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Mentiras que ajudamos a criar

Ana Cássia Maturano
| Tempo de leitura: 3 min

Não é raro observarmos crianças que contam mentiras. Elas fazem uso desse artifício por não se sentirem seguras em dizer a verdade, o que se deve muitas vezes ao modo de agir dos adultos, em especial dos pais. Refiro-me aos pais, ou seus substitutos, por serem eles as pessoas mais importantes na vida da criança.

Algumas vezes, os pais agem de maneira exagerada frente aquilo que o filho diz. Agindo assim, provavelmente o filho se fechará, omitindo ou mentindo sobre o que ia dizer, não confiando que pode se abrir e contar a verdade. Isso ocorre, sobretudo, quando a criança nota que desagradará o adulto, após, por exemplo, quebrar um vaso ou outro objeto qualquer. Talvez essa criança tema perder o amor dos pais, caso mostre seus aspectos negativos.

Outras vezes os pais negam a verdade por se sentirem ameaçados por ela, levando o filho a mentir. Pensemos na situação em que para agradar aos pais a criança mente sobre seus sentimentos em relação ao irmão. Ou então algo que possa ter ocorrido na escola, como um furto, mas que a criança nega e o pai a apóia incondicionalmente, ainda que suspeitando do contrário. Nessas situações, pode-se estar reforçando a idéia de que mentir é algo bom por haver, às vezes, ganhos secundários: elogio por dizer que gosta do irmão e apoio apaixonado do pai que tenta provar sua inocência.

Acredito que não seja confortável para nenhum pai pensar que seu filho mente ou faz algo reprovável. No entanto, não devemos nos iludir que nossos filhos são perfeitos, afinal são humanos. Também não vamos torná-los perfeitos, mas podemos com algumas atitudes simples ajudá-los a serem mais honestos e cúmplices.

Os pais devem estar preparados para ouvir as mais variadas coisas dos filhos, inclusive as que forem contra seus princípios. Quando digo isso, não se deve entender que devam concordar com tudo o que os filhos dizem, mas podem escutar sem recriminar ou ter uma atitude exacerbada. Isso favorecerá que as crianças se sintam mais seguras em serem honestas e autênticas. Além, é claro, de sentirem que são amadas integralmente pelos pais e não apenas em seus aspectos positivos.

Se um adolescente confia em seus pais e sente que saberão ouvi-lo, provavelmente não terá grandes dificuldades em contar que em determinada festa alguém usou drogas. Se os pais vierem com quatro pedras na mão, esse jovem pensará duas vezes antes de dizer algo. Por isso, cuidado com os tons moralistas. Se ouvirem o filho e, num diálogo, articularem uma reflexão, todos podem ganhar e os pais ainda podem ajudar os filhos caso algo saia do controle.

Uma relação de confiança é melhor e mais fácil para todos. Mas, é sempre bom lembrar que os pais constituem modelos a serem seguidos pelos filhos. Quando mentem, por mais inocente que seja, eles legitimam a mentira perante os pequenos. (A autora, Ana Cássia Maturano, é psicóloga e psicopedagoga pela USP, especializada em Problemas de Aprendizagem. É co-autora do livro Puericultura – Princípios e Práticas, onde aborda aspectos relacionados a ‘estimulação cultural da criança’)

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