Cultura

Romantismo pop domina sertanejos

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 3 min

Depois que Chitãozinho e Xororó transformaram a música sertaneja em espetáculo pop, em idos dos anos 80, as duplas nunca mais foram as mesmas. Do chapéu de palha para as calças agarradas de couro e da viola caipira para a guitarra elétrica e bateria não precisaram muitos anos.

O resultado está na nova safra da música sertaneja deste início de século. Seguindo passos de artistas consagrados, como Zezé Di Camargo & Luciano, Rick & Renner e outros, a maioria dos que se lançam no mercado hoje em dia apostam num novo estilo que dominou o mercado do gênero: o pop romântico cantado em duplas.

Assim surgem, por exemplo, Zé Henrique & Gabriel, mais nova aposta da BMG. Conhecidos no meio por terem composto para famosos como Gian & Giovani e Milionário & Zé Rico, a dupla vinda de Goiás e Mato Grosso lança o CD “Histórias do Coração”, o primeiro em sete anos de estrada.

Como o nome sugere, o disco é repleto de músicas românticas. Embora Zé Henrique toque viola em algumas faixas, caracterizando o timbre da música sertaneja mais tradicional, o disco prioriza as baladas.

O disparate mesmo fica por conta de “A Dois Passos do Paraíso”, da banda new-wave oitentista Blitz. “Há dois anos a gente canta essa música em shows e sempre deu muito certo”, justifica Zé Henrique, que já gravou viola em um disco do cantor Daniel dedicado à música sertaneja de raiz.

A dupla não esconde, no entanto, os motivos da preferência pelo estilo pop. â€œÉ o que está virando atualmente”, afirma Zé Henrique. E vai além: “Somos uma dupla sertaneja que canta música contemporânea, acreditando na modernidade do gênero sertanejo.”

Duplas de Bauru

Modernidade ou simples razão mercadológica, o fato é que duplas locais resolveram adotar a mesma estratégia ditada pelas grandes gravadoras - mesmo estando fora delas.

Roger & Hudson é um dos casos. A dupla lançou “Sonho de Minas Gerais”, independente, gravado por PJ e Norba Mota, o segundo, músico bastante conhecido na noite bauruense. Assim como outros que estão no disco, como o baterista e percussionista Silvinho Hamilton, o tecladista André Gaúcho, o violinista Erik Breslaw e o cantor e compositor Bitenka, que aparece, inclusive, com uma composição, “Coração Aventureiro”.

Títulos de outras canções, como “Preciso de Esquecer”, “Natália”, “Migalhas do Tempo” e “Sem Retorno” denunciam a romantismo como carro chefe do trabalho.

A música de raiz aparece em faixas como a que dá o título ao CD e em “O Negócio Tá Difícil” - a melhor do disco -, um pagode sertanejo ao estilo Tião Carreiro, tocada pelo não menos talentoso violeiro e luthier Levi Ramiro, de Pirajuí.

Do mais, a fórmula se segue: uma faixa country, um forró e está tudo bem.

Assim também acredita a dupla Ruan & Danny, também lançando o primeiro disco. Com arranjos carregados de teclados, soa pop romântico do começo ao fim, com raros momentos raiz. Como o disco de Roger & Hudson, este também segue a rotina forró, country, balada.

O que impressiona é que, pelo menos nos dois últimos casos - a reportagem teve acesso aos discos - o pop sempre deixa a desejar. A estratégia de ganhar o mercado pelo lado mais fácil deve ser deixada para quem tem grandes corporações por trás.

O pop - seja ele romântico, sertanejo ou roqueiro - requer produção de alto nível para competir em escala nacional. Se a música de raiz, além de mais autêntica e sincera é mais fácil de ser reproduzida em gravações independentes, já que não requer artifícios tecnológicos, por que deixá-la em segundo plano? Se fosse o contrário, o talento das duplas locais em questão seria melhor aproveitado.

Comentários

Comentários