Desde 1936, quando o novo instituto de George Gallup anunciou a reeleição inesperada de Franklin Roosevelt, as pesquisas não saem mais da cabeça dos políticos. Daquela vez, ele acertou na mosca, mas as coisas não são bem assim. E a fascinação exercida pelas pesquisas desperta, é claro, suspeições na mesma proporção do seu interesse.
Os erros espetaculares ocorridos nas pesquisas são sempre justificados segundo a fórmula ritual, seja no Brasil, Estados Unidos, França: elas são fotografias de um momento, o que é absolutamente certo. O que todos esquecem de dizer é o final da fórmula. As pesquisas são fotografias de um momento e não são, em nenhum caso, um prognóstico. Mas é, justamente, essa imagem de ser uma espécie de adivinhação, que lhes dão charme e que fazem o dinheiro correr para os institutos especializados.
Elas provocam depressão e euforia nos candidatos. Podem ser drogas leves ou pesadas de acordo com os resultados. Mesmo aqueles mais sofisticados ou ingênuos que reclamam um debate aprofundado de projetos e programas, que deploram a tirania da imagem e dos números, acabam acompanhando a campanha eleitoral como uma corrida de cavalos. A verdade é que as pesquisas, cada dia mais, dão o ritmo da dramaturgia eleitoral.
Existe uma explicação plausível para que as aferições de tendências eleitorais tenham alcançado a importância de hoje. A mais comum delas é exatamente a falta de política. Os partidos se enfraqueceram como todos os corpos intermediários que faziam o jogo de aproximação entre o eleitor e os políticos. Fica só o candidato para ser amado ou odiado pelo eleitor.
A pesquisa não é mais um indicador que reflete o fato naquele momento. Ela é o próprio fato que vai definir o modo de comportamento dos candidatos. Isso de um lado. Do outro, a pesquisa também define o discurso de candidato em termos de plataforma — o que ele deve dizer. Mas vai mais longe, estipula também a forma como ele deve dizer. Com toda essa evolução pode ser esquecido aquele candidato que tem idéias próprias e revolucionárias sobre determinado assunto. É justamente por isso que os franceses acham iguais as idéias de Jacques Chirac e Lionel Jospin os dois oponentes — um de esquerda outro de direita -— que devem ser os escolhidos para disputar o segundo turno da eleição presidencial em maio.
Além de tudo ainda existe o problema do universo a ser pesquisado. Teoricamente, a pesquisa é feita com amostras do eleitorado, levando-se em conta o sexo, idade, profissão, regiões habitadas e outros indicadores que possam dar uma versão reduzida do conjunto de todos aqueles que vão escolher seus representantes. É comum a imagem da colher tirada do caldeirão de sopa para experimentar o sal e a mistura dos ingredientes. A colher é a pesquisa que indica o conteúdo geral do caldeirão.
Acontece que cada vez mais os critérios adotados para a avaliação precisam ser multiplicados, porque as profissões, os níveis de instrução, o casamento, as formas de moradia têm se modificado no decorrer dos anos. E adotar maiores e melhores critérios de avaliação significam custos sobressalentes que não interessam ao cliente. Mas existe mais. As pesquisas também jogam com a verdade e a mentira dos pesquisados e dos pesquisadores.
Em cidades como São Paulo, Paris, Novas York está cada vez mais difícil fazer pesquisa porta-a-porta. A saída é o telefone. O telefone evita que o pesquisador seja atacado pelo cachorro do vizinho, pelo traficante do quarteirão ou não consiga chegar ao endereço por causa da enchente do dia. Mas mesmo assim ninguém garante, que pela pressa que é comum nas sondagens, o pesquisador faça ele mesmo o papel de entrevistado para liquidar o assunto.
Até agora, também, não foi inventado um detetor de mentiras que possa garantir que o pesquisado esteja falando a verdade. Sabe-se, por exemplo, que nas classes mais baixas existe uma certa tendência de não se dizer que vai votar em branco ou anular. E nas classes mais altas, com melhor nível de informação e instrução, a tendência é não declarar votos em candidatos de direita. Com todos esses desvios que ocorrem na apuração das intenções de votos fica difícil afirmar categoricamente que a pesquisa é infalível. Mas a gente vai levando. Como o sistema representativo brasileiro que está sendo levado. Não se sabe para onde.
(*) O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado