Moradora de Bauru há 21 anos, a pesquisadora Lúcia Helena Ferraz Sant’Agostino avalia que a cidade é muito mais receptiva hoje em dia que no passado. Ela acha graça, por exemplo, das faixas estendidas pelas imobiliárias da cidade chamando os universitários a alugarem imóveis. “Há dez anos, os estudantes eram vistos como vândalos, destruidoresâ€, lembra.
Professora da Unesp até o final de 1999, quando aposentou-se, Lúcia Helena estuda Bauru há 13 anos. O ponto de partida da viagem que resultou na tese de doutorado “Rumo ao Concreto†foi a investigação sobre a prostituta Eny e de como ela era aceita e até utilizada como símbolo da cidade.
A reportagem do Jornal da Cidade entrevistou a pesquisadora em sua casa. Na conversa, ela mostrou que mesmo longe da universidade bauruense e dos alunos, ela continua instigante e comprometida em fazer de Bauru uma cidade pensante. E concreta.
Jornal da Cidade - Qual era sua intenção com este trabalho? Lúcia Helena Ferraz SantAgostino - Eu pretendi primeiro um outro tipo de pesquisa sobre as cidades que não fosse abstrato, teórico. Uma pesquisa fundada no concreto da experiência das pessoas. Porque o planejamento urbano, normalmente, trabalha com uma cidade imaginária, genérica. Todas as cidades são iguais e, portanto, uma cidade abstrata, que não é a cidade concreta, que existe realmente. Então, para poder chegar neste concreto da interpretação da cidade por parte dos moradores, eu criei esta estratégia de fazer com que as pessoas fotografassem o seu cotidiano, o que é valor para elas na cidade. Daí, eu mostrei as fotografias para todos eles, as próprias e as dos outros para poder sacar o que eles contavam de Bauru. Ou da cidade que eles mostram.
JC - Você queria que eles mostrassem com o usam a cidade? Lúcia Helena - Exatamente. Eu queria a cidade do uso deles, a interpretação da cidade pelos moradores e usuários dela. A cidade é o ambiente construído, o contexto produzido por quem mora. A cidade não é um cenário, mas um espaço construído pelas relações sociais, portanto, não é um fenômeno pronto e acabado. Está sempre em processo, fazendo-se, construindo-se e transformando-se.
JC - O que você viu nestas 1.000 fotos que os moradores tiraram de Bauru? Lúcia Helena - Eu achava que talvez pudesse encontrar na cidade uma homogeneidade, uma identidade única. Mas Bauru não tem. Isso é uma coisa que é muito importante para o planejamento urbano. A gente tem quadros de valores, modos de viver, bastante diferentes entre os bairros. Eu acho que você poderia talvez encontrar uma homogeneidade entre as classes mais ricas de moradores de Bauru. Essas pessoas repetem certas ações.
JC - Mas os ricos daqui não vivem de um modo parecido com os de Rio Preto, de Marília, de Ribeirão Preto? Lúcia Helena - Aí é como o (geógrafo) Milton Santos já disse. Os ricos do mundo inteiro têm muito mais há a ver entre si, que os ricos e pobres de um país ou de uma cidade.
JC - E os pobres? Lúcia Helena - Primeiro que eles são muitos mais críticos do que se imagina. Eles têm propostas a fazer para mudar. E, se ouvidos, poderiam colaborar muito com a cidade deles. É curiosíssimo. Aqui em Bauru, por exemplo, existem pessoas que moram em alguns bairros e nunca foram além do Centro, não conhecem mais nada da cidade. A cidade delas, quando muito, engloba o Centro.
JC - A cidade reprime? Lúcia Helena - Eu acho que existem barreiras imaginárias, mais do que barreiras concretas. Por exemplo, alguns moradores da Bela Vista disseram que teriam dinheiro para morar em um bairro de classe alta, mas não mudam porque a vida deles é muito mais legal e muito mais agradável lá. Do jeito que moram e vivem. Então, não é uma questão de que a cidade reprime. Exatamente é uma questão de modo de vida, de apropriação do território. Tem gente que gosta de viver na Bela Vista. Não gosta de viver do jeito que as pessoas vivem, sei lá, no Terra Branca, no Jardim América, em condomínios fechados. Então, essa fragmentação, essa pluralidade de anseios e expectativas, apoiadas em diferentes modos de vida na cidade, acho que é um dado muito importante para o planejamento urbano.
JC - Até dez anos atrás, a Eny era associada com um pensamento de.... Lúcia Helena - ....classe dominante.
JC - Sim, mas ela era oferecida como um símbolo da cidade, como o trem e o sanduíche. Hoje, a cidade carece de símbolos? Lúcia Helena - Eu não acho que a cidade carece. Porque na medida que você diz que a cidade carece, está propondo um modo homogêneo de interpretar a cidade. Eu acho que a gente tem que ver o que a cidade é de fato.
