Compulsão não é gula, nem falta de vergonha. É uma doença. Entre os obesos, 40% têm esse transtorno. Um destino traçado não só pela genética. A crise, muitas vezes, vem no meio da madrugada. O sono interrompido e o ataque voraz à geladeira.
De acordo com a psiquiatra Karina Vargas, o que a genética discute é que, talvez, haja algum papel para o aumento da compulsão, não só para alimentos, mas para os exercícios, para álcool, drogas, compras, jogos. “Seria alguma coisa ligada à impulsividadeâ€, disse.
Comendo, a professora Maria Rita Sallezi, 32 anos, ganhou 34 quilos em poucos meses. Ela, que atualmente mora em São Paulo e pesa 92 quilos, encontrou ajuda em um grupo de apoio a portadores de transtornos alimentares, que também trata de muita gente, vítima das chamadas dietas milagrosas.
“Essas dietas são criminosas, realmente estimulam outras complicações, além da doença que o indivíduo já tem. A compulsão é uma delas e a gente discute que ela vem carregada com outros problemas psiquiátricos, principalmente, a depressãoâ€, afirmou Karina.
A medicina, de acordo com a médica, ainda não descobriu a cura para a compulsão. Mas, com o apoio de uma psicóloga e de uma nutricionista, normalmente as pessoas conseguem se controlar.
Rita contou que hoje está mais tranqüila em relação ao seu problema. “Antes eu era movida pela comida, chegava a comer arroz gelado. Não era fome, mas passava pela geladeira e não resistia dar uma bocada em algo. Então o que tinha eu comia. Agora, me controlo muito mais. Penso, repenso e quando vejo já passei pela cozinha e não comi nadaâ€, conta.
Para ela, que aos 20 anos pesava 52 quilos, ser gorda é um grande problema. “A minha obesidade teve início quando eu comecei a tomar anticoncepcional. Nessa época, já engordei uns cinco quilos. Daí em diante, sempre engordeiâ€, constata.
A professora contou que a compulsividade veio depois. “Quando me dei conta que estava bem gordinha, feia e que as pessoas me olhavam diferente, comecei a ter o problema da compulsividade. Eu comia sem fome. Chegava a passar mal de tanto comer, mas no momento em que estava ali mastigando, sentia um prazer enorme. Chegava a ficar feliz, mas depois entrava numa depressão...â€, relata.
De acordo com Karina, esse problema é comum nas pessoas que começam a engordar e relaxam. â€œÉ uma doença, mas muitas vezes, se desencadeia dessa maneira. A pessoa nem é tão gorda, mas acha que está muito acima do peso, por isso ela não se importa em comer um pouco mais e pensa: ‘já estou gorda mesmo, não fará diferençaâ€. Isso está errado porque sempre faz diferença e se nesse momento, a pessoa se cuidar e ter força de vontade, ela pode mudar seus hábitos e não engordar tanto. Digo tanto porque sempre engordamos, é normal, mas também sempre é possível evitar’, afirma.
A médica explica também que outras doenças, como diabetes e hipertensão, causam a obesidade. “O importante é estar sempre cuidando para que o corpo esteja saudável, independente de ser obesoâ€, aconselha.