No começo desta semana, o diretor de teatro Chico de Assis fez um de seus programas favoritos. Esteve checando como anda a produção de Lençóis Paulista, na 7.ª Semana e Teatro de Lençóis.
Pode-se dizer que ele gostou do que viu, o que reforçou a defesa de um ponto de vista que pode parecer absurdo para alguns. “Se o teatro brasileiro vai ter uma renovação, esta renovação virá do Interior do Estado de São Pauloâ€, ele diz com todas as letras para quem quiser ouvir.
Assis foi um dos fundadores do histórico Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE), e seu currículo inclui a direção de “A Mais Valia Vai Acabar, Seu Edgarâ€, de Oduvaldo Vianna Filho, uma das montagens mais políticas e importantes da história do teatro brasileiro.
O diretor fala do Interior paulista com conhecimento de causa, só no ano passado visitou 14 cidades, como atividade paralela ao Mapa Cultural Paulista, da Secretaria Estadual da Cultura.
Dono de uma conversa agradável, cheia de informação, Assis falou com a reportagem do Jornal da Cidade na segunda-feira passada. A seguir, os melhores trechos do bate-papo, que aconteceu na sala de reuniões do jornal.
Jornal da Cidade - Na sua opinião, qual é a principal dificuldade para se fazer teatro de qualidade no Interior de São Paulo hoje? Chico de Assis - Eu sempre digo que se o teatro brasileiro vai ter uma renovação, esta renovação virá do Interior do Estado de São Paulo.
Eu não digo isso para agradar o Interior paulista, eu constato isso com o desenvolvimento do teatro principalmente em Ribeirão Preto e São José do Rio Preto.
E agora aqui, por essa zona, você pode ter a certeza de que essa região vai evoluir muito rapidamente.
Jornal da Cidade - Você vê algum paralelo entre o fazer teatral de hoje, em que pesa uma dificuldade financeira para o fazer artístico, e o do final dos anos 60, quando a ditadura militar ameaçava até a vida dos seus críticos? Assis - São duas épocas, duas atitudes éticas diferentes. Naquela época, o teatro tomou ares de dever cívico. Tem uma coisa do teatro que é muito importante, que as pessoas deixam passar batido, mas eu vou colocar para você através de um ídolo da sua geração, eu creio. John Lennon.
O John Lennon uma vez dando uma entrevista, o repórter perguntou para ele: como é que você faziam com aqueles espetáculos que vocês davam em estádios nos Estados Unidos, aquela multidão de gente. E ele respondeu: ninguém ouvia nada. “Mas como assim?â€, o jornalista disse. Não, os equipamentos de som não eram tão bons, ninguém ouvia nada. Mas se ninguém ouvia nada, porque eles iam lá? E ele falou, para estar com a gente.
Sabe, então, o teatro daquela época, ele tinha essa característica muito forte. As pessoas iam ao teatro para estar com a gente.
A gente estava com a gente no teatro. O teatro tinha esse fundamento a mais.
Em todas as épocas, o teatro sempre teve este período da gente. Toda a época pré-revolução francesa, o teatro foi assim também.
Jornal da Cidade - Mas para alguns, existe uma barbárie instituída nos dias de hoje. Existe um movimento atual que chama-se “Arte contra a Barbárieâ€... Chico de Assis - Eu fiz parte desse movimento. Inclusive, na primeira reunião, eu falei e parece que a minha fala foi a que mais moveu a platéia.
E eu falei uma coisa fundamental, que o Estado, a política, o governo não tinham mais medo do teatro. E na minha época, tinha. Eles tinham medo de nós. Hoje em dia, o Estado e o governo não tem mais medo de um teatro, por quê?
Porque o teatro não está muito significativo em termos da sua presença transformadora. Mas o teatro tem fases que são uma espécie de recolhimento, como se ele se fechasse e se organizasse para voltar e cumprir o seu papel.
E parece que a gente está chegando em um ponto, onde o teatro vai chegar novamente em uma época muito boa no Brasil, no mundo eu não sei.
E o sinal disso eu vejo no Interior do Estado de São Paulo, dada a consciência em que se faz teatro, dada a alta qualidade. Os espetáculos são melhores que os que eu vejo...
Jornal da Cidade - Mas o teatro profissional na região de Bauru mal existe, uma vez que poucas pessoas são remuneradas adequadamente por esse trabalho. Você acha que esta situação é reversível? Assis - Eu não considero quem faça teatro um amador. O teatro é uma coisa que você vai fazendo até se sustentar com ele. Quando eu era do Teatro de Arena eu morava no teatro e não recebia salário.
Então, éramos amadores? Não éramos porque tinha bilheteria. O problema do teatro é voltar a viver da bilheteria. O teatro tem sido amparado pelas instituições e isso criou um certo vício, que deve ser rompido. O teatro precisa voltar a viver da bilheteria. E para isso ele tem que queimar etapas.
Jornal da Cidade - Você é contra cobrar R$ 1,00 de bilheteria, como o Governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo faz, subsidiando alguns espetáculos escolhidos na Capital? Assis - Essas são campanhas de divulgação do teatro. O teatro deveria ser popular por definição. Porque ele é uma arte que sempre, historicamente, foi popular.
É claro que existem várias formas de teatro. Tem teatro para meia dúzia, tem teatro para centenas de milhares, tem o teatro da Broadway, que a pessoa sai das profundezas do Alasca.
E aqui no Brasil, aqueles que mais precisam, porque o teatro é uma coisa necessária dentro da panorama cultural e artístico, da própria evolução e formação da cabeça do povo brasileiro. Mas ele não pode pagar, porque às vezes ele não pode pagar nem mesmo a condução.
Esse é um problema, da pauperização, do desemprego, dessa coisa toda. Então, existem duas maneiras de você conduzir essa popularização.
Uma são os chamados eventos, contra os quais eu sou radicalmente contra. Fazer um grande espetáculo na praça da Sé, em São Paulo, gastar R$ 1 milhão, eu prefiro pegar um grupo de pessoa da classe teatral e pagar dois anos para eles ficarem com esse dinheiro lá nos bairros, fazendo teatro com os grupos.
Porque o evento é vento. Ele vem e vai e não cria absolutamente nada. O outro é envolver as pessoas com o sistema teatro. Cada vez que você aproxima alguém para conhecer e fazer teatro, você está formando um espectador.