Auto Mercado

Uma aventura pela Patagônia

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

Você trocaria a oportunidade de passar o Natal e o Réveillon com a família para encarar uma viagem até um dos poucos locais ainda intocados pela mão do homem no mundo, como a Patagônia? Pois foi o que fizeram os bauruenses Antonio Carlos Telles Nunes e Rubens Cardia Neto e outros quatro amigos.

Batizada de “Expedição Patagônia 2001”, a aventura contou também com a participação dos paulistanos Carlos Franco Ferreira da Costa Filho e seu filho Rodolfo e do casal Guilherme de Souza Mourão e Maria Lúcia. A bordo de três Land Rovers - dois Defenders e uma Discovery - o grupo percorreu, durante 21 dias, cerca de 13 mil quilômetros em estradas e trilhas do Brasil, Chile, Argentina e Uruguai. Em entrevista ao AutoMercado & Cia, eles contaram os detalhes da viagem.

Além das belíssimas paisagens, verdadeiro lugar-comum em se tratando da Patagônia, os aventureiros estabeleceram contato com a cultura, tradições e história das várias regiões e, principalmente, pontos turísticos dos países em que estiveram. Mas, conforme eles contam, mais do que realizar um simples “tour” pela Patagônia, os objetivos principais eram curtir a natureza e fugir da cada vez mais estressante rotina profissional do dia-a-dia.

Para Telles, a vontade de participar de uma expedição começou a surgir no momento em que tornou-se jipeiro, há cerca de seis anos. “Sempre tive vontade de estar em contato com a natureza. E o que há de mais selvagem e inexplorado hoje no mundo do que a Patagônia? Ela é um paraíso para nós que gostamos disso”, afirma ele. E acrescenta: “Queríamos conhecer um lugar que futuramente, com a chegada da civilização, deverá acabar. Eu, particularmente, queria ver se ainda tinha pique para fazer algo diferente, onde podemos nos sentir donos da situação, sem compromissos e horários.”

Segundo o bauruense, a viagem foi a concretização de um sonho frustrado anteriormente por não ter conseguido um período prolongado de férias. “O Carlos, que foi o precursor da idéia, já tinha ido para o deserto de Atacama, no Chile, e me convidado, mas não pude ir por motivos profissionais. Por essa razão, dessa vez iniciamos o planejamento para a expedição com um ano de antecedência”, conta Telles.

Preparação

Tal período acabou sendo fundamental para o sucesso da expedição, que se iniciou em 25 de dezembro de 2001 e se encerrou em meados de janeiro deste ano. Durante o tempo de preparação, os jipeiros buscaram o maior número de informações possíveis sobre a Patagônia para traçar os roteiros a serem seguidos na viagem.

Concomitantemente à definição dos destinos, os veículos utilizados na expedição passavam por uma série de adaptações a fim de encarar a aventura pela América do Sul. Nos Defenders, as principais foram a mudança da área de material de bagagem para não causar danos à carroceria, a troca das suspensões e a colocação de guinchos, cintas de reboque e GPS (equipamento de orientação e localização geográfica via satélite). “Sabíamos que naquela região teríamos de estar preparados para qualquer eventualidade”, frisa Telles.

Já a Discovery de Costa Filho ganhou chapas de proteção na parte inferior da carroceria em relação ao solo, pneus especiais que podem ser usados em asfalto e em estradas de terra e de pedras, farol de milha, tela de proteção contra insetos no radiador e protetor de farol de policabornato contra quebras.

O roteiro

A maior parte do roteiro da expedição foi elaborado por Carlos Costa Filho, que privilegiou passagens por locais paradisíacos, como os parques nacionais, a Cordilheira dos Andes, os glaciais argentinos de Perito Moreno e os vários lagos e complexos montanhosos patagônicos. “Organizamos trajetos em que, no início, andaríamos distâncias grandes para aproveitarmos com mais tempo regiões interessantes da viagem, como os parques nacionais”, detalha.

Definido o roteiro, malas e veículos prontos, era hora de “cair” na estrada. A data combinada para a partida era 25 de dezembro, quando todos deveriam se dirigir a Foz do Iguaçu, onde já haviam reservado hospedagem. De lá, o objetivo era seguir a Santiago, ponto de encontro marcado para encontrar a esposa de Guilherme, que até então viajava sozinho. “A partir daí fomos fazendo percursos menores para curtir várias cidades e regiões do Chile, como as montanhas Torres del Paine, e da Argentina, como os glaciais e Ushuaia, no complexo da Terra do Fogo”, destaca Telles.

