No palco ela interpreta a escritora americana Elizabeth Bishop que, passado o estranhamento inicial, se apaixonou pelo Brasil e aqui viveu quase 20 anos em companhia de sua amada Lota Macedo Soares, uma mulher influente, amiga de Carlos Lacerda e idealizadora do aterro do Flamengo, que se suicidou por amor.
“Tinha lido matérias sobre a Bishop, mas os jornalistas sabiam mais que eu. Só sabia que era uma grande poeta americanaâ€, confessa Regina Braga, que na vida real é apaixonada pela personagem do monólogo “Um porto para Elizabeth Bishopâ€, de Marta Góes, dirigida por José Possi Neto.
Mas a paixão declarada dessa atriz que nasceu mineira, filha de um paulista com uma amazonense, passou a infância e a adolescência em Presidente Prudente e hoje vive na correria do eixo Rio-São Paulo é o Brasil.
Regina ama o samba, a poesia brasileira, é apaixonada por Elza Soares, Alcione e Beth Carvalho, adora cantar, dançar e interpretar, seu ofício há 30 anos. Está lendo Interpretações do Brasil do Gilberto Freire. “Estou começando agora, mas já vi que será uma tarefa árduaâ€. E diz que se pudesse mudar alguma coisa no Brasil amanhã, daria um jeito na justiça. “Você pode até passar fome, mas se você sabe que vai ter justiça, você passa fome com mais dignidade. O pior sentimento é o de viver uma coisa injusta.â€
A atriz conversou com a equipe do Caderno Ser, na semana passada, quando levou sua brasilidade ao palco do Teatro Municipal de Bauru.
Jornal da Cidade - É a primeira vez que você faz um monólogo. Qual é a sensação? Regina Braga – Quando comecei a ensaiar, as minhas primeiras sensações eram de pânico. Me perguntava se me batesse um branco em cena, em que eu iria me apoiar. Eu nunca tinha feito um monólogo me lembrava que nos meus momentos de dificuldade sempre me apoiei num colega. Mas me curei disso antes da estréia: à medida em que as primeiras pessoas da equipe começaram a assistir os ensaios, eu percebi que o texto tinha uma comunicação muito fácil com a platéia e isso me deu confiança. Eu conto uma história que é muito interessante. Eu sou uma gringa chegando ao Brasil e olhando o Brasil e os brasileiros. As pessoas querem saber como é isso. Isso é uma coisa preciosa, que me salvou.
JC - Como é trabalhar com o José Possi Neto, que tem uma experiência enorme em teatro, principalmente em dirigir grandes monólogos femininos? Regina - Eu tive um diretor que fez muito bem para min e acho que foi o melhor diretor que já tive. Como ele tem muita experiência nisso, me ajudou muito, é seguro e generoso. A cada dificuldade ele trabalhava de um jeito muito amoroso, que fui ganhando confiança. Ele nunca me machucou e é raro dizer isso de um diretor. Já sofri muito com direção. Quando eu estreei essa peça há um ano no Festival de Teatro de Curitiba, claro que eu estava nervosa. A gente sempre fica. Eu sempre fiquei e acho que nunca vai acontecer de eu não ficar. Mas eu tive segurança total e a peça cria uma relação com a platéia que não deixa me perder. As pessoas estão escutando uma história que elas querem ouvir. Assim, as minhas fantasias, felizmente, se diluíram.
JC - O fato de interpretar uma personagem homossexual lhe incomoda? Se a peça não fosse um monólogo você faria o mesmo personagem sem problemas? Regina - Isso nunca me passou pela cabeça como um problema. Porque eu encaro o homossexualismo de uma forma totalmente natural. Para min, no mundo existem quatro tipos de pessoa: homens que gostam de mulheres, homens que gostam de homens, mulheres que gostam de mulheres e mulheres que gostam de homens. Acho que é assim desde que o mundo é mundo. E nunca tive nenhum estremecimento por isso, acho extremamente normal. Até mesmo as pessoas que vêem à peça comentam que isso é tratado com tanta naturalidade. Eu acho, o Possi acha e a Marta acha que tem que ser tratado assim e eu não estou fazendo nada demais, faço apenas o que tem que ser feito.
JC - Como você acabou fazendo uma americana, se é tão apaixonada pelo Brasil? Regina - O meu tesão é mesmo o Brasil. Procurei a Marta, que é minha amiga há 30 anos, para fazer uma coisa sobre o Brasil. Mas quando ela me contou a história da vizinha americana que tinha vindo para ficar três dias, comeu um caju, entrou em coma, se apaixonou e ficou aqui quase 20 anos, fui ficando fascinada, principalmente com as coisas que ela falava dos brasileiros, com um carinho impressionante. Apesar de estar num camarote privilegiado na sociedade carioca dos anos 50, ela tinha uma visão apaixonada como poucos poetas brasileiros.
Quando você buscava essa coisa sobre o Brasil o que esperava? Qual era seu desejo antes disso? Regina - Eu nunca sei direito. Com os 500 anos, eu li muita coisa que nunca tinha tido a possibilidade de ler. Desde Sérgio Buarque de Holanda, Hans Staden, tanta coisa foi republicada. Mesmo a Carta do Caminha, que eu não tinha lido, li nesta época. Aqueles livros do Eduardo Bueno sobre a “Viagem do Descobrimentoâ€... Ficava imaginando o que dava para fazer, mas não sabia não. Eu tinha uma frase do Paulo Prado na cabeça que diz assim: “Aqui é um país radioso onde vive um povo tristeâ€. Achei isso tão bonito, mas fiquei pensando: “eu emendo essa frase com o que?†Eu não sabia. Fui procurar a Marta por isso e acabou nisso.
