“Arrisca teus passos por caminhos que ninguém passou, arrisca tua cabeça pensando o que ninguém pensou.†Esses dizeres foram pichados no Teatro Odeón de Paris, em maio de 1968, durante a histórica luta dos jovens do mundo inteiro, e quero recordá-los pela sua atualidade e os agitados tempos que vivemos, neste 2002.
Assim, este 8 de março ocorre num momento de extremo desafio para as mulheres e para a humanidade: o desafio de construir, no cotidiano da luta de classes, espaços para a emancipação da mulher, pela afirmação e luta por nenhum direito a menos, pela autodeterminação dos povos em construir os caminhos soberanos de suas nações. O desafio de buscar um novo modelo de desenvolvimento que se contraponha à cartilha neoliberal e da chamada década perdida pelo Brasil, da busca da paz e da justiça social.
E, como se não bastassem a crise social e o crescimento absurdo da violência e da impunidade, vemos o governo de FHC curvando-se às regras do FMI e impor a bandeira da Alca, a chamada Área de Livre Comércio das Américas e que, se implantada permitirá, a “livre†exploração de países e povos da América Latina. Nós brasileiros teremos a “liberdade†de ver os preços de nossos produtos de exportação diminuírem a favor dos EUA, e a nossa dependência econômica será um pouco mais aumentada...
Várias são as preocupações neste 8 de março, como a mudança na legislação do trabalho. O Governo Federal em aliança com empresários propõe que sejam renegociados direitos como repouso semanal remunerado, férias, licença maternidade. Assistimos a ampla campanha na imprensa falada e escrita contra a CLT, que assegurou direitos básicos para as trabalhadoras ao longo de nossa história, e que pretendem, na prática, voltar aos tempos da barbárie, da 1ª Revolução Industrial, quando mulheres e homens permaneciam 14, 16 horas dentro das fábricas, e foi exatamente em defesa de direitos trabalhistas que morreram as operárias da fábrica Cotton em 8 de março de 1857.
Temos ainda as dificuldades na área da saúde, pois já estamos no século XXI e ainda há mulheres que morrem para parir os seus filhos. Outra é a estatística da violência contra a mulher. No Brasil, a cada 4 minutos uma mulher é agredida dentro de casa por pessoas que mantêm relação de afeto, onde 40% resultam em graves lesões corporais. Ainda, o estresse social pelo desemprego, pela preocupação com os filhos, as drogas e outros.
Queremos um novo rumo para nosso País, capaz de renovar as esperanças e os anseios das mulheres que, por sua histórica caminhada, não se rendem à violência, à morte anunciada e divulgada por um estudo da ONU que prevê um mundo com três vezes maior número de pobres dentro dos próximos 50 anos.
As mulheres não se rendem porque têm a noção e a consciência do significado da sua luta e da luta do povo brasileiro e de todos os povos. As mulheres sempre têm a certeza de que a humanidade trilhará, sim, o caminho da transformação e resistirá, como elas, à globalização da economia, que só globaliza a exclusão e faz de nós, mulheres, as maiores vítimas das políticas de ajuste, as maiores vítimas da violência, desapossadas cotidianamente da educação, da cultura, das emoções, do corpo, da saúde e da vida.
É inegável que o último século foi importante e que as mulheres marcaram uma série de conquistas fundamentais em vários terrenos, mas há espaços que precisamos fortalecer para que nossas conquistas se façam reais.
Assim, neste ano, que é eleitoral, temos em nossas mãos a possibilidade concreta de, através de nosso voto, imprimir um novo rumo para o Brasil, com trabalho para todas, mais segurança, mais paz, mais justiça, onde tenhamos mais voz, mais espaço na tomada de decisões que dizem respeito aos interesses do povo e das mulheres.
Precisamos no 8 de março e em todos os dias do ano não desistir da luta, não nos abater e nem nos render às dificuldades, porque o caminho percorrido ao longo dos tempos não tem volta. É um caminho que a história oficial não conta, mas, de geração em geração, estamos acumulando forças. Milhares de mulheres, mesmo em condições mais adversas, plantam sementes, empreendem transformações e, nos dão a certeza de que o novo virá. Que com unidade e luta será edificada uma sociedade de novo tipo, com princípios de justiça, de igualdade, de democracia, da verdade, da solidariedade: a sociedade socialista a ser construída pelos povos, com respeito a sua história, a sua cultura, seus costumes e à luta das mulheres.
Por fim, a nossa homenagem e respeito a todas as mulheres de nossa cidade, que públicas ou anônimas são guerreiras, estrelas e arriscam seus passos por caminhos que ninguém passou, arriscam suas cabeças pensando o que ninguém pensou, num andar e num pensar feminino na busca incessante de construir uma nova cidade e um novo Brasil! (Majô Jandreice, vereador)