Os patrocinadores e colaboradores da exposição foram a TT4, Kadar, Motul, Hobby Foto, Cherry Signs, Bearmach, Maceral e The Specialist.

Região tem influência indígena

A história da Patagônia se mistura às tradições indígenas. Segundo um site dedicado ao local, em 1520, cinco navios levando 265 homens, mais o Capitão Fernão de Magalhães, ancoraram à frente de uma terra totalmente desconhecida. Ao desembarcarem, encontraram pegadas humanas tão grandes que julgaram haver chegado à uma Terra de Gigantes. Mesmo sem ao menos ter a oportunidade de ver os homens que produziram aquelas pegadas, resolveram chamá-los de Patagões, ou seja, de Pés Grandes.

As pegadas eram fruto dos calçados usados pelos índios Tehuelches, nativos da região, que eram feitos de volumosas tiras de pele de guanaco, animal típico do local. A região toda foi batizada de Patagônia, sendo então um nome dado em virtude de uma ilusão. A Patagônia engloba a parte do território argentino que se encontra ao sul do Rio Colorado e parte do Chile.

Exposição “Expedição Patagônia”

AutoMercado & Cia. vai realizar, a partir de hoje, uma exposição com as principais fotos da “Expedição Patagônia 2001. Em três salas do restaurante do Clube do Whisk, na Villa Madalena, que fica na quadra 31 da rua Antônio Alves, serão espalhadas cerca de 50 fotos tiradas pelo médico bauruense Antonio Carlos Telles Nunes durante a viagem. A exposição poderá ser vista até o dia 5 de abril, às quintas-feiras e sábados, no período das 23 às 2 horas. O telefone da Villa para informações é (14) 234-4878.

Experiência marcante

Para os participantes da expedição, a aventura foi uma experiência marcante de vida e serviu até para desencadear um processo pessoal auto-reflexivo.

Para o médico Antônio Carlos Telles, a Patagônia, mesmo sendo um lugar praticamente deserto e inabitado, foi capaz de lhe transmitir uma energia vibrante. “Essa viagem serviu como um desabafo e, depois dela, voltei a encarar a vida de uma forma mais simples. Se todos tivessem a oportunidade de se liberar por um período durante o ano para passar por uma experiência dessa, seria muito mais gostoso viver”, ressalta ele.

Segundo o médico bauruense, uma expedição como essa serve para ensinar as pessoas a compreender melhor as outras. “Precisamos ir a um lugar desse para ver como levamos a vida de uma maneira totalmente errada. Ali vimos como somos pequenos e ínfimos em relação ao universo”, diz Telles.

Para Maria Lúcia, a oportunidade do contato com a natureza intocada e as paisagens desabitadas da Patagônia proporciona sensações indescritíveis. “Ver a natureza bruta, como os glaciais que se formaram há milhões de anos, e sentir in loco a baixíssima densidade populacional, que parece ser de 1,5 habitante por quilômetro quadrado, é uma coisa inimaginável.”

Para Carlos, a expedição foi proveitosa para estreitar ainda mais o relacionamento com seu filho Rodolfo. “Passamos muito tempo conversando e dividindo as funções durante a viagem, o que é impossível no dia-a-dia. Ficamos três semanas um disponível ao outro, entendendo e criticando em qualquer circunstância”, enfatiza ele, para depois complementar: “Pudemos também acampar em muitos lugares, como os parques nacionais. Isso para o grupo foi muito bom, pois todos tinham de se ajeitar para dormir, comer e lavar roupa, aumentando a integração.”

Outro fato marcante lembrado por Carlos foi a oportunidade de conhecer e colher informações das mais variadas regiões do Chile e Argentina. “Todos eram solícitos em prestar qualquer tipo de ajuda e, com isso, aprendemos características dos lugares, especialmente os detalhes históricos, de artesanato e da gastronomia. Eles contam isso com a maior naturalidade”, afirma ele.

Guilherme segue o raciocínio de seus companheiros, mas faz uma ressalva. “Acho que precisávamos de uma semana a mais, pois dirigíamos praticamente o dia todo. Na volta, por exemplo, chegamos a rodar 17 horas e mais de 1300 quilômetros”, conta.

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