Estamos no período final de uma dose dupla de governo tucano e temos muito pouco a comemorar em termos de crescimento econômico e, portanto, de melhoria da renda e dos padrões de bem-estar da maioria dos brasileiros. Na verdade, só temos a lamentar o fato que a média anual de crescimento do PIB não chega a 2,4%, sem grandes possibilidades de variação até o final de 2002. Isso significa que a renda das pessoas está crescendo muito pouco, algo como 0,8% ao ano, visto que a taxa anual de crescimento da população é de 1,6%. Nessa marcha de crescimento do PIB per capita, os brasileiros devem se preparar para esperar 100 anos para dobrar a sua renda. Quando nossa economia crescia entre 7% e 9% ao ano (períodos JK e Médici) a renda dos brasileiros dobrava a cada 10 anos, aproximadamente. Muito justamente, o sentimento da maioria dos brasileiros era de bem-estar ao final daqueles governos.
Hoje, o sentimento das pessoas é de frustração, porque nesses quase oito anos não puderam progredir, não tiveram a oportunidade de trabalhar porque a economia cresceu muito pouco e a oferta de emprego se reduziu dramaticamente. Já no final do primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique sentiu o alcance da tragédia, de tal sorte que assumiu na campanha da reeleição o compromisso contido no slogan: “quem acabou com a inflação, vai acabar com o desempregoâ€... Não cumpriu a promessa porque demorou a corrigir o viés anticrescimento de sua política econômica. Essa oportunidade surgiu após a correção da política cambial de janeiro de 1999. Embora a condução da política tenha melhorado em muitos aspectos, seu governo tardou em perceber a necessidade de uma vigorosa expansão das exportações e desprezou a sugestão de realizar uma política industrial inteligente de substituição de importações. Essas duas iniciativas e um pouco mais de audácia na redução das taxas de juros, teriam criado condições para a retomada do crescimento e de expansão da oferta de emprego.
O viés anticrescimento foi também o responsável pelo incrível abandono dos investimentos no setor energético, que perdurou por seis anos desde 1994 e produziu o racionamento em 2001. O resultado da redução da oferta de energia foi a queda brutal da produção industrial, a perda de 2 pontos percentuais no crescimento do PIB e a frustração total do objetivo de reduzir os níveis de desemprego. Sem dar crescimento e emprego, o governo inventou os programas de bolsas: a bolsa-alimentação, bolsa de gás, bolsa-escola, enveredando por um caminho extremamente defeituoso e perverso. Não dá as condições de emprego e salário que permitiriam ao trabalhador prover as necessidades de suas famílias, com dignidade e independência. Oferece a esmola que humilha e degrada. Esse é um remendo muito ruim porque submete as pessoas à vontade do poderoso. Não tendo emprego nem salários, elas são pedintes: recebem isso do governo que delas espera, em troca, que devolvam a esmola, em forma de voto, para seus candidatos .
(O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)