Cultura

A tatuagem de Clarice no corpo

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 3 min

Sete atrizes com idade média de 20 anos sobem no palco do Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves” amanhã, às 21h, para encenar “A Descoberta do Mundo”.

A montagem da Companhia Delas, baseada em textos de Clarice Lispector, aposta na transposição do universo existencialista da escritora para os palcos.

“A Clarice fala muito do humano. É um universo feminino, mas ele é tão interior, que não deixa de ser masculino também. Claro, que por ser mulher, ela tem uma maneira feminina de abordar as questões, mas não existem estereótipos”, esclarece a atriz Talita Ortiz, falando por telefone, de São Paulo, para a reportagem do Jornal da Cidade.

A atriz conta que o grupo descobriu e “continua descobrindo”, ela faz questão de frisar, a escritora ao procurar um texto adequado para ser montado por sete mulheres. “Foi por meio da assistente de direção. Acho que nenhuma de nós conhecia bem a literatura da Clarice Lispector”, conta.

Os ingressos custam R$ 5,00 e R$ 2,50 (estudantes). Também amanhã, entre 14h e 16h, a Companhia Delas apresenta o workshop “O Reflexo da Palavra no Corpo”. As inscrições (grátis) encerram-se hoje, às 18h.

Colegas de escola

Montada no final do ano passado, a peça “A Descoberta do Mundo” foi apresentada inicialmente como projeto final de curso das atrizes, que eram colegas no Teatro Escola Célia Helena, em São Paulo. “Ficamos nove meses envolvidas na montagem”, conta Talita.

A atriz conta que a peça tem o corpo como fio condutor. “A angústia da literatura da Clarice é mais forte quando o texto é lido que falado. Por este motivo a nossa montagem é extremamente corporal, foi a forma econtrada para passar as sensações”, adianta a atriz. â€œÉ uma peça que pega em todos os sentidos”, completa.

O espetáculo foi viabilizado pelo projeto Cena Aberta, da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), que tem como objetivo trazer espetáculos com artistas novos ou de grupos experimentais.

No elenco estão as atrizes Fernanda Castello, Talita Ortiz, Júlia Ianina, Paula Weinfeld, Lilian Damasceno, Ciça Magalhães e Thaís de Medeiros. A direção é de Marco Antônio Rodrigues. Joana Matei e Leandro Oliva são os responsáveis pela preparação corporal. O figurino é de Atílio Beline Vaz, a iluminação, de Erike Bussoni, e cenário, de Ulisses Cohn.

Serviço

“A Descoberta do Mundo”, baseada em textos de Clarice Lispector, com a Companhia Delas. Amanhã, às 21h, no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”. Ingressos: R$ 5 e R$ 2,50 (estudantes). Apoio: Doceana, Restaurante Fratello e Semel. Workshop “O Reflexo da Palavra no Corpo”, amanhã, entre 14h e 16h, no Centro Cultural. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1092.

Escritora não gostava de interpretações

Passados 24 anos da morte de Clarice Lispector, ocorrida um dia antes da escritora completar 57 anos, em 1977, a obra literária da autora é - e sempre será - uma trilha a ser perseguida por corações selvagens.

Clarice não gostava de definições, tanto que deixou-nos a célebre frase: “Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento”, ensinou. Desta maneira, defini-la é - e sempre será - impossível.

Para os amigos, era uma dona-de-casa que escrevia contos e romances. Para os críticos, uma escritora pós-moderna influenciada por Virgínia Wolf e James Joyce, antes, no entanto, de tê-los lido.

Era uma mulher lúcida e descomplicada. Gostava de conversar com taxistas, ir à feira e comer em restaurantes.

Com uma prosa muito próxima da poesia, a sensibilidade de Clarice Lispector levaram temas como a incomunicabilidade humana e a solidão para contextos nunca antes explorados. Ninguém foi tão fundo quanto Clarice.

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