Estudar meticulosamente mapas e cercar-se do maior número de informações possíveis. Essa é a regra número um para quem pretende conhecer as belezas naturais da Patagônia, que esconde uma imensa dificuldade para quem se encoraja a explorá-la.
Por ser uma região praticamente desabitada, quase não há referências sobre os caminhos e estradas a seguir. As trilhas existentes - as chamadas rutas - ajudam, mas não são suficientes para auxiliar quem não a conhece direito. Somente com um bom mapa em mãos, um indispensável GPS (equipamento de orientação geográfica via satélite) é possível encará-la.
Tudo isso é necessário para não perder-se na desértica Patagônia, experiência que parece ser apavorante, mas que foi sentida pelos jipeiros e se transformou no momento de maior apreensão da aventura.
Os protagonistas foram o casal Guilherme de Souza Mourão e Maria Lúcia, que acabou perdendo o rumo logo após ter passado pelo Passo Rodolfo Robalos, em uma travessia do Chile até a Argentina com direção a El Calafate. No território argentino, em vez de seguirem pela rota escolhida, ambos acabaram seguindo por uma outra que não estava nos planos do grupo de aventureiros. Resultado: pânico geral na expedição. “Era um lugar isolado, que imaginávamos tratar-se de uma estrada, porque havia indícios de que passaram veículos por ali. Era um deserto puro e ficamos apreensivos, pois estávamos perdidos no meio do nadaâ€, relata o bauruense Antonio Carlos Telles.
Mas, conforme relata o bauruense, a ausência total de circulação de automóveis pelo local acabou sendo decisiva para encontrá-los novamente. “Quando eles se perderam, bateu um desespero no grupo. Depois, resolvemos esfriar a cabeça e percebemos a vantagem de quase não ter movimento, pois notamos a trilha que eles haviam tomado e os seguimos. Felizmente, quando os encontramos, estavam tranqüilos e até tomando um vinhoâ€, relembra.
Para Maria Lúcia, apesar de ter sido o momento mais difícil da viagem, a calma para enfrentar a situação foi fundamental. “Não tinha outra saída e, então, fomos andando até encontrarmos uma fazenda. Nela, um senhor nos pediu para marcar 40 quilômetros no hodômetro do jipe que logo estaríamos na rota nacional que estávamos buscandoâ€, destaca.
Sem combustível
Outro que também sofreu com imprevistos na expedição foi o bauruense Telles, que chegou a ficar sem combustível. Mas ele teve mais sorte que o casal Guilherme e Maria Lúcia. Além de se encontrar em uma estrada, o posto mais próximo ficava a apenas três quilômetros do local onde estava parado.
Segundo ele, isso ocorreu por preguiça de um frentista argentino. Ao parar em um posto para completar os tanques do seu jipe, que tem dois (um é de reserva), o empregado acabou abastecendo apenas um deles. “Isso por comodismo, pois no outro era necessário colocar a mangueira embaixo do paralama do jipe, o que dava certo trabalho. Como ele deve ter visto que o combustível refluiu algumas vezes e não quis ver se estava cheio, não completou o tanque de trásâ€, conta Telles.
Com isso, o bauruense saiu do posto acreditando que teria autonomia para andar mais 300 quilômetros antes de precisar abastecer novamente. Mas não demorou muito e logo ele descobriu que estava enganado. “Quando o tanque principal estava vazio, liguei a bomba para encher o principal, mas o ponteiro não mexia mais e acabei ficando sem condições de rodar. Então, o Guilherme foi até o posto e trouxe dez litros de diesel, quantidade suficiente para eu me deslocar até lá para abastecer.â€
Machu Picchu
Os poucos contratempos não desanimaram o grupo. Planos não faltam para outras expedições do gênero. Segundo Carlos, a próxima aventura poderá ser a mítica Machu Picchu, no Peru, cidade que abrigou a civilização inca. “Ainda precisamos avaliar se a distância e o tempo que teríamos para realizá-la será compatívelâ€, pondera ele.
Telles, a exemplo dos demais membros da Expedição Patagônia, enfatiza que faria questão de repetir a aventura. “Participaria novamente, pois é uma forma de sairmos da rotina corrida que vivemosâ€, finaliza.
