Na Universidade de Chicago existe desde 1947 um relógio cujos ponteiros marcam simbolicamente o risco de uma hecatombe universal. É o chamado “Relógio do Juízo Finalâ€. Quando seus ponteiros se encavalarem às 12 horas ou meia-noite, o mundo estará se desintegrando em meio a um conflito nuclear que marcará o fim do Homo sapiens. Se sobrar algum clone que possa, milhares de anos depois, reconstituir a vida no Planeta, nossos restos mortais serão objetos curiosos em alguns museus sob a legenda - Homo irrationale.
O tal relógio foi criado depois da destruição de Hiroshima e Nagasaki, que sofreram impactos atômicos durante a II Guerra Mundial. Em matéria de terror os Estados Unidos ainda ganham longe dos muçulmanos suicidas das Torres Gêmeas. Em 1953, início da Guerra Fria entre a União Soviética e os Estados Unidos, os ponteiros avançaram cinco minutos e pararam no perigoso limite das 11h58. A gente não sabia se ia acordar vivo no dia seguinte. Sentia-me um idiota passando a noite decorando as fábulas de Fedro em latim e as cinco declinações. Pra quê? Kennedy descobriu que os russos estavam montando bases de lançamento de foguetes com ogivas atômicas em Cuba. Krutschev ameaçava mundos e fundos se alguém mexesse com o camarada Fidel. Na ONU, o premier soviético chegou a arrancar o sapato para bater na tribuna de madeira, como os presidiários fazem na penitenciária para protestar contra a má comida.
A última vez em que vi o relógio, a Guerra Fria havia terminado com a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética - marcava 11h45, o horário mais distante do juízo final. Dia desses no avião da TAM, o cara ao meu lado lia “A vida sexual de Catherine M.†e eu procurava, de esguelha, filar algumas linhas do texto. O colega de aperto não se mostrou nem um pouco solidário quando percebeu a minha curiosidade. Simplesmente fechou o livro e o colocou na bolsa em frente. Abri o saquinho de amendoim com a boca, para disfarçar. Meu voyeurismo às vezes me coloca em situações constrangedoras. Daí a pouco notei que o homem tinha um tique estranho - a orelha movimentava-se na vertical sem parar. Pouco depois fui flagrado bisbilhotando a orelha. Como já havia comido todo o saquinho de amendoim, perguntei se também ia para Bauru. Recebi um “não†curto e grosso. Perguntei sobre sua profissão em mais uma tentativa de escapar do vexame - consultor de empresas em Chicago. Emendei querendo saber notícias do relógio da Universidade. Aquele sobe-e-desce da orelha parou na hora. O cara descontraiu-se todo e disse que o relógio estava marcando 11h53 devido ao risco de um atentado nuclear terrorista. Radicais muçulmanos haviam comprado na Rússia minibombas atômicas acondicionadas em maletas 007. Poderiam explodir a qualquer momento em Nova York, Chicago ou Washington. O presidente Bush, que também não é bom da cabeça, fala em mandar pelos ares Saddam Hussein e, com ele, o Iraque e adjacências. Índia e Paquistão, potências atômicas, também ameaçam se arrebentar.
E nós aqui preocupados com buracos e o discurso do Sarney.
(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC