Os mais recentes tratamentos para pessoas com traumatismos cranioencefálicos (TCE) têm animado a classe médica, pois apresentam uma significativa melhora na sobrevida.
Assim, comparando-se as evoluções destes casos antes e depois da introdução das novas técnicas, a recuperação aumenta em torno de 30%.
O tratamento atual, segundo explica o professor-doutor Luiz Manreza, observa quatro pontos: estabelece boa ventilação e circulação sangüíneas ainda no local do acidente; diagnostica precocemente a partir de exames de neuro-imagem e inicia o tratamento; e estabelece a monitoração contínua da pressão intracraniana para manter estável a pressão cerebral, com diagnóstico e tratamento das complicações. Por fim, mantém o paciente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para prevenção de lesões secundárias.
Apesar disso, o especialista ressalta que ainda há pacientes que evoluem mal. “Acredita-se que eles morram ou fiquem em estado vegetativo por causa de lesões secundárias nos neurônios, como edema cerebral, isquemia (suspensão ou baixa irrigação sangüínea) e morte neuronal secundária.â€
Sabe-se, contudo, que após um traumatismo craniencefálico o cérebro apresenta uma certa vulnerabilidade, o que facilita a ação de outros fatores, como o baixo teor de oxigênio, a hipotensão arterial e os distúrbios metabólicos.
Estudos experimentais, no entanto, apontam o aumento da morbidade como conseqüência das lesões secundárias e não pelo trauma inicial.
As primeiras 48h
Depois do acidente, mesmo que o paciente tenha alta, ele precisa ficar em observação durante 48 horas. Se surgir algum sintoma citado abaixo é preciso procurar novamente o médico. Observe:
1. O estado de consciência: sonolência ou adormecimento fora das horas habituais e falta de memória.
2. As mudanças de caráter.
3. A aparição de vômitos ou dor de cabeça intensa.
4. Desigualdade nas pupilas (normalmente são iguais).
5. Um pulso inferior a 60 batimentos por minuto.
6. Alterações na visão.
7. Instabilidade ou tontura.
8. Durante a noite, depois do acidente, o paciente deve ser despertado a cada duas ou três horas para conversar.
Conscientização
O acidente de trânsito que leva a pessoa a receber múltiplas lesões é um acontecimento inesperado na vida e afeta a vítima, sua família e a sociedade. As taxas de acidentes diminuem quando se realizam programas de prevenção, se educa a população e se estabelece protocolos de atenção.
É preciso lembrar que se pode prevenir, já que é um mal da sociedade moderna vinculado ao estilo de vida. Hoje em dia, cada vez mais os jovens têm acesso a carros, motos, às vezes são menores de idade, cheios de vida, com vontade de experimentar aventuras, dirigir em altas velocidades e com conflitos próprios da adolescência, como a falta de limites.
Somado a isso tudo, existem vários fatores que levam ao acidente, como a imprudência do motorista, a violação das leis de trânsito, o alcoolismo e outras drogas que afetam as funções do sistema nervoso central.
O programa “Pense bem†foi lançado nesta última semana em Bauru. Os objetivos são reduzir a incidência de traumatismos craniencefálico e raquimedular entre os jovens, tornar a prevenção do trauma de crânio e da coluna vertebral uma escolha de estilo de vida saudável para o jovem brasileiro, educar os adolescentes que estão prestes a entrar na faixa de maior risco, fornecer um projeto para a prática de programas de prevenção em escolas e criar condições para que as vítimas tenham um atendimento adequado.
Com uma equipe de neurocirurgiões, fonoaudiólogas, psicólogas, nutricionistas, entre outros envolvidos, o programa teve início visando levar uma mensagem educativa às pessoas que estão sob risco.
Na última segunda-feira, uma escola de Bauru levou seus alunos do segundo colegial para assistirem a uma aula sobre o assunto. Eles se reuniram na Casa do Médico, onde os neurocirurgiões Adriano Yacubian Fernandes e Mateus Violin Silva, além da psicóloga Luciana Biem, os orientaram sobre os riscos dos acidentes, as maneiras de evitá-los e as conseqüências do trauma.
O programa continua com reuniões quinzenais, onde os participantes poderão discutir novas ações. Outras escolas deverão participar do Pense bem.
Fonoaudióloga e psicóloga auxiliam na recuperação
Os pacientes que sofrem trauma, ficam com algumas seqüelas que, para o tratamento, envolve uma equipe multidisciplinar. A fonoaudióloga Fabiana Rodrigues Sales Gazi e a psicóloga Luciana Biem fazem parte da equipe de profissionais que atuam no Hospital de Base, atendendo esses acidentados.
Fabiana explica que a deglutição, ou seja, a capacidade de se alimentar e engolir; a disfunção de fala, memória e atenção; são as duas partes onde ela realiza seu trabalho com o acidentado.
Luciana afirma que o paciente tem conseqüências emocionais quando sofre um trauma. Ela trabalha com a vítima e também com a família, porque é um choque para ambos. “Minha função é o suporte emocional para a família e para o paciente.â€
Fabiana diz que o trabalho é intenso e, em alguns casos, é possível melhorar muito a fala, a deglutição, mas em outros isso pode tornar-se irreversível. “Depende muito do lugar lesionado. Cada caso é diferente de outro. Nós, com os exercícios, conseguimos melhorar a situação do paciente, mas nem sempre é possível conseguir 100% da normalidadeâ€, afirma.
A psicóloga conta que sempre conversa com o paciente com o objetivo de fazer com que ele enfrente as suas limitações e tente superá-las. “A maioria dos casos acontece dentro de uma faixa etária que tem um vigor e uma saúde muito grande e o acidente é um corte brusco que se faz na vida da pessoaâ€, afirma.
A fonoaudióloga relata que o tratamento, normalmente, é a longo prazo e os pacientes têm muita ansiedade para voltar a falar e a se alimentar. “A sonda utilizada nesses casos incomoda muito o paciente. É uma angústia muito grande para elesâ€, explica.
Ela lembra, ainda, que as pessoas, normalmente, não dão importância ao simples fato de poder falar e se alimentar, mas quem tem seqüelas passa a valorizar cada sentido do corpo humano, cada movimento que é capaz de realizar. “Pequenos detalhes são muito valiosos para os pacientes. Tomar água, comer aquilo que gostam, tudo isso é muito valorizado por eles. Isso é muito complicadoâ€, diz.
Alguns pacientes, de acordo com Luciana, afirmam que preferiam ter morrido do que ficar com a lesão causada pelo acidente. “A aceitação do paciente e da sua situação é fundamental para um prognóstico emocional favorávelâ€, diz. Ela conta que a família precisa de estrutura para dar força. “O paciente precisa ouvir coisas boas e não lamentações da famíliaâ€, explica.
A fonoaudióloga explica que o trabalho tem linhas diferentes quando é direcionado a uma criança, por exemplo. Mas, com qualquer tipo de paciente, ela afirma que é gratificante perceber a evolução de cada pessoa lesionada. Fabiana conta que o próprio paciente percebe a necessidade de realizar os exercícios. “Nesses casos, não é preciso que alguém fique insistindo para que ele realize os exercícios recomendados. Eles conseguem perceber a importância desse trabalho e o quanto evoluem fazendo tudo corretamenteâ€, conta.
Fabiana e Luciana fazem parte do projeto “Pense bem†e estão trabalhando voluntariamente para diminuir o números de acidentes com traumas em Bauru.