Em uma das regiões mais perigosas do Atlântico foi construída em uma ilha, uma base de salvamento. Era um grupo pequeno que possuía somente um barco. Com este, porém, conseguiam salvar os passageiros dos navios que naufragavam.
Não durou muito tempo para que a base de salvamento ficasse famosa. Os passageiros salvos ficavam agradecidos pela atuação daquelas pessoas e passavam a ajudá-los financeiramente. Com o passar dos anos, a base de salvamento começou a aumentar e as ajudas financeiras ficavam cada vez maiores. Com o tempo e os novos membros, a base de salvamento começou, porém, a perder o idealismo do inicio e acabou tornando-se um clube de convivência para amantes do mar e da navegação. Mas, mesmo assim, a fama da base de salvamento permanecia e muitas pessoas tornavam-se membros do clube. Outras filiais da base de salvamento começaram a ser criadas em outras ilhas.
Estas, no início, lembravam muito a primeira base de salvamento, mas com o passar do tempo elas tornavam-se também um clube de convivência para amantes do mar e da navegação. Mesmo assim outras bases foram criadas até que quase todas as ilhas possuíam uma base de salvamento, as quais com o tempo acabavam se tornando um clube de convivência para amantes do mar e da navegação. Hoje os clubes estão por toda a parte... e a maioria dos passageiros dos navios naufragados morrem afogados.
O ser humano interage com seu mundo de forma natural e inevitável. É impossível passar pela existência sem deixar alguma marca e sair dela sem levar impressões e experiências. Nesta interação com o mundo, surge muitas vezes o desejo consciente de torná-lo algo melhor. Este saudável desejo surge da não conformidade com a ordem atual.
Já o simples lutar pela própria sobrevivência, nos impulsiona para a criação de novos caminhos, através dos quais possamos desenvolver uma vida mais feliz e prazerosa. Muitos seres humanos, porém, percebem durante seu transcorrer na existência que sua felicidade individual está intimamente dependente da felicidade coletiva.
Se superamos nosso egoísmo e nos tornamos sensíveis ao outro, chegaremos com certeza à conclusão de que a nossa felicidade torna-se impossível ao testemunhamos diariamente a infelicidade de nossos semelhantes. Desta necessidade de um “Bem Estar†coletivo e de uma sociedade mais humana, surgem os diversos tipos de altruísmo e voluntariado. Do simples partilhar alguma coisa com o outro até as organizações sociais, sindicatos ou associações de bairro, a solidariedade começa a aproximar concretamente as pessoas transformando a sociedade em uma realidade mais igualitária e, portanto, mais feliz.
Apesar deste desejo de contribuirmos um mundo novo, continuamos vivendo em uma “Terra de muitos males.†O próprio surgimento de iniciativas que busquem a melhoria de qualidade de vida para todos é um fenômeno raro em nossa sociedade brasileira, pois o sistema de consumo no qual vivemos reforça o egoísmo e a luta individual contra os outros.
A segunda dificuldade é encontrada no próprio desenvolvimento dos grupos já existentes. No início, toda iniciativa é marcada por um idealismo criativo que é capaz de transformar um bairro, um meio ambiental ou até mesmo uma região dando mais vida e esperança aos seres humanos. Porém, no transcorrer da interação com a realidade, presenciamos normalmente um processo de acomodação. Neste, as pessoas e grupos vão se distanciando dos princípios que lhes deram origem, geralmente princípios revolucionários e subversivos, criativos e dinâmicos.
Estes são reinterpretados perdendo suas características iniciais ou são substituídos por princípios menos exigentes.
Este início de caminhada acaba tornando-se um passado sempre relembrado no presente com grande saudosismo, apesar de não haver interesse de revivê-lo.
Muitos grupos, sindicatos, instituições, associações ou iniciativas privadas percebem que já perderam o carisma inicial e sua própria razão de ser, mesmo assim fecham os olhos para o apelo do presente perdendo a oportunidade de fazer a história.
“Geralmente, a humanidade costuma olhar o presente através de um espelho retrovisor. Isso significa dizer, que ela só percebe o presente quando já é passado†(Raul Seixas).
Diante do desafio que nossa realidade nos impõe, é fundamental nos despertarmos para o voluntariado e a solidariedade. Porém, é necessário também perseverar na caminhada, pois as transformações sociais não acontecem com a rapidez que desejamos.
É importante recuperar a razão de ser de cada instituição que algum dia se propôs a realizar algo de concreto pelo bem comum. Voltar às raízes do idealismo e perseverar sem deixar de responder aos novos apelos da sociedade é um desafio para sindicatos, associações, igrejas ou qualquer outra instituição que deseja contribuir para a nossa qualidade de vida. Que os atuais “clubes de convivência para amantes do mar e da navegação†voltem a ser verdadeiras “bases de salvamentoâ€. “Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível†(São Francisco de Assis).
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(*) Especial para o JC Cultura