Foi em meados da primeira década do século 20 que o Interior começou a conhecer a novidade da época, ou seja, o cinema. Enquanto Rio de Janeiro, São Paulo e outras grandes capitais já contavam com muitas casas de espetáculos do gênero, para as cidades interioranas a nova atração era apresentada em pavilhões ambulantes que cuidavam das exibições que aconteciam nos circos.
Conforme trabalho de autora do jornalista-historiador, José Fernandes, publicado no Diário da Noroeste, em 25 de maio de 1930, foi em 1906 que Bauru teve a oportunidade de conhecer o cinema fixo, quando João Catalão por aqui apareceu trazendo um cinematógrafo que foi montado na Sociedade Italiana.
Exposta no centro do salão, desfilaram diante da máquina, maravilhados, quase todos os habitantes da cidade. E para assistir a focalização que consistia na projeção de figuras móveis, verdadeira multidão acorria ao local, todas as noites.
Com o decorrer do tempo outras empresas aqui vieram, a exemplo do Pavilhão Paulista, (armado com arquibancadas de madeira para os assistentes) que mais tarde associou-se ao Circo Martinelli, passando a apresentar espetáculos mistos, ou seja, circenses e cinema. Posteriormente, o Pavilhão Roosevelt, também de cinematógrafo, aqui exibiu grandes filmes. Depois de algum tempo, o cidadão Maurílio, que mais tarde veio a ser gerente do armazém Machado de Melo, organizou com outros elementos locais a empresa do Cinema Recreio e, para tanto alugou por um ano o edifício da Sociedade Italiana.
A fim de tornar o local mais atraente, havia anexo um tiro ao alvo. Os espetáculos, que começaram sendo dois por semana, visto o interesse da população passaram a ser diários. Aos domingos exibiam oito filmes e durante semana quatro.
Em princípios de 1911 ergueu-se no local, onde por muito funcionou o Theatro São Paulo (Magazine Luiza), o Pavilhão Popular que, em matéria de comodidade para as famílias, trazia diversos camarotes, então completamente desconhecidos em Bauru.
Animados pelo bom acolhimento dos vários pavilhões cinematográficos que até então tinham aportado na cidade, o empresário Oscar Unger e seu sócio César resolveram tentar o estabelecimento do cinema permanente em Bauru. Para tanto, conseguiram de Henrique Soler a cessão gratuita do terreno necessário ao importante empreendimento.
Construiu-se, então, uma parte do prédio em que mais tarde funcionaria o Bauru Cinema (onde atualmente se localiza o Alvorada Palace Hotel). O pavilhão foi transferido sucessivamente a outros proprietários, até que Henrique Soler adquiriu a empresa, reconstruiu o prédio com influentes benefícios que necessitava e passou a apresentar espetáculos com regularidade, face a contratos firmados com as Empresas Serrador e Cinematográfica Brasileira. Bauru Cinema funcionou até 1917, ano em que o seu proprietário resolveu afastar-se da atividade para tratar de sua saúde.
Henrique Soler, quando esteve na ativa, foi também proprietário do Bijou Theatre (funcionava onde hoje está o Banco do Brasil). Sob sua direção os dois cinemas davam espetáculos diariamente, além de outros dois em Agudos e Pederneiras dos quais era concessionário. O Bijou Theatre ele inaugurou em 15 de abril de 1911, com moderna máquina elétrica de projeção Pathé, mas como a energia elétrica naqueles tempos era bastante falha, os filmes apareciam na tela um tanto quanto escuros.
Resolvido esse problema, passou a Bijou Theatre a ser a grande atração da gente bauruense da época e as suas dependências eram também alugadas para acontecimentos culturais, sociais, políticos etc. Em meados de 1913 foi inaugurado na rua Batista de Carvalho o Radium Cinema, num prédio onde depois funcionou uma fábrica de louça e cerâmica, mas que teve duração efêmera, apesar de seu aparelho de projeção Pathé que exibia os filmes sem a menor trepidação. Tempos depois o Bijou Theatre foi adquirido por Eduardo Coutinho, sob cuja direção funcionou durante muitos anos, porém mas tarde a Empresa Teatral Paulista o arrendou, conservando-o no mesmo local até encerrar suas atividades.
