Política

Criação da Palestina gera desconfiança

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 5 min

A histórica decisão do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) em sinalizar a existência de um Estado Palestino “lado a lado” com Israel é encarada com euforia por descendente de judeus em Bauru . Mas o frenesi não é compartilhado com a ramificação da comunidade palestina residente na cidade, que ainda assimila a sinalização da ONU com forte dose de desconfiança.

Para o professor e economista Said Yusuf Abu Lawi, descendente de palestinos, Estados Unidos, Israel e a ONU se equivocam - segundo ele propositadamente - ao anunciar que esta é a primeira vez que se ventila a criação do Estado da Palestina.

“Não é verdade”, diz com convicção. Ele lembra que na criação do Estado de Israel, em 1947, a partilha territorial entre judeus e palestinos já estava acertada. “Mas nunca foi respeitada”, garante. Said vê na proposta da ONU uma saída para a crise, mas não acredita em solução definitiva.

“A criação do Estado da Palestina poderá oficializar o conflito. É a justificativa que Israel espera para uma invasão total”, prevê. O professor afirma que o medo dos judeus reside na questão demográfica do povo palestino, numericamente superior à nação israelita.

â€œÉ preciso prestar muita atenção nesse aspecto. Acho que a intenção de Israel é diminuir a população palestina. E para que isso seja possível, é preciso se arrumar uma desculpa. Talvez, a criação do Estado da Palestina.”

Lawi defende uma corrente apoiada pela linha ultraortodoxa dos judeus, que não vê praticidade na existência nem do Estado de Israel e muito menos na criação de um Estado palestino.

“O livro sagrado dos judeus diz que eles precisam apenas habitar aquela terra. Não pede a estrutura de um Estado. Embora seja a saída momentânea, também não vejo a necessidade do Estado da Palestina. O ideal é a criação de uma confederação para administrar a região”, prega.

Professor defende a intervenção da ONU

O professor-doutor Muricy Domingues, chefe do Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Sagrado Coração (USC), defende a intervenção militar da ONU no conflito israelense-palestino. “Chegou a hora dos capacetes azuis entrarem em ação para separar as águas”, diz.

Ele afirma que se a ONU se decidir pela criação do Estado da Palestina a organização terá respaldo jurídico internacional para decretar intervenção na região. “A organização é a única que pode resolver o conflito.”

Domingues acredita que a paz seria mais fácil de ser alcançada se sentassem a mesa somente palestinos e israelenses. “Mas aí entra a Síria, o Iraque, o Irã. Eles querem perturbação. O dia que acabar a encrenca entre palestinos e judeus acabou o motivo para se fabricar armas e manter tropas.”

Judeu aprova a criação do Estado da Palestina

“Nenhuma vida humana paga o preço de qualquer pedaço de terra.” A afirmação é do advogado Marcos Litvac, descendente de judeus. Ele aprova a criação do Estado da Palestina e acredita que essa seja a solução para pôr fim ao conflito de décadas entre israelenses e palestinos.

“Estou esperançoso. O povo palestino merece seu pedaço de terra”, defende. Litvac lembra que até o momento a justificativa para as milhares de mortes já registradas dos dois lados é a criação de um Estado palestino.

“Se essa é a justificativa, vamos criar o Estado da Palestina.” O advogado avalia que a luta entre Israel e os palestinos é desigual. “Uma pedra contra uma bala de canhão não se tem comparação”, diz.

A Palestina

Significa país dos Filisteus, região do Oriente Médio entre o Líbano, no Norte, Mar Morto, no Sul, Mediterrâneo, a Oeste, deserto da Síria, a Leste. Após a revolta que ocorreu durante o reinado de Adriano, númerosos judeus foram deportados e colonos estrangeiros foram instalados nessa parte da província romana da Síria.

Ao mesmo tempo, os árabes deslocavam-se na região e se ocidentalizavam. Após sua conversão ao cristianismo, Constantinopla transformou a Palestina em terra santa, que permaneceu como centro da atividade intelectual judaica.

A conquista árabe integrou a Palestina ao Império Muçulmano. A partir dos fins do século IX, sua sorte esteve ligada às dinastias do Egito. Os cruzados fundaram em 1099 o Reino Latino de Jerusalém, cujas possessões foram retomadas pelos mamelucos em 1291. Eles dominaram o país até a conquista otamana.

A população palestina otomana era composta por uma maioria de muçulmanos, uma expressiva minoria de cristão e um pequeno número de drusos e judeus. A imigração judia passou a adquirir importância a partir de 1880, sob influência do sionismo.

Estado de Israel

País do Oriente próximo, junto ao Mar Mediterrâneo. Possui 21 mil quilômetros quadrados de área que abrigam cerca de 5,5 milhões de habitantes israelenses. A capital oficial é Jerusalém, mas a maioria das embaixadas internacionais está instalada em Tel Aviv. A língua oficial é o hebraico.

Delimitado pelo armistício de 1949, Israel ampliou seu território a partir de 1967 através da ocupação da Faixa de Gaza, Cisjordânia, da parte oriental de Jerusalém e das Colinas de Golã. Do Mediterrâneo ao Vale do Rio Jordão e ao Mar Morto, sucedem-se estrita planície costeira e vastas regiões de colinas.

O Estado de Israel foi criado em 14 de maio 1948 na Palestina, em conformidade com uma resolução da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) datada de 29 de novembro de 1947.

Esse “plano de partilha”, que criou na Palestina um Estado árabe e um Estado judeu de 12 mil quilômetros quadrados e transformou Jerusalém em zona internacional, foi imediatamente rejeitado pelas nações árabes limítrofes - Egito, Síria, Iraque e Transjordânia -, que já no dia 15 de maio invadiram a nova nação.

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