Articulistas

A encruzilhada de Porto Alegre

Juan Moreno
| Tempo de leitura: 3 min

As manifestações de Barcelona durante a Cúpula européia, realizada em meados deste mês, demonstraram, uma vez mais, o crescimento do protesto contra a visão neoliberal da globalização. Ao mesmo tempo, também são cada vez mais evidentes as contradições do chamado movimento antiglobalização que se move entre um componente elitista e radical e outro em que estão os setores mais articulados e representativos da sociedade civil, entre eles os sindicatos. Curiosamente, e a partir de óticas diferentes, os figurões do fundamentalismo liberal e alguns expoentes da antiglobalização coincidem em negar ou desprezar o papel dos sindicatos. Os primeiros para impor a desregulamentação do mercado de trabalho, os outros para monopolizar a rua ou a interlocução institucional.

O mérito do Fórum Social Mundial (FMS) de Porto Alegre (31 de janeiro a 5 de fevereiro) é o de ter aglutinado todos os que pedem um mundo mais solidário, respeitando a autonomia de cada movimento para elaborar suas propostas. Portanto, esse fórum é um importante lugar de encontro entre organizações e culturas políticas diversas, e, freqüentemente, díspares, mas não uma nova internacional como alguns se apressaram em batizar.

Em Porto Alegre, reuniu-se um Fórum Mundial pelo Sindicalismo e o Trabalho, convocado por todas as internacionais sindicais que haviam feito uma declaração unitária expondo sua vontade de participar dessa convocação da sociedade civil para introduzir em seus debates os problemas do emprego, da violação da liberdade sindical pelas empresas multinacionais e os governos, da discriminação trabalhista das mulheres, etc.

Soluções nacionais ou integração regional? Muitos se surpreenderam com o acordo que o Partido dos Trabalhadores (PT) firmou em Porto Alegre, com o Partido Socialista francês, para apoiarem-se mutuamente em suas respectivas campanhas eleitorais. Não se deve esquecer que Lula e o PT rechaçam a Alca que os Estados Unidos querem impor, mas apostam no Mercosul como contexto para o desenvolvimento comunitário com seus vizinhos e primeiro passo para uma integração latino-americana equilibrada e não-dependente. E que, por sua vez, o socialista e primeiro-ministro Lionel Jospin se alinha em favor da União Européia mais unida social e politicamente.

Se houver avanços em ambos os objetivos (fortalecimento do Mercosul e giro social na UE) como reclamado pela Confederação Européia de Sindicatos à Cúpula de Barcelona e aos sindicatos do Cone Sul às suas autoridades, seria possível que os dois blocos abrissem um novo modelo de relações políticas comerciais e econômicas entre si, com grande repercussão em outras regiões do mundo. O rechaço à globalização neoliberal não pode nos levar a um fechamento das fronteiras nacionais, que, pelo contrário, devemos ir suprimindo de forma progressiva. As receitas nacionalistas tampouco valem em uma ou outra parte do Atlântico, e não é com elas que se pode resolver crises como a da Argentina.

O FSM é, e pode continuar sendo, um lugar de encontro de movimentos e redes sociais transnacionais, para contrapor ou elaborar suas próprias alternativas, e onde também as personalidades da cultura possam expor suas idéias e pesquisas. Nós, trabalhadores, temos nossas próprias organizações representativas, que devemos unir, renovar e internacionalizar, para lutar em aliança com os novos movimentos sociais por essa outra Europa e esse outro mundo possível reclamado em Porto Alegre e em Barcelona. (O autor, Juan Moreno, é sindicalista espanhol e representante da Confederação Européia de Sindicatos no Conselho Internacional do Fórum de Porto Alegre)

Comentários

Comentários