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Clarins da vitória

Helder Pereira
| Tempo de leitura: 4 min

Num destes dias de verão, céu azul límpido, sol forte brilhando sobre o exuberante verde das plantas, fui apreciar o espetáculo da natureza lá pelos lados do centro da cidade. Caminhava despreocupado até que uma extensa fila de homens e mulheres, ansiosos e alegres, me chamou a atenção. Bom paulistano que sou, não resisti e me pus no meio deles procurando saber o porquê da aglomeração: talvez algum prêmio do Silvio Santos, entrada grátis para o jogo do Corinthians ou um jantar com a Gisele Bündchwald?

Para surpresa minha, o motivo era a inscrição para o concurso de ingresso à Polícia Militar! Em alguns dias cem mil inscritos para poucas vagas. Foi aí que me lembrei: dias atrás, uma “solerte” repórter da TV inquiria candidatos sobre a razão que os levara a candidatar-se ao emprego. Resposta quase unânime: salário! Inconformado com a reportagem, aproveitei a ocasião para tirar a limpo a dúvida. Será somente o dinheiro a causa de tamanha procura? Entabulei conversa com muitos dos que ali estavam, tentando vislumbrar uma resposta mais honesta. Ao lado da questão desemprego, salário bom, assistência médica, estabilidade, aparecia a outra face da verdade: orgulho em vestir a farda, ser admirado pelos amigos, parentes e vizinhos, nos quais infundiria segurança.

Alguns traziam o exemplo de alguém próximo, que era miliciano, outros, pela relevância dos serviços e finalmente, os que acorriam por vocação; o uniforme da Rota, do Choque, Bombeiro, Rodoviária, Florestal, Canil, Cavalaria, Motociclismo, atraía-os.

Nas solenidades cívicas às quais a PM comparece, a euforia e fascínio tomam conta das crianças! Muitas, com lágrimas de emoção, passeiam de viatura, cavalo, brincam com os cães e, acima de tudo, estampam no rosto inocente o orgulho por estarem amparadas e seguras pelas mãos do policial sereno e protetor. Os pequeninos sonham, um dia, vestir aquela farda. Guardaram na memória as imagens da solenidade e hoje, adultos, atendiam ao chamado interior do destino a ser cumprido. Hipócritas os que vêem apenas no dinheiro a mola propulsora do ideal. O preço cobrado pela sociedade é alto: coragem, desprendimento, honestidade, ser intemerato e intimorato! Eles vêm dos quatro cantos do País e, mãos dadas pelo mesmo ideal de bem servir ao Brasil, juntos com o povo paulista envergam o fardamento azul bandeirante de tantas glórias.

Fosse essa a única razão, ninguém reclamaria por aumento de soldo, nenhum deles pediria baixa das fileiras, e nem se sujeitaria a adquirir uma estabilidade após dez anos de serviço ativo e de alto risco. Concluo, aliviado, que a reportagem tendenciosamente buscava denegrir a fé latente em cada uma daquelas pessoas.

A manhã tem agora um brilho mais intenso e todos param ao ouvir os clarins do Regimento Nove de Julho, próximo dali, chamando para o “reunir”. A emoção aumentou com as sirenes das viaturas da Rota, que saíam para mais um dia de serviço. Sem perceber, caminhei até o Museu da Polícia Militar, onde passei a manusear livros sobre a Revolução de 1932! Emocionado, encontro o manifesto elaborado pelo cel. Júlio Marcondes Salgado, cmt. geral da Força Pública, lido ao povo paulista, no Pátio do Colégio, na tarde de 10 de julho de 1932, assim escrito:

“Na mais vibrante manifestação de civismo, na mais pujante prova de amor ao Brasil e a São Paulo, na mais heróica atitude de abnegação e de renúncia, na madrugada de hoje, o Exército, a Força Pública e o povo de São Paulo lançaram aos quatro ventos da terra bandeirante o grito de revolta pela Pátria redimida.

Na primeira arrancada a vitória foi imponente. Todas as unidades da II Região Militar, de todo o Estado e Força Pública cohesa ampararam o primeiro impulso da estupenda juventude de Piratininga. Hoje, em São Paulo, amparada pelas armas e pela vontade indomável da população paulista, a idéia reivindicadora não poderá mais sofrer os vesgos imperativos de uma ditadura de anarquia e de descrédito para o Brasil. A República que naufragava está, nesta hora bendita, salva.

Paulistas! Para diante! Continuai a cruzada redentora. O vosso sangue não valerá tanto como a glória de tombardes por São Paulo e pelo Brasil.” Aí estão páginas da história certificando que a vontade de se alistar nas fileiras da PM pode, sim, estar movida pelo interesse no salário, mas a vontade maior é de amor à Pátria e ao povo brasileiro. (O autor, Helder Pereira, é coronel PM comandante)

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