JC - A Eny era uma coisa de mídia? Lúcia Helena - Era de mídia e era econômico também. Ela fazia o dinheiro rodar e ficar em Bauru por isso que ela foi tão vangloriada. Porque, você veja, Bauru era entreposto. O dinheiro chegava aqui e ia embora, não ficava. Era uma cidade de comerciantes e intermediários. Então, o dinheiro chegava, vamos dizer, se comprava um gado, a transação era feita aqui, o dinheiro vinha para cá, mas depois ia para São Paulo, para Santos. Bauru era relé do capital. Passava o dinheiro para algum lugar. A Eny faz o dinheiro ficar aqui no comércio. Não só a Eny, mas ela puxa o carro da prostituição, da vida noturna que Bauru até hoje tem uma vida noturna muito intensa.
JC - Depois que a Eny morreu, o que mudou na cidade? Lúcia Helena - Até antes da Eny morrer, vamos dizer assim, já começou a não ter tantos passantes, tantos forasteiros. Começa essa fase da apropriação real da cidade, não mais o chão-de-passagem, mas, agora, o chão-de-ficagem (risos).
JC - Como assim? Lúcia Helena - Bauru tentou criar uma população fixa na década de 30, mas com a quebra de 29, não conseguiu. O primeiro movimento, quando ela virou Capital da Terra Branca, quis construir uma cidade para a gente que mora aqui, fixada aqui. Mas não se conseguiu. A população começou realmente a se fixar, de verdade, a partir da década de 70. Neste aspecto, talvez o Nicolinha (ex-prefeito Nicola Avalone Júnior) tenha sido muito importante porque ele dá acesso ao Bela Vista, fazendo a cidade se comunicar para além da área foreira e acontece as primeiras doações de terras. Depois disso, você começa a ter relações entre vários bairros. Você pega por exemplo o lado leste, Higianópolis, Vila Cardia, Jardim Brasil e Redentor. Isso só acontece depois de 60. Que coincide com a prostituição. O que coincide também com o fim da zona de prostituição no Centro.
JC - Voltando na história do “chão-de-ficagemâ€, essa história de Bauru ser fragmentada pode ser vista como uma identidade única da cidade? Lúcia Helena - Na verdade, nenhuma cidade tem uma identidade única. É ilusão pensar isso em uma cidade de médio porte para cima. Você pode, eventualmente, ter em vilas pequenas. Mesmo assim, eu tenho as minhas dúvidas, precisaria pesquisar para ver. Eu acho que seria horrível mesmo você querer dar uma identidade única para a cidade. A complexidade é sempre rica, muito mais rica.
JC - O que as pessoas que pensam a cidade poderiam fazer para diminuir as diferenças? Lúcia Helena - Acho que não é questão de diminuir. Quem pensa a cidade deveria ouvir quem mora na cidade. Para ver qual é, de fato, a cidade que eles vivem. Para poder intervir na cidade que eles vivem, não na cidade imaginária.
JC - Os moradores que você ouviu eram sempre críticos? Lúcia Helena - Há vários tipos. As pessoas foram abordadas aleatoriamente. Eu e alguns alunos que me ajudaram andávamos nas ruas, nas portas das casas, nos bares e perguntávamos se as pessoas poderiam colaborar com uma pesquisa. Nós ficamos mais ou menos seis meses em cada um dos seis bairros pesquisados. Alguns topavam e outros não. Existem bairros que as pessoas já foram tão maltratadas que elas têm medo de participar. Acham que a pesquisa vai ser usada contra elas ou que vão ser cobaia de alguma coisa. Foi difícil conseguir colaboradores em alguns bairros, em outros não. Principalmente na Bela Vista e Independência foi muito fácil. Todo mundo queria participar, gostava de participar.
JC - A Bela Vista é um bairro em que moram muitas pessoas de idade, não é? Lúcia Helena - Não, não. Pelo contrário. Você tem quatro, cinco gerações lá. Ali tem um modo de vida muito deles, muito familiar, muito interiorano, vamos chamar assim, muito gostoso. Então, ninguém quer sair de lá. As gerações vão nascendo, casando entre eles e ficando por lá.
JC - Você pegou bairro de diferentes poderes aquisitivos? Lúcia Helena - Eu peguei o Jardim América que, depois do boom imobiliário, tem gente muito mais rica lá. Na verdade, o bairro se subdivide na mentalidade, não como no mapa, não tem nada a ver com o mapa. Existe um América rico e o outro América mais de classe média, digamos. Esses dois Américas convivem entre eles, mas existem barreiras imaginárias. O pessoal mais antigo é do América menos rico e o mais novo, do América mais abastado. Este último, começou a ir para lá na década de 80, mas grande parte das mansões e dos altos edifícios são da década de 90. Tudo de agora. Esses dois Américas são completamente diferentes. O modo de vida, o modo de pensar, o que eles valorizam, os anseios, as expectativas, o que eles gostariam que fosse modificado no bairro e assim por diante.
