Delimitar o espaço com muros, cercas ou grades é a primeira providência tomada por praticamente todas as pessoas que adquirem uma casa num núcleo habitacional. Afinal, quando as propriedades são entregues, só existem as casas e, em geral, as famílias querem garantir segurança e privacidade.
Mas como cada um segue seu gosto e “bolsoâ€, as diferenças aparecem rapidamente. A altura dos muros, o material usado no acabamento, a cor adotada, o uso de portões ou grades vão imprimindo um novo aspecto ao conjunto habitacional.
Atrás disso, vêm o jardim, garagem e frente da casa, que também recebem tratamentos diferenciados entre os vizinhos. Uns optam pela grama e flores, outros cobrem o chão com pedregulho, outros cimentam, outros fazem uma varanda com cobertura e assim vão se formando cada uma das ruas.
Para os professores do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru), Sandro Caramaschi e Edward Goulart Júnior, promover alterações num bem adquirido é uma tendência natural ao ser humano.
â€œÉ uma forma que o indivíduo tem de identificar-se com o espaço que ocupa. Por um lado, ele quer tornar o ambiente agradável para si e sua família, tornando-o adequado à própria personalidade. Por outro, é a individualidade mesmo. É a mesma coisa de você exigir que as pessoas usem roupas iguais. Em pouco tempo, cada uma delas aparece com um detalhe diferente (uma bijuteria, um sapato, etc.) para individualizar a situaçãoâ€, comenta Caramaschi.
“A modificação das casas é muito saudável, porque aproxima o imóvel da identidade da pessoa. Quando se compra um carro e põe calota, troca roda, instala um acessório, um adesivo, ele está imprimindo sua personalidade àquele objeto de desejoâ€, completa Goulart Júnior.
Segundo ele, as razões que originam as alterações de um imóvel são inúmeras: garantir conforto, tornar mais bonito, aumentar o espaço porque a família é grande. Psicologicamente, a principal intenção é criar um vínculo com o lugar.
Ele lembra que quem tem dinheiro pode escolher o bairro onde morar, o modelo do imóvel, a cor das paredes, a disposição dos cômodos. No núcleo habitacional não - além de padronizadas, as casas são sorteadas. “Você não escolhe nem a rua em que vai morar, nem a posição dos quartos, nada. Promover mudanças e adequações faz com que as pessoas se sintam bem e convivam melhor aliâ€, reitera Júnior.
Diferenciar
Uma das perguntas que se costuma fazer, neste sentido, é por que as construtoras insistem em projetos de casas iguais, ao invés de implantarem pequenas diferenças entre elas, como a posição e formato de portas e janelas ou a cor das paredes. As construtoras alegam que isso encareceria os imóveis.
Afinal, é mais fácil conseguir preços melhores na compra de 1.000 janelas do que na compra de 100 unidades. Além disso, haveria demora na conclusão das obras. “E a pessoa teria que ter uma sorte absurda no sorteio para ficar com a casa que tem a diferença que lhe agradaâ€, observa Caramaschi.
Segundo ele, mesmo assim, as pessoas promoveriam alterações, porque é impossível agradar a todos com um modelo padrão. “Uma experiêcia que mostrou bons resultados foi a de projetos que entregam a casa semi-acabada. Há uma redução no valor da obra e o comprador vai poder terminar a casa usando o piso que quiser, o azulejo que quiser, as cores que quiserâ€, afirma.
No entanto, Caramaschi salienta que os projetos de habitação popular são, na maioria das vezes, iniciativas políticas e ninguém quer inaugurar uma obra semi-pronta. “Eles querem entregar casas branquinhas, bonitas, que ficam melhor na foto. Talvez este seja o maior entraveâ€, conclui.
‘Minha casa, minha cara’
A fotojornalista Priscila Medeiros Botta, 25 anos, e o marido, Ricardo Botta, 25 anos, fizeram uma reforma radical em sua casa, no Núcleo Octávio Rasi. A opção pode ser identificada à longa distância, já que a fachada foi pintada de vermelho. No interior, ampliação do espaço e mistura de cores, para alegrar e energizar o ambiente.
“Precisávamos de algo com a nossa cara e a casa que compramos era muito apertada, com cômodos minúsculos. Então, transformamos os dois quartos da frente em uma sala, desmanchamos a cozinha, o banheiro e a sala para fazer a copa/cozinha, separadas por um balcão, e aumentamos um quarto com banheiro no fundo. Para se ter uma idéia, o banheiro antigo ficava de frente com a porta da salaâ€, conta Priscila.
Segundo ela, da obra inicial só sobraram o teto, telhado e as paredes externas. “Depois, pintamos cada cômodo de uma cor, para sair do comum. A cor dá vida para qualquer ambiente. Deixamos a sala verde, a cozinha amarela com armários e cristaleira lembrando cozinha de sítios antigos, pintamos o escritório de laranja - que dizem ser uma cor estimulante e como é local de trabalho... Deixamos o banheiro em azul e branco, o quarto salmão com uma parede em bordô e a fachada em vermelho e amareloâ€, descreve.
O casal levou cerca de seis meses para concluir a obra, que mudou totalmente o projeto inicial do imóvel, além de ganhar destaque entre as casas vizinhas.