E no final como foi o estranhamento da brasileira interpretar a estrangeira chegando ao Brasil? Regina - É uma delícia, porque com o olho de uma estrangeira você tem muito mais liberdade para falar mal. É muito mais fácil. (risos) No começo dava medo. Quando a gente pega uma platéia muito simples também. Dá até vontade de falar que no começo ela não gosta, mas depois ela vai gostar e muito. “Não se assutem!!!â€(risos) Mas fazer uma estrangeira dá mais liberdade.
Você sempre fez personagens de época e bem nacionais, até caricaturados. Regina - Fora Chiquinha Gonzaga em quem você está pensando?
Eu estou pensando por exemplo na Lídia e os outros personagens da tevê? Regina - Você tem razão. Tenho muito isso, uma vontade muito grande de trabalhar perto do Brasil, da cultura brasileira. Se você me perguntar o que me faria feliz agora, lhe responderia que era fazer uma outra coisa brasileira, que refletisse o Brasil e fizesse bem para os brasileiros. É meu traço mais forte e não uma ideologia. Acho que é isso que eu sei fazer. Eu não tenho vontade de entrar em coisas distantes porque já tem muita gente entra. Aqui só temos para entrar. Às vezes tenho a impressão de que não tenho vontade de fazer na estrangeiro, eu fico com raiva quando vejo milhões gastos com uma produção americana que não tem nada a ver com a gente. É preciso usar esse dinheiro para fazer autores nacionais, mesmo aqueles que não são tão bons, mas são nossos. Mas também não estou isenta de me apaixonar por uma peça estrangeira e querer fazê-la.
JC - Como você encara a tão falada crise no teatro? Regina - O teatro vive numa crise desde que eu comecei a fazer teatro, porque tem público pequeno. E de tempos para cá só piorou a quantidade de gente que vai assistir. Quando eu fiz por exemplo “Uma relação tão delicadaâ€, que foi um grande sucesso e outras peças dava para se fazer de terça a domingo, com duas sessões no final de semana e quando era sucesso ficávamos anos fazendo. Fiquei quatro anos em cartaz e ganhando muito bem. Atualmente, eu não ganhou bem, já está fazendo um ano, já fiz mais de 12 cidades e Rio e São Paulo. Antigamente, se fazia dois anos São Paulo, mais dois no Rio e ficava um ano viajando. Tinha mais gente que via. A economia piorou muito para o teatro. Você conseguia fazer uma peça e viver com o dinheiro da platéia. O que dava uma grande liberdade para o artista e a satisfação de viver do seu próprio trabalho. Agora somos empregados de uma firma, da empresa que nos patrocina. Isso não é bom, mas é o jeito...
JC - A Regina Braga tem 30 anos de carreira; dois filhos, a Nina que fez cinema e o Gabriel Braga Nunes, que também é ator; foi casada com o diretor Celso Nunes; e hoje é a esposa de Dráuzio Varela, que é médico, mas que também é escritor e trabalha na tevê. Você criou todo esse universo artístico ao seu redor? Regina - Acho que ficou, né? Mas não acho que seja o motivo da vocação dos meus filhos. Eles podem ter herdado do pai ou do avô. O Gabriel é genético, ele sempre quis ser ator. Não acho que fui eu que formei, não. (risos)
JC - Como é entrar em cena com o filho concebido no palco e criado nos bastidores como aconteceu em “À margem da vidaâ€? Regina - Foi ótimo. A única coisa que eu sinto, é que aquela peça eu não acho que fiz bem como atriz. Foi uma coisa que me amargurou fazer. Têm alguns personagens que você sente que não encontrou o canal. Não que não tenha sido bom. Ganhei até prêmio. Mas fazer aquilo todo dia era um esforço grandioso. Eu tinha que estar muito inspirada para entrar em cena. E quando isso acontece acho que o trabalho ainda não está maduro. Não precisa pensar, rezar, é objetivo, é fácil. “À margem da vida†foi difícil, quebrava a cabeça todo dia. Fiquei até o fim buscando o personagem. Dessa maneira, lamento não ter vivido com o Gabriel um momento em que estivesse bem. Não estava sossegada. Estava amargurada.
JC - Num outro momento, este texto pode ser retomado? Regina - Ai, não tenho a menor vontade!! (se desespera) O texto é lindo, mas eu quero fazer um outro trabalho com o Gabriel para a gente tirar de letra e poder se divertir. Nessa peça, a gente não se divertia muito.
E como seria um próximo espetáculo sobre o Brasil? Regina - Eu queria fazer um espetáculo sobre os ícones que a gente tem na nossa cultura. Você começa a dizer Gonçalves Dias e você mexe com as pessoas: “Não chore meu bem, não chore que a vida é luta renhida. Viver é lutar. Não chore que a vida é combate que aos fracos abate, que aos fortes ao brados só faz exaltarâ€. Isso arrepia. Você tem essas coisas na nossa cultura e é muito bom trabalhar isso. É um contato básico que se estabelece com, a poesia, com os hinos, com a música popular que está cheia disso. Quando cheguei em Bauru vi uma bandeira do Brasil e me lembrei: “Criança não verás país nenhum como esse, olha que céu, que mar, que profusão de insetos. A natureza aqui é um seio de mãe a desdobrar carinhos.†Não sei de quem é isso, mas eu fiquei com isso no ouvido. A gente tem essas coisas de última página de cadernos de escola que ficaram na vida da gente.