Rural

Nova doença atinge 400 mil pés de laranja

(*) Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Depois do amarelinho e do cancro cítrico, o parque citrícola de São Paulo enfrenta uma nova praga: a morte súbita dos citrus (MSC). A doença, que já contaminou 400 mil pés de laranja no Estado e no Triângulo Mineiro, recebeu esse nome devido à forma com que acaba com a laranjeira. Em menos de um mês, ela mata a planta, causando prejuízos inestimáveis.

De acordo com o gerente do departamento científico do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), Antônio Juliano Ayres, a doença surgiu no Sul do Triângulo Mineiro e já atingiu pomares da região Norte do Estado de São Paulo. A preocupação é com o avanço da doença: em 1999 havia cerca de 1.000 plantas contaminadas, hoje já chega na casa das 400 mil, de um total de 200 milhões de plantas.

Ayres explica que somente em fevereiro do ano passado o problema chegou ao conhecimento da área técnica das empresas de citrus. O primeiro foco foi encontrado no município de Comendador Gomes, em Minas Gerais. Lá, a doença foi identificada em talhões de variedade Valência, enxertada sobre limão Cravo, com idade de 12 anos. “Hoje, o risco é potencial e ainda de certa forma indefinido”, diz.

Sabe-se que a doença já atingiu pomares de 41 propriedades em sete municípios, entre eles Altair, Barretos, Colômbia e Guaraci, em São Paulo, e Comendador Gomes, Frutal e Uberlândia, em Minas Gerais. Ayres não sabe explicar quanto as empresas envolvidas gastarão no processo, nem quanto os produtores perderam com a doença. “A única coisa que dá para dizer é que investiremos o necessário para descobrir as causas da morte súbita. Essa é uma questão prioritária para nós”.

De acordo com o pesquisador Marcos Machado, do Centro de Citricultura de Cordeirópolis, da Secretária Estadual de Agricultura, o tamanho do problema é igual ao tamanho da citricultura. O Ministério da Agricultura e Abastecimento também está editando uma Instrução Normativa Federal, para definir normas de conduta que possam restringir a doença.

Uma das medidas seria a proibição do trânsito de material vegetal, como mudas e borbulhas, para regiões onde não existe a doença. A medida não inclui frutos. Também está definido que, até que seja publicada a Instrução Normativa, os órgãos de defesa dos Estados de Minas Gerais e São Paulo deverão acompanhar os viveiros existentes nos municípios onde foi constatada a “Morte Súbita”.

“A hipótese que temos é que hoje exista um patógeno novo, provavelmente causado por um vírus e com um transmissor muito eficiente”, explica Ayres. Ele destaca que a doença é muito parecida com uma outra já conhecida, da década de 40, chamada ‘Tristeza’. Na época, das 11 milhões de plantas existentes, nove milhões foram infectadas.

Para combater a doença, Ayres ressalta que enquanto os pesquisadores não chegam a um consenso, a estratégia é evitar o material propagativo para fora das áreas afetadas. Nas plantas afetadas deve-se fazer sub-enxertias e porta-enxertos. Esse problema diz respeito à material vegetal como muda e borbulha.

Como se manifesta

A Morte Súbita já foi constatada nas variedades Valência, Pêra, Hamlim, Natal, Westin e Pineapple enxertadas sobre limão Cravo e também na Natal, enxertada sobre limão Volkameriano. Seus sintomas se manifestam de forma diferente nas variedades de laranja tardias e precoces. Nas tardias, como Natal e Valência, ela mata a planta poucos dias após o aparecimento dos sintomas. Já nas precoces, como é o caso da Pêra, Hamlim e Westin, a planta não morre, mas fica inviável economicamente, de acordo com informações do Fundecitrus.

Os técnicos temem que a morte súbita chegue até a principal região produtora de laranja no Estado, que responde por 53% do suco de laranja consumido no mundo, com exportações de 1,2 milhão de litros.

Sintomas

Os primeiros sintomas observados são a perda generalizada do brilho das folhas, seguido de ligeira desfolha, com poucas brotações novas e sem brotações internas. Mas a característica mais acentuada é a presença de coloração amarelada nos tecidos internos da casca do porta-enxerto, na região do floema funcional, que fica completamente obstruído, afetando o sistema radicular. As plantas doentes têm grande quantidade de raízes mortas

Em variedades tardias (Natal e Valência), na primavera e início do verão, podem ser encontradas plantas mortas apresentando frutos com peso e tamanho normais. Nestas plantas, houve tempo para o florescimento, pegamento e maturação antes do colapso súbito da árvore. “A doença deve estar presente na planta há algum tempo, mas aparentemente a morte acontece de forma rápida e súbita quando a planta necessita absorver muita água para emissão de novas brotações e enchimento dos frutos”, opina o engenheiro agrônomo Renato Bassanezi, pesquisador do Fundecitrus. “Como ela não tem mais raízes para cumprir estas funções, entra em colapso.” A doença pode chegar a esse estágio em apenas cinco dias após os primeiros sintomas, como já foi observado em alguns pomares.

Até agora, alguns fatos foram observados, embora não exista confirmação científica definitiva para nenhum deles. Por exemplo: os pesquisadores acreditam que a doença seja causada por um organismo vivo, possivelmente um vírus. “A rápida disseminação, o tipo de distribuição da doença nos talhões afetados, e a presença de plantas de limão cravo sadias em talhões severamente afetados tornam difícil aceitar como causa primária da doença qualquer fator abiótico”, justifica o pesquisador Nelson Gimenes Fernandes, consultor do Fundecitrus e um dos coordenadores das pesquisas sobre a doença.

(*) Com colaboração da Tribuna Impressa de Araraquara

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