Tribuna do Leitor

TEMPO DE COMEMORAR

Marta Suplicy
| Tempo de leitura: 3 min

A data isolada do 8 de março não deve servir de referência para uma reflexão sobre a luta das mulheres contra a desigualdade, a discriminação e a violência que vem se agravando. Essa conscientização deve estar presente especialmente no nosso cotidiano, onde a participação das mulheres se mostra igualmente presente nos diferentes setores e a cada dia ganha maior visibilidade. Nada melhor do que esse momento para destacarmos essas conquistas e os caminhos que ainda temos que percorrer.

A valorização da participação das mulheres, seja na forma como expressa a sua cidadania, na política ou na própria presença cotidiana na construção da cidade é indiscutível. Em contrapartida, é preciso superar as desigualdades e a reduzida parcela de poder ainda reservada às mulheres. Essa luta passa pela inserção no mercado de trabalho, na divisão das tarefas domésticas e até mesmo na maneira como até hoje elas são retratadas pelos meios de comunicação. Soma-se a isso a violência contra as mulheres, dentro e fora de casa, com estatísticas que envergonham a todos nós.

Esse quadro de adversidades ganha uma importância maior quando se trata da maior cidade da América do Sul, onde vivem 3,6 milhões de mulheres acima de 18 anos, numa população de 10,4 milhões, de acordo com o censo do IBGE, de 2000. Esse fato aumenta a nossa responsabilidade de adotarmos políticas públicas voltadas para as necessidades e direitos das mulheres que podem ajudar a alterar suas condições de vida.

Para isso, iniciamos a implementação de uma política de prevenção e combate à violência contra as mulheres, com a criação de serviços de atendimento às mulheres que sofrem violência doméstica e sexual. Atualmente, 30 dos 41 distritos de saúde de São Paulo já estão capacitados para esse serviço. Isso sem falar que os postos de saúde da Prefeitura já dispõem de métodos anticoncepcionais, enquanto que os hospitais municipais oferecem vasectomia e laqueadura gratuitas.

É triste constatar que o avanço da violência ampliou a demanda da Casa Eliana de Grammont de 1.549, em 2.000, para quase 2.000 no ano passado. Desse total, 177 casos foram ameaça de morte e risco de vida. A casa é um centro de referência e atendimento integral às mulheres nos casos de violência doméstica e sexual.

Fechada desde 1992, a Casa Helenira Rezende, que serve de abrigo para mulheres em risco de vida em função da violência doméstica, foi reaberta pelo atual governo em março do ano passado e já atendeu até então outras 43 pessoas. Essa estatística revela outro elemento assustador: a cada dia, a violência doméstica se associa mais à violência urbana, o que nos obriga a ter abrigos cada vez mais seguros e sigilosos que garantam a vida dessas mulheres. Em 66% dos casos atendidos na Casa Helenira Rezende, o agressor estava envolvido de alguma forma com a criminalidade.

São Paulo possui 9 das 125 Delegacias de Defesa da Mulher do Estado. De 1995 a 2000, o número de ocorrências nessas delegacias subiu de 21.525 para 310.058, segundo dados da Fundação SEADE. No Dia Internacional da Mulher, a Prefeitura de São Paulo inaugura a Casa de Isabel, o mais novo centro de apoio à mulher, criança e adolescente vítimas de violência.

Essa responsabilidade é esperada de todo o poder público por uma sociedade que não pode mais conviver com essas estatísticas. A data do 8 de março não pode ser comemorada isoladamente. Temos que interferir no cotidiano para que o direito das mulheres possam ser exercidos na prática, ampliando as possibilidades de mudança real nas condições de desigualdade e discriminação. Os direitos da mulher devem estar presentes em todos os lugares e a qualquer momento. Esse é o nosso compromisso. (Marta Suplicy, prefeita de São Paulo)

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