Fortalecimento
Praticamente todos os cinemas - ambulantes e permanentes - funcionaram sempre nas quadras seis e sete da rua 1.º de Agosto e aquele setor acabou sendo cognominado de A Cinelândia.
Nem o Bauru Cinema e nem o Bijou Theatre tiveram, a princípio, bar anexo. Em compensação, os quarteirões onde estavam localizados ficavam desde a tarde até às dez horas da noite tomados por vendedores de salgadinhos, doces, refrescos, tudo isso em carrinhos de mão, ou tracionados por animal e ainda em tabuleiros, onde a atração eram os pastéis que ofereciam prêmios em dinheiro aos fregueses que encontrassem uma azeitona... Mais tarde ambas as casas de espetáculos foram ampliadas e abriram os seus próprios bares.
Em fins dos anos 20 a Empresa Teatral Paulista, que havia adquirido o Bijou Theatre, comprou um terreno na esquina da 1.º de Agosto com a rua da Liberdade (hoje Agenor Meira) e lá construiu imponente prédio para a época, a fim de instalar o Teatro São Paulo para onde transferiu o velho Bijou. Com essa realização a história do cinema bauruense entrava em moderníssima fase. A nova casa de espetáculos era dotada de camarotes, amplas acomodações na platéia e outras dependências apeliadas de puleiro de galinheiro.
Logo depois o empresário João Simonetti, homem de grande visão (pioneiro do rádio e televisão em nossa Bauru), compreendendo que a cidade comportava mais um cinema, conseguiu interessar outros elementos como ele, esforçados, para levar a bom termo a sua idéia. Para tanto foi adquirido o antigo prédio da Loja Maçônica Arquitetos de Ormurzd, na quadra sete da 1.º de Agosto (esta rua naquele tempo tinha a denominação de Washington Luiz) o qual foi completamente reformado e transformado em elegante teatro que desde logo conquistou, pelo conforto e qualidade de filmes, a preferência de um grande público. Inaugurado no dia 2 de outubro de 1929, soube a nova empresa, sob a direção de João Simonetti, manter e ampliar essa preferência.
Quase oito meses depois do início de suas atividades, o Cine Brasil trazia para Bauru o cinema sonoro - sincronizado e falado - num acontecimento de vulto para a cidade e toda a região. Em meados de 30, quando terminava algumas reformas para dar continuidade às suas atividades, porém com denominação de Cine São Cristóvão, o prédio onde funcionava o Cine Teatro Brasil foi atingido por um incêndio e o vulto dos prejuízos não permitiu o seu prosseguimento, fechando definitivamente. Assim, retornava Bauru a ter apenas um cinema - o Theatro São Paulo - da Empresa Emílio Pedutti e isso aconteceu até fins de 30, quando um novo cinema foi construído - Cine Bauru - frente ao prédio do antigo Cine Brasil.
Inaugurado com grandes festas, o filme escolhido foi Três Pequenas do Barulho, com Diana Dubin. Essa casa de espetáculos funcionou na quadra sete da rua 1.º de Agosto, onde hoje está localizado um banco.
No ano de 1941 surgiu o Cine Bandeirantes, na quadra seis da mesma rua, que se instalou na parte térrea da Sociedade Italiana e inaugurado com o filme Juarez, estrelado por Paulo Muni. Foi várias vezes reformado e depois mudou de nome - Cine Capri - cujas atividades foram encerradas. Acabava, assim, de forma melancólica, a Cinelândia bauruense.
Serviço
Mais informações sobre os cinemas de Bauru, podem ser obtidas no Instituto Histórico “Antônio Eufrásio de Toledoâ€, na rua Capitão Gomes Duarte, 13-41. De segunda a sexta, das 8h30 às 12h e das 13h às 16h30. Aos sábados, das 8h30 às 10h30. Informações: (14) 234-2508.