Comparativamente ao seu antecessor no Planalto, o mineiro Itamar Franco, que, como todos sabem, tinha ou ainda tem em seu personalíssimo topete capilar o destaque de sua figura de homem, Fernando Henrique ostenta também uma característica física, como se pode definir, corretamente, aquela simpática expressão facial que, normalmente, aparece em seu rosto quando ele olha ou fala de alguma coisa. Exatamente em função disso tem ganho ele, de muitos observadores, o curioso slogan de “encantador de serpentesâ€, pois, como que intencionando amansar a sociedade quanto a problemas vitais do País, costuma associar aos seus pronunciamentos aquele risonho otimismo com que se dirige aos brasileiros. Excepcionalmente, porém, na semana passada, escondendo num cantinho dos lábios a tradicional fleugma, o homem desvencilhou-se da rotina e surpreendeu a praça com um prognóstico assaz pessimista: “melhor qualidade de vida nossos conterrâneos só virão a ter após seis mandatos governamentais consecutivos!â€
O que é isso, presidente? Então só daqui a um quarto de século (25 anos e penosos anos) teremos desaparecido de nossa pele e tudo aquilo que mais martiriza o Brasil, principalmente este fabuloso desemprego profissional, gerador impoluto de uma infinidade de problemas pesadíssimos, como se podem considerar a fome e a miséria, atrás dos quais vêm de sopetão as doenças congênitas e epidêmicas e a decomposição social que tanto dramatizam o cenário patrício? Acha mesmo Sua Excelência que, no mínimo, seis continuadores persuasivos de suas melhores pegadas no Palácio serão imprescindíveis para que nossa população possa divisar, finalmente, nos nossos enormes sertões, lavouras profusamente ubérrimas, nos verdes pastos bovinos sadios e robustos, nos modernos hospitais quase nenhum enfermo, nas enfeitadas mesas refeições gostosas e fartas, nas ruas urbanas raríssimas crateras, nos ambientes sociais cordialidade, fraternidade e nenhuma violência tipo seqüestros, assassinatos e roubos e, em pé de igualdade, nos Executivos oficiais decisões administrativas inteligentes e, nos parlamentares, pleno entendimento político? É muito tempo para se esperar, prezado FHC, diante do que se chega à conclusão de que está inteiramente coberto de razão o relator das Nações Unidas, Jean Ziegler, mencionado no noticiário como tendo visitado nosso País e afirmado existirem aqui mais de 23 milhões de subnutridos. Conseqüentemente, não merece ele as contestações que lhe fez Sua Excelência, a quem incumbe, então, o dever de agilizar a caminhada das nossas coisas a fim de que a nacionalidade mate a fome de todos os seus filhos e se liberte, sem tanta delonga, da violência e do profundo marasmo no qual teria descoberto a posição acomodatícia em que se vai assentando indiferente aos recônditos do tempo. Opinar é bom, mas fazer sem transferir responsabilidades para terceiros é, sem dúvida, o correto e o honesto na órbita governamental. Então, arregace as mangas! É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado