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A terra da promissão

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Um dia, alguns estudantes de Princeton abordaram Einstein em uma das alamedas da Universidade e perguntaram-lhe como seria a Terceira Guerra Mundial. Ele teria respondido: a terceira eu não sei, mas a quarta será com paus e pedras. Abruptamente interrompido em suas reflexões, após o breve diálogo Einstein já não sabia mais se ia ou se vinha. Orientado pelos discípulos de que sua direção original era à biblioteca, o cientista suspirou aliviado: então eu já almocei...

Se as imagens da televisão são tentativas de descrição do real, o mundo deve ter pulado a terceira fase do seu determinismo histórico. A quarta hecatombe já começou. Parece até que estamos revivendo às avessas as narrativas do Velho Testamento. O jovem Davi, que seria rei e construiria o sonhado Templo, era um simples pastor na terra pedregosa debruçada sobre o Mediterrâneo. Armado com uma funda, ele vai derrotar o gigante Golias, representação mítica do outro lado dos ódios ancestrais. Agora, a história se recompõe pelo inverso. Um Davi gigantesco e atômico persegue um Golias anão que revida com pedras e o sacrifício dos mártires a agressão das bestas de aço a vomitar ferro e fogo.

O morticínio ao qual somos obrigados a assistir todos os dias pela televisão, não passa de produto de uma briga por questões imobiliárias e que poderