Desafio à criatividade e à imaginação, o RPG (abreviação inglesa de role playing game) já ganhou muitos adeptos em Bauru. Além de servir como um passatempo divertido que requer dos participantes o exercício da interpretação, o jogo estimula entre jovens e crianças o hábito da leitura.
Vampiros, lobisomens, soldados medievais, magias e super-poderes fazem parte dos mundos fantásticos, fictícios ou medievais pelos quais passam os RPGistas a cada nova aventura. A regra principal é contar uma história e enfrentar as situações propostas a partir da interpretação de papéis.
O mestre, que muitos definem como uma espécie de “juizâ€, descreve ambientes, personagens e situações. Ele segue um sistema de regras, contido em livros que determinam como deve ser a história. Um mesmo jogo pode durar anos. â€œÉ como se cada aventura fosse um capítulo, que dura, em média, de duas a quatro horasâ€, explica o RPGista Fernando Mendes Rosan, 20 anos, que estuda direito na Instituição Toledo de Ensino (ITE).
O universitário explica que os jogadores dizem ao mestre o que vão fazer durante a narração. Para isso, as habilidades dos personagens devem ser testadas com o objetivo de verificar se ele é capaz de fazer o que propõe. “Se alguma ação depende de força, é preciso ver as características físicas do personagem, por exemploâ€, expõe.
Mas o RPG não é apenas um jogo de mesa. Na versão para computador, não há interação com as pessoas e o RPGista joga com a máquina. Já na versão teatro, as situações são literalmente interpretadas, inclusive com figurinos. Não há papel nem dados e as habilidades dependem das características do próprio jogador. â€œÉ só interpretação. Você simplesmente encarna o personagem. Você se veste e negocia. O mestre está lá para intermediarâ€, diz Fernando.
Para o jogador, que todos os finais de semana junta-se ao grupo de RPG do Serviço Social do Comércio (Sesc), o passatempo amplia o repertório cultural das pessoas na medida em que as estimula não apenas a leitura de livros de RPG, mas obras de ficção, histórias em quadrinhos e filmes. Ele conta que algumas edições de livros ligados ao tema chegam a esgotar-se com facilidade nas livrarias da cidade.
“Você precisa ter boa imaginação e por isso você tem que estar ligado nessas coisas para ter boas idéias para jogar. O mestre, por exemplo, tem que ler todo o livro do jogo e saber todas as regras. É uma forte influência cultural porque ou ele lê ou ele não pode mestrarâ€, frisa.
A mãe do RPGista, Conceição Mendes Rosan, também acha a atividade positiva. “Eles lêem muitos livros e exercitam a imaginaçãoâ€, observa.
Livrarias
Em livrarias da cidade, a venda de livros ligados ao RPG mostra que o jogo tem muitos adeptos em Bauru. Segundo Sueli Aparecida Tomazini da Silva, gerente de uma livraria localizada nos Altos da Cidade, a procura por esses livros cresceu cerca de 20% no início deste ano. Ela acredita que as estréias de filmes como “O Senhor dos Anéis†e “Harry Potter†tenham contribuído para a procura.
Já Nilo Sérgio Alves, gerente de uma livraria do Centro, acredita que os freqüentes lançamentos no mercado, entre eles de livros-complementos de histórias de publicações antigas, impulsionam as vendas. “Está crescendo a variedade de opções no mercadoâ€, diz.
O estudante Israel Baldinotti Ferreira, 18 anos, há um ano começou a participar de jogos de RPG, atraído pela interpretação dos personagens. “Eu não gostava de ler e agora estou lendo vários livros. E não só de RPG. Para entender os sistemas, você começa a se interessarâ€, enfatiza.
Na opinião de Viviani Bossa, 15 anos, que joga há um ano e meio, o RPG auxilia na compreensão de textos. “O que me atraiu foi o envolvimento com as histórias, porque você tem que prestar atenção em tudo. Antes, eu criticava porque eu não conhecia. Quando eu fui, acabei gostandoâ€, confessa.
A necessidade de interação com outras pessoas é outra vantagem do jogo, na opinião de Fernando Rosan. “Ele impulsiona você a interagir com as pessoas. É como uma ferramenta. Se você for tímido, terá que interagir e acaba criando o hábito de conversarâ€, garante.
Contrariando a opinião de algumas pessoas, o rapaz afirma que o RPG não influencia ninguém a cometer atos violentos. “Ele não pode ser maléfico para a saúde mental das pessoas. O Cara só faz algo de errado se ele já era doido antesâ€, acredita.
Há cinco anos, Fernando está tentando formar uma associação de RPGistas por acreditar que Bauru conta com grande quantidade de jogadores. Por enquanto, alega que a iniciativa não vingou por mera desorganização. Essa é uma idéia, no entanto da qual o grupo do qual participa ainda não desistiu.
Serviço
O grupo de RPG do Sesc reúne-se aos sábados e domingos, a partir das 14 horas, no 1.º andar. Os interessados em conhecer ou participar dos jogos estão convidados a comparecer. O Sesc fica na avenida Aureliano Cardia, 6-71.
Criação
O RPG foi criado em 1974, nos Estados Unidos, por David Arneson e Gary Gigax, dois amantes das histórias do escritor J.R.R. Tolkien (criador do “O Senhor dos Anéisâ€) e dos jogos de estratégia militar com miniaturas. Eles fundaram a primeira empresa de RPG, a editora TSR, que criou o “Dungeous & Dragons†(D&D), o primeiro e mais famoso sistema de RPG. Ele deu origem ao desenho animado “Caverna do Dragãoâ€.