Tribuna do Leitor

SEU ANTÔNIO

Oscar Camaforte
| Tempo de leitura: 2 min

As chuvas evidenciaram as goteiras do telhado e as fissuras da laje do teto da casa onde moramos, que não é uma obra antiga, tem pouco mais de 10 anos.

Menos mal, aqueles defeitos tiveram a virtude de reavivar em minha memória a figura do seu Antônio, um pedreiro cujas mãos calosas, durante boa parte de sua vida, ajudaram a construir um hospital, uma igreja, salas de aula e várias residências.

Seu Antônio também levantou mais de um “quarto-e-cozinha” para sem-tetos, sem cobrar a mão-de-obra, às vezes, até doando o material para a construção.

Filho de imigrantes, bem cedo ele aprendeu que o dinheiro deve ser gasto com parcimônia, assim ele não desperdiçava o excesso de argamassa raspada no assentamento de tijolos, mas não economizava ferro e cimento na confecções de vigas, lajes e pés-direitos.

Se necessário, ele também fazia o madeirame do telhado e a instalação elétrica. É verdade, ele não era lá de caprichar muito no acabamento, mas suas obras foram feitas para durar, por isso, ainda estão por aí, algumas têm mais de 50 anos. (É preciso referir-se a elas no tempo presente, pois eu nunca soube de alguma que tivesse de ser demolida).

Seu Antônio não está mais neste mundo. Há mais de 10 anos ele recebeu o irrecusável convite para habitar em uma das muitas moradas que Jesus prometeu que iria preparar para os Seus amigos, na casa do Seu Pai.

Desde então, seu corpo jaz em singelo sepulcro, sob o amplo gramado de um campo santo, onde não é permitida a construção de túmulos ou mausoléus, nem de muretas para um canteiro de flores.

As goteiras do teto da minha casa fizeram brotar lágrimas dos meus olhos quando pensei: “Que pena não ter sido esta casa construída pelo seu Antônio, meu saudoso pai”. (Oscar Camaforte - RG: 3.640.192)

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