Aproveitando a natureza
Os participantes da expedição ressaltam que, apesar do roteiro ter sido extremamente organizado, não havia como prever o tempo que demorariam para percorrer as rotas e as condições de hospedagem dos locais escolhidos para tal. “Tínhamos um roteiro pré-determinado, mas que podia sofrer variações. Às vezes sabíamos que se tratava de uma estrada de terra, mas não havia como prever se demoraríamos seis ou 12 horas para andarmos 300 quilômetrosâ€, afirma Carlos Franco Ferreira da Costa Filho.
Segundo Costa Filho, em certas ocasiões o grupo chegava aos locais previstos sem ter onde se hospedar. Por isso, nem sempre as acomodações eram as mais confortáveis. “Tínhamos referências de livros e guias que havíamos lido que davam uma idéia das características do lugar e do que procurar nele. E, diante disso, precisávamos aceitar o que nos estava sendo oferecido nas circunstâncias do momentoâ€, diz ele.
Apesar disso, os aventureiros não buscavam conforto na Patagônia. Para Telles, todos queriam um pouco de isolamento e também abrir mão de certas comodidades. “Queríamos ver a Patagônia como nos descreveram, como um locais ainda inexplorados no mundo. Ir para um lugar desse para ficar em hotéis não interessa, pois dessa forma não estaríamos saindo do nosso ritmo de vida e iríamos somente para tirar fotografia. O intuito dessa viagem era provar que, ainda, temos condições de viver minimamente. Isso foi o espírito da expediçãoâ€, ressalta ele. Com essa mentalidade em mente, acampar era uma das melhores alternativas. Um deles foi realizado em Torres del Paine, local onde se poderia pagar US$ 1100 por três dias na região. “Preferimos aproveitar a natureza e encarar, por exemplo, ventanias de até 110 km/h e a temperatura que cai de repente, em condições climáticas semelhantes à de um desertoâ€, frisa Telles.
Guardas “severos†e ciclista pão-duro
Os integrantes da expedição não irão se lembrar apenas das belas paisagens e das características histórico-culturais da Patagônia. Alguns fatos curiosos e engraçados ficarão para sempre guardados na memória do grupo.
Um deles foi provocado pela “severidade†de dois guardas argentinos. O médico bauruense Antonio Carlos Telles conta que todos sabiam que, para rodar na Argentina, os veículos necessitam de dois triângulos de sinalização e de uma caixa de primeiros-socorros. Entretanto, ao chegarem em San Jaime de la Frontera, o comboio de jipes foi parado pelos oficiais.
Ao serem abordados pelos policiais rodoviários, foram surpreendidos por uma exigência adicional. “Eles nos perguntaram se tínhamos o cambão, que é uma estrutura de metal utilizada para o reboque de outro veículo. Como nenhum dos três automóveis portava o equipamento, eles nos multaram na hora em US$ 238 cada umâ€, relata Telles.
No entanto, continua ele, ao mesmo tempo em que os membros da expedição eram autuados, carros com diversas irregularidades passavam livremente pela estrada sem qualquer intervenção dos guardas. “Vimos passar, na nossa frente, carros sem porta e sem farol. Daí percebemos que o negócio deles era multar os jipes que estavam viajando e, quem sabe, ter um jantar bem farto aquele dia às nossas custasâ€, ironiza Telles, rindo.
Outro fato curioso aconteceu em Cochrane (Chile), quando os aventureiros deram carona a um ciclista alemão chamado Sebastian Burger, que estava com a bibicleta quebrada. “Ele perguntou se não podíamos levá-lo até Torres del Paine que alguém iria estar esperando por ele lá. Durante o caminho ele foi nos contado que estava realizando um percurso espetacular pela regiãoâ€, afirma Telles.
Com sua bicicleta dupla, Burger ia revezando com parceiros de diversos países conforme os trechos iam sendo completados. Além disso, através de um site era possível acompanhar a aventura do alemão pela Patagônia. “Ele acabou viajando quase 600 quilômetros conosco e comportou-se de forma sensacional, pois até cozinhou para nósâ€, completa o médico bauruense.
Telles enfatiza, ainda, que o alemão era pão-duro. “Ele não queria gastar dinheiro de jeito nenhum. Em Barro Caracoles, por exemplo, havia somente um hotel e um posto de gasolina. Como estava muito frio, resolvemos dormir no hotel. Ele não pensou duas vezes e resolveu dormir ao relento. Para isso, encontrou um lugar plano e enfiou-se em um saco de dormirâ€, conclui ele.