Pesca & Lazer

Pescar é fazer magia

(*) Fernando Lucilha Júnior
| Tempo de leitura: 6 min

Pescar, atividade atribuída aos homens pelos deuses. Ato sublime de capturar o peixe em condições de paz, lazer e aventura, num momento mágico de interação com a natureza. Participar de uma pescaria, seja ela onde for, é, acima de tudo, um contato íntimo com o mundo em que vivemos e, conseqüentemente, uma aproximação maior de Deus, o Supremo Criador de todas as coisas (inclusive os peixes)!! Ah! Como é bom pescar! Que alegria incontida; que descontração, e que ansiedade pela surpresa! Meus companheiros que o digam. Eram eles, Orlando Righetti e Alexandre Trombini, da Unesp e o banespiano como eu, Edison Barducchi (será que escrevi certo?). O ano devia ser 1991, o mês, salvo engano, era julho. Lá fomos nós, apesar do frio, buscar mais uma deliciosa aventura no pantanal de Mato Grosso do Sul. O pequeno mas confortável Escort do “Barcuccão” nos acomodava sem folga. Porta-malas cheio, pé na estrada! A rodovia Mal. Rondon (ainda por ser concluída) até Três Lagoas, tinha mais desvios que o caminhar de um bêbado. A antiga e saudosa NOB cruza, com seus trilhos de ferro, por várias vezes, a rodovia entre Três Lagoas e Campo Grande. Eu citei “trilhos de ferro” para que os leitores não confundam com “trilhos de cortinas” que são de alumínio. No segundo cruzamento da linha férrea com a estrada, uma placa avisava que haveria uma lombada próxima. Como estávamos rindo das “piadas” contadas para não dar sono, o Barducchi nem se deu conta da dita cuja. Passou a 80 ou 90 km por hora sobre aquele obstáculo.

Foi um vôo só! O Trombini e o Orlandão meteram a cabeça no forro do carro umas três vezes no mínimo, devido a estatura avantajada dos dois. Minha pobre caixa de pesca, no porta-malas, subiu e desceu da mesma forma. Virou uma sopa de anzóis, chumbadas, bóias, giradores e linhas. Estou procurando até hoje o fecho da pobre caixa! O Escort, como se tivesse cérebro no lugar do motor, andou uns duzentos metros em zig-zag, de tão tontinho que ficou. Passado o susto, “louvamos” com veemência a genitora do querido colega Barducchi. Mas, apesar das lombadas, chegamos. Era o Pesqueiro da Neusa, o local de nossa predileção, às margens do barrento rio Miranda. No dia seguinte, saímos logo pela manhã em direção ao delicioso rio Salobrinha, de águas transparentes e calmas, que desaguam no Miranda.

Nesse encontro do Salobrinha com o Miranda, que todos chamam de “Barra”, forma-se uma prainha rasa, quando o rio está baixo. Era o que acontecia nessa ocasião. Paramos o barco na pequena praia, e descemos na areia para que o arremesso de nossos molinetes fosse satisfatório. Na embarcação, que ficara com mais da metade de seu corpo (do bico até o meio) na areia escorregadia, ficou somente o Alexandre. O motor, obviamente, ficou na água. As linhas lançadas, oscilavam ao sabor da corrente, gostosamente. Nossa concentração foi quebrada pelos gritos do Trombini que, desesperado, via o barco se deslocar da praia, indo em direção ao leito do rio, levado pela corrente. O “Orlandão” correu em auxílio ao amigo, que lhe estendia o remo para que ele puxasse o barco de volta à praia. Coitado do Orlando! Estava usando um par de tênis. Patinou na lama feito um bêbado, caindo de bunda, feito um saco de batatas! Agora foi a vez da mãe do Trombini ser “louvada”! Para compensar todo aquele sofrimento, percebi as puxadas na minha linha. Com precisão e sorte, fisguei algo grande e poderoso, que insistia em levar a linha para o outro lado do rio. Barco recuperado, todos a postos, linhas recolhidas, ficando somente a minha, em luta contra aquele peixe que ainda não sabíamos o que era. É nessas horas que motor costuma falhar. Dito e feito, falhou! Mas, para nossa surpresa, era tamanha a força do peixe, que começamos a subir o rio, levados suavemente pelo “bitelo”! Amarrei o molinete no motor, segurando firme, morrendo de medo da linha arrebentar! Levantei o motor para ajudar o peixe, ou sei lá o que seria aquilo que nos levava de volta, na direção do Pesqueiro. No trajeto, alguns pescadores não entendiam o que estava acontecendo e acenavam para nós. O Trombini e o Orlando estavam com um sorriso amarelo, misto de medo e interrogação! O amigo Barducchi estava meio abobado e incrédulo! Era incrível, pois o nosso “rebocador” fazia todas as curvas do rio, na maior perfeição. Até parecia que “ele” ou “ela” tinha tirado a “Arrais” (carteira de piloto de barco)! O mais inacreditável estava por acontecer. Não é que nosso “piloto” estacionou o barco no porto do Pesqueiro! Deve ser um velho amigo da Neusa, pensei, na maior fantasia!!

