Cho-co-la-te. Parece que até a sonoridade desta palavra é mágica e enche a boca. Descoberto pelos olmecas, maias e astecas da América Central, antes de Cristo, o chocolate ganhou a Europa pelas naus de Cristóvão Colombo e a doçura pelo desbravador Ferdinando Cortez. Os Estados Unidos foram os últimos a receber a então bebida, que na época da máquina a vapor foi prensada pelos holandeses e ganhou o mundo.
Hoje muita gente não vive sem chocolate. É um prazer quase sexual, literalmente, pois muita gente prefere a iguaria a sexo e não se cansa de encontrar vantagens. Se tornou um vício que as pessoas não têm a menor vergonha de esconder, muito menos pensam em fazer terapia para livrar-se dele.
Dependente assumido, mas com vergonha de aparecer, o dentista A.C. só se deu conta do “vício†há dois anos quando resolveu emagrecer. Ele não era gordo, mas cortou refrigerantes e frituras, só não conseguiu tirar o chocolate. “Passou um dia, dois, no terceiro, fiz a “dieta dos dois Sonhos de Valsaâ€, conta e cai na gargalhada.
Mesmo com as guloseimas, afirma que emagreceu dez quilos. Hoje, ele confessa que todos os dias seu consumo mínimo de chocolate é de cinco ou seis bombons. Mas se deixar come uma caixa de meio quilo a cada dois dias. Aliás, o dado se comprova pelo número de caixas de chocolate que compra quando vai ao supermercado. Ele revela que compra cerca de 16 caixas por mês com medo que o produto possa faltar.
“A minha obsessão é tanta que, numa noite de inverno, já passava das duas e meia da manhã, eu já estava de pijama sob os cobertores... Mas me levantei, me troquei, peguei o carro e rodei a cidade para achar um lugar aberto. Tive que parar no posto de gasolina quase na estrada. Depois achei absurdo, mas na hora me fez um bem.â€
Outro episódio escabroso ocorreu num final de tarde quando saía do consultório. Ele comprou uma barra de 200 gramas e ao chegar em casa minutos depois, tinha menos que a metade. “Eu estava dirigindo!â€, assusta-se.
Sua paixão por chocolate é antiga e começou com uma brincadeira de criança, que colecionava máscaras que vinham no verso das embalagens de Chokito e Prestígio. Na época, seu chocolate preferido era o Kri, hoje rebatizado de Crunch, também era um devorador voraz de Diamante Negro e Laka.
Brigadeiros de festinhas então eram seu sonho de consumo. “Se não me controlar, acho que como uns 40. Hoje os bombons de cereja com licor são minha perdição.â€
A. revela que nunca teve espinhas e não tem cáries. “E não é só por causa da profissão nãoâ€, retruca.
Ele conta que na falta de chocolate em barra ou bombons, sorvete e bolo com altas doses de cacau resolvem o problema. Mas conta que muitas vezes se pegou fazendo bolinhos de achocolatado, açúcar e manteiga para não surtar. “Principalmente na época da faculdade.â€
Prazer
A noite é o momento mais prazeroso para os chocólatras. O estudante de publicidade Helber Nardo, que também se considera viciado em chocolate, afirma que quando a noite chega a vontade é maior e o prazer de assistir tevê, degustando uma caixa de bombons é extremamente forte. Mas este prazer já virou necessidade. “Já não consigo ficar sem comer chocolate um dia sequer. Se não tem tablete, pode ser um bombom, uma bala, um bolo, bolacha. Até um leitinho serve, já ajuda.â€
Nardo também é daqueles que sai em busca do doce até de madrugada. “Já fui ao mercado as três da manhã para comprar chocolate. Aliás, quando saio à noite, antes de voltar para casa preciso parar num posto, padaria e até na farmácia. Se chegar em casa e não tiver um bombom sequer, saio de novo.â€
Ele aponta que o chocolate lhe proporciona uma satisfação, que não consegue descrever. Aliás, lhe dá prazer passear pelas prateleiras procurando, novos produtos que contenham massa de cacau na receita e até embalagens diferentes.
Fã de Suflair, já chegou a ter intoxicação por chocolate e conseguiu reduzir as quantidades diárias para 100 gramas. Mas nos finais de semana, admite que este número aumenta.
“Quando estou ansioso, como mais. Quando acabo de jantar também preciso compensar o sal. Comi um salgado, tenho que comer um doce. E só não gosto de chocolate recheado com café e bananaâ€, revela o dentista A.
“Posso até tentar viver sem, mas confesso que seria muito difícilâ€, sentencia Helber.
Mulheres são as principais vítimas
Devorar muitos bombons em poucos minutos é uma forma do sexo feminino compensar a queda de serotonina no cérebro.
Há mulheres que têm um desejo incontrolável por chocolate. Embora as razões ainda não tenham sido totalmente esclarecidas pela psiquiatria, sabe-se que esse “vício†é mais freqüente na fase pré-menstrual, quando ocorrem alterações nos níveis hormonais e queda na produção de serotonina, que aumenta a sensação de tristeza e abatimento, tornando a mulher irritável e deprimida.
Os especialistas chamam o distúrbio de Craving (o termo é aplicado também para a compulsão por outros alimentos), não ocorre apenas pela textura, pelo aroma ou pelo sabor do chocolate. É que em sua composição existe um aminoácido, chamado triptofano (responsável pela produção de serotonina no cérebro), cujo efeito é relaxante. Por isso também se explica o aumento do consumo de chocolate no início da noite.
A dependência ocorre por conta de ingredientes psicoativos do chocolate, as metilxantinas, que provocam bem-estar, efeito semelhante aos canabinóides, presentes na maconha.
Tendência genética
Ainda não se sabe por que algumas mulheres ficam dependentes de chocolate e outras não. A incidência maior da doença é observada entre adolescentes e mulheres na faixa dos 30 anos. Pode estar associada a transtornos alimentares, como a bulimia nervosa, que leva a comer em excesso e depois induzir ao vômito.
Como remédio
O primeiro passo para se livrar do consumo excessivo de chocolate é investigar se há alguma doença associada ao quadro, como tensão pré-menstrual, depressão e bulimia, e tratá-la. Depois, iniciar uma terapia. A paciente anota em uma agenda a quantidade que comeu, o horário e as circunstâncias, se houve, por exemplo, uma discussão ou outro fato desagradável que a tenha levado a consumir chocolate como forma de compensação.
A partir daí esse alimento passa a ser administrado em pequenas doses e em determinados horários como se fosse um medicamento. Nos casos mais graves, pode-se receitar uma droga contra ansiedade com critério, para não criar dependência.
Fonte: Salutia