JC - Isso a fotografia trouxe para você? Lúcia Helena - Claro, claro!
JC - Por que você escolheu este método? Lúcia Helena - Porque a linguagem do desenho implicaria nas pessoas saberem desenhar, o verbal é extremamente complicado porque as pessoas têm medo do que vão falar, censuram-se, fazem auto-censura, entende? O código verbal é muito opressivo, coercitivo para ser só ele. E a fotografia implica, necessariamente. em seleção, esse que é o problema. Tanto é que para a pessoa tirar 12 fotos ela é obrigada a selecionar antes de enquadrar. Mostrar como ela quer que algo seja visto. Então, é percepção como juízo de valor, como processo de conhecimento. É uma coisa de sensibilidade.A fotografia, nesse sentido, não é mero registro visual, mas faz convergir todos os canais sensoriais. Porque eles fotografam alguma coisa, às vezes pelo cheiro, às vezes pelo som. É importante, por exemplo, na Independência, o apito da fábrica porque ele acerta até o relógio. Quando a antiga fábrica da Sanbra é fotografada, na Vila Independência, o que se quer falar é de um modo de vida que o bairro produziu a partir dela e não da fábrica que está hoje lá.
JC - Depois de tiradas as fotos, você conversou com todas as pessoas que contribuíram com o seu trabalho para evitar uma interpretação aleatória. Isso é um tipo de preocupação que os pesquisadores não costumam ter. Lúcia Helena - Não costumam, mas é por isso que eu acho que essa pesquisa tem com o que contribuir. Foi uma pesquisa extremamente trabalhosa, muito trabalhosa, mas ela traz resultados concretos e que não são só de interpretação minha.
JC - Mas que resultado concreto você espera da pesquisa? Lúcia Helena - Quando eu disse que traz um resultado concreto refiro-me à verdade dos moradores, o que eles pensam da e para a cidade em que vivem. Agora, em termos de planejamento urbano, eu acho que esse tipo de pesquisa pode contribuir muito com o conhecimento da cidade. E devolver aos moradores o que eles esperam de uma administração democrática.
JC - E você, como moradora de Bauru, o que espera de uma administração democrática? Lúcia Helena - Que a população seja ouvida. Por exemplo, muitos dos bairros têm uma reclamação violenta em cima da qualidade de educação ou da ausência de escola. Outro problema é a falta de equipamento de lazer. Isso é uma constante. Para se divertir, as pessoas têm que mudar de bairro. Mesmo que seja para jogar futebol. As associações de moradores, por exemplo, não são estimuladas, não recebem ajuda de qualquer tipo. Você ouve muita queixa do Estado, em todos os níveis, municipal, estadual e federal. Os moradores não têm armas para trabalhar em cima da realidade deles. Então, culpam a prefeitura que não faz, o Estado que não faz. Com certeza, num modelo participativo de gestão urbana, eles teriam sugestões preciosas de como empregar o eventual dinheiro destinado ao bairro. A carência de educação e de lazer e a crítica à saúde, aos equipamentos de saúde, é violenta. E você vê que não é mentira. A Independência, por exemplo, um bairro muito populoso, não tem posto de saúde. O morador tem que ir para uma outra vila ou para o Centro para ser atendido.
JC - O seu projeto põe contra a parede a teoria de que o povo é ignorante? Lúcia Helena - O que apurei, na verdade, é que a escolaridade não está diretamente relacionada com a capacidade crítica das pessoas. As fotos talvez mais significativas, com propostas de coisas diferentes, vêm de pessoas com pouca educação formal. A experiência concreta, do sofrimento, ensina muito mais.
JC - Alguma conclusão mais significativa para você? Lúcia Helena - Duas, talvez. A primeira é que, quanto mais gradual e espontânea foi a ocupação de um bairro, mais as pessoas demonstraram se apropriar verdadeiramente dos seus espaços e se sentem responsáveis pelos seus lugares e pelo destino da sua cidade, pois as pessoas têm repertórios culturais mais semelhantes. Ao contrário, quando a ocupação é feita de repente, quase simultânea, pois produzida, inventada, quer pela especulação imobiliária, quer pela construção de núcleos habitacionais, os repertórios dos moradores são tão díspares que muito pouco eles têm em comum. Tendem, assim, a ser mais competitivos e muito menos solidários. A segunda coisa, que não é propriamente uma conclusão, mas muito mais uma instigação, é que quando os colaboradores narram suas histórias no bairro, os homens revelam reminiscências de fatos singulares, acontecimentos. Narram lembranças, digamos. As mulheres, por outro lado, narram a memória, conjuntos complexos de situações afetivas e profundas que viveram. Isso é um belo gancho para uma nova investigação.