitas vezes, há toda uma história afetiva por trás desse relacionamento problemático e a vítima tem a esperança de recuperar as coisas boas da vida a doisâ€, salientou a delegada.
Ela acredita que esse conceito pertence a uma geração do passado e que, nos dias de hoje, a mulher já é criada de forma diferente. “As adolescentes já não aceitam esse comportamento violento do homem. Elas têm noção de companheirismo e de igualdade com o parceiroâ€, disse.
Apesar de vislumbar um futuro mais pacífico, os dados de hoje mostram uma situação estarrecedora. De acordo com a pesquisa "A mulher brasileira nos espaços público e privado", realizada pela Fundação Perseu Abramo, entidade ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT), uma mulher é espancada a cada 15 segundos no Brasil. A entidade chegou a esse índice depois de calcular que 6,8 milhões de brasileiras já sofreram agressão pelo menos uma vez na vida. Destas, 31% disseram que a violência ocorreu no último ano, o que significa 2,1 milhões de mulheres espancadas no Brasil nos últimos 12 meses.
Entre as mulheres que admitiram o espancamento, 32% afirmaram que isso aconteceu uma única vez, enquanto 20% disseram que apanharam duas ou três vezes e 11% admitiram já ter sido espancadas mais de dez vezes. “O pior de tudo é que o agressor tem tendência a bater no rosto da vítima, uma forma de humilhá-la ainda maisâ€, salientou Rejani.
Bauru ainda não tem uma casa-abrigo para atender as mulheres que sofrem violência dentro de casa. A titular da DDM disse que já existem projetos nesse sentido, mas que ainda não foi possível viabilizar esse espaço, pois é necessário o envolvimento da sociedade de uma maneira geral. “A DDM não tem como montar esse espaço sozinhaâ€, salientou.
Direito de ser bela
Em resposta à enquete feita pelo Jornal da Cidade durante o café da manhã em homenagem às mulheres, nesta semana, a presidente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), Olga Bicudo, levantou uma questão preocupante. Ela disse que a mulher conseguiu se emancipar em quase todas as áreas, exceto no quesito violência. “Se a mulher se arruma, coloca uma roupa bonita e cuida da aparência, é obrigada a ouvir insultos na rua ou pode ser agredida fisicamente por isso. Ela ainda não tem o direito de se sentir belaâ€, disse.
De acordo com a pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, 11% das mulheres disseram já ter sido vítimas de assédio sexual. Na DDM de Bauru, no ano passado, foram registrados 30 estupros, 19 tentativas e oito ocorrências por atos obscenos.
A delegada Rejani Tiritan ressaltou que, com relação aos estupros, a DDM notou que eles geralmente acontecem à noite, em locais ermos. Por isso, a recomendação é para que as mulheres evitem andar sozinhas, de madrugada, na rua; se isso não for possível, elas devem verificar pontos de apoio no trajeto que costuma fazer, ou seja, observar onde tem telefones públicos para o caso de uma emergência, estabelecimentos comerciais abertos, residências, etc.; Mesmo as que costumam andar de carro devem ficar atentas ao que aparece na rua. “Elas não devem deixar a bolsa em cima do banco, em local visível, devem andar com a porta travada e olhar atentamente no retrovisor e ao redor do carro, principalmente quando pararem nos semáforosâ€, destacou.
DDM completa 15 anos
A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) completou 15 anos de atuação na cidade na última quarta-feira. Nesse período, contabilizou mais de 35 mil atendimentos.
De acordo com Rejani Tiritan, a DDM nasceu do idealismo de um grupo de mulheres, que acreditava num atendimento mais humano e especializado no caso de violência contra a mulher.
Em 1986, foi criado o Centro de Orientação da Mulher (COM), um embrião da Delegacia, que oferecia atendimento psicológico e advocatício para as vítimas de violência de gênero.
No ano seguinte, foi instalada definitivamente a DDM em Bauru. Somente nos últimos dois anos, oito mil mulheres passaram pelo local, denunciando agressões e pedindo proteção.
Atualmente, a DDM está instalada na rua Araújo Leite, quadra 15. O prédio foi decorado com a intenção de oferecer uma sensação de conforto e acolhimento às vítimas e o atendimento foi planejado para ser feito em local que não exponha demais a pessoa que busca ajuda e proteção.