RH & Tendências

Trabalho invade espaço do fim de semana

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Foi-se o tempo em que o trabalho se restringia ao período de segunda a sexta-feira. O número de pessoas que dedica sábados, domingos e feriados às tarefas profissionais é cada vez maior. A tendência de se acabar com os dias “sagrados” de folga é visível e aponta para um círculo que pode deixar estressado muitos trabalhadores.

De acordo com informações do Departamento de Estatística do Trabalho dos Estados Unidos, pelo menos um quarto dos 130 milhões de trabalhadores norte-americanos dedica os dois dias de folga à profissão. No Brasil, a situação não é muito diferente. A concorrência, a falta de vaga no mercado e luta para se manter empregado está fazendo com que as pessoas abram mão do lazer e das horas de folga em troca da dedicação ao serviço.

Uma das categorias que mais sentiu esse aumento de carga horária em Bauru foram os comerciários.

Há cinco anos, desde que foi aprovada uma lei na Câmara Municipal liberando os comerciantes para formular o horário de abertura das lojas, o tempo dispensado às tarefas profissionais tem aumentado.

De acordo com Antonio Pereira de Lima, diretor do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bauru (SECB), a extinção do final de semana está bem acentuada no comércio. “Os funcionários dos supermercados são o maior exemplo disso. Eles trabalham aos sábados, domingos e feriados em troca de folgas durante a semana”, ressalta.

Para os funcionários das lojas do Centro da cidade, a carga horária aumentou aos sábados. Até 1996, eles trabalhavam até as 13 horas durante dois sábados e até as 17 horas, nos demais. Atualmente, a maioria dos estabelecimentos funciona até as 18 horas todo sábado.

Na Shopping a carga horária é ainda maior. O empreendimento funciona também aos domingos e os funcionários fazem um esquema de plantão, revezando-se entre si para obter dias de folga.

Ligado ao celular

Não são apenas os trabalhadores que tem formalmente que cumprir a carga horária aos finais de semana que estão abandonando o lazer. Profissionais liberais e executivos estão cada vez mais ligados aos seus deveres junto à empresa. Tanto que muitos deles carregam pagers, celulares e até lap tops para os seus momentos de lazer. Tudo para ficar concectados com as tarefas, mesmo longe da mesa de trabalho.

Os arquitetos Claudio Antonio Berriel Ricci e Luís Cosci Higa, sócios em um escritório em Bauru, aproveitam sábados e até domingos para dar continuidade aos seus projetos. “O meu sócio viaja toda sexta-feira para São Paulo a fim de vistoriar obras. Ele costuma retornar sábado à noite ou domingo. Enquanto isso, eu cuido do escritório durante todo o sábado”, explica Ricci.

Ele acredita que, com o advento da informática, houve a necessidade de se ampliar as horas trabalhadas. “Tudo passou a ser para ‘ontem’ e é preciso aproveitar cada minuto para dar conta do trabalho”, salienta o arquiteto.

Pai de três filhos, Ricci diz que a família acaba ficando um pouco sacrificada nessa batalha pelo campo profissional. No entanto, ele acredita que é possível conciliar trabalho e lazer. “Às vezes, as crianças reclamam a minha ausência. Mas, elas entendem que esse esforço também é para o bem delas”, salienta.

O arquiteto sonha com o dia em que poderá diminuir a carga de trabalho e reservar mais espaço na agenda para o lazer e o descanso. Mas, ele acredita que isso ainda vai demorar muito para acontecer. “Pelo o que eu estou observando, cada vez mais o trabalho tomará conta dos nossos dias e a gente terá que se dedicar bastante para dar conta de todas as tarefas”, salienta.

Seguindo na contramão da tendência, a corretora de imóveis e diretora da Associação dos Corretores de Imóveis de Bauru (Acib), Wânia Pôrto, não abre mão dos finais de semana. Proprietária de um estabelecimento em Bauru, ela programa seus dias para que o sábado e o domingo fique livre para o lazer. “O fim de semana é sagrado. Apesar de dar muito valor aos meus clientes, a família sempre vem em primeiro lugar”, destaca.

Mãe de dois pré-adolescentes - de 11 e 13 anos - , Wânia aproveita os dois dias de folga para dar atenção aos filhos. Ela faz programas junto com eles e cuida da casa, já que a empregada não trabalha aos finais de semana.

A corretora salienta que o ramo imobiliário está cada vez mais exigindo dedicação plena dos profissionais da área e que os finais de semana se tornaram bons momentos para se fechar negócios. “São nesses dias que se atende aquelas pessoas que não tem horário durante a semana para alugar ou comprar um imóvel”, diz.

Há mais de dois anos, de acordo com Wânia, as imobiliárias estão investindo nos plantões de fim de semana para concretizar negócios. Com isso, corretores de celular em punho durante o almoço de domingo se tornou cena corrriqueira.

Comentários

Comentários