Fizemos uma rápida reunião a bordo e, em consenso, resolvemos não recolher a linha, com medo do que poderia ser “aquilo”. Acorrentamos o barco no cais e não deixamos a vara com o molinete à mostra, para não atrair curiosos. Nossa esperança era que, pela manhã, após uma boa noite de sono, a linha estaria partida e o que acontecera seria esquecido.

Jantamos a comida deliciosa da Neusa, no agradável salão, onde enormes ventiladores de teto espantavam o calor e os mosquitos. Na parede de madeira, bem no alto, uma portinhola com um trinco nos chamava a atenção. O jovem que nos servia o delicioso “caldo de piranha” perguntou se não queríamos ver TV. Foi aí que ele abriu a portinhola, tirando o cadeado, e saltou para a frente um belo aparelho de TV. De imediato, o companheiro Trombini o chamou de “cuco”. Abria a portinha e cantava! Tudo isso amenizou nossa tensão e fomos dormir, pensando no que poderia acontecer na manhã seguinte. Levantamos bem cedo. Recolhi a linha bem devagar, sob os olhares angustiados dos meus companheiros. Conforme o “nylon” foi ficando aprumado e mais pesado, nossos corações batiam acelerados e a ansiedade tomava conta de nossos sentidos. Veio à tona um exuberante pintado que no meu cálculo deveria pesar uns 20 quilos! Ele flutuou calmamente na água, como que pedindo para que eu o puxasse para dentro do barco! Foi o que fiz! Em seguida, livrei-o do anzol com facilidade, pois o “peixão” era extremamente dócil. Confesso que havia algo de estranho naquela criatura do rio. Estávamos tão emocionados que resolvemos ligar o motor e sair sulcando as águas. Repentinamente, antes que o Barducchi funcionasse o possante “Yamaha 15”, o peixe arregalou aqueles olhos pretos e profundos, saltando para a água, levando na boca enorme, uma pequena corda que estava no fundo do barco. Adivinhem!! Fomos rebocados de novo, rio abaixo, pelo fantástico peixe de couro! Guardamos o motor. Todos os dias seguintes da pescaria, bastava entrar no barco, fazendo algum barulho, e lá surgia nosso fiel “timoneiro”, que dormia sob as águas bem debaixo do nosso barco. Com muita tristeza, viemos embora, no final da pescaria. Deixamos o “Netuno” aos cuidados da Neusa, numa lagoa formada pelas cheias, no fundo do seu belo Pesqueiro. “Netuno” foi o nome que demos àquele inesquecível peixe! Infelizmente, não mais voltamos ao Pesqueiro da Neusa, porém, ficamos sabendo que ela vendeu todos os seus motores de popa. Quem leva os pescadores pra cima e pra baixo é o nosso querido “Netuno”. O preço é uma dúzia de “minhocuçú” por pescador, para alimentar o bichinho! Quem quiser pode ir até lá para comprovar o fato.

Aproveito a oportunidade para mandar um recado ao insigne “engenheiro-pescador”, Dorival Nogueira (JC de 28/2/2002 - História de Pescador) que eu fiquei sabendo que vão construir uma usina hidrelétrica no rio Amazonas e, certamente, ele será requisitado para ajudar a desviar o curso do rio com seu “enxadão” arretado!!!

Um abraço “piscoso” aos amantes da pesca!

Fernando Lucilha Júnior é pescador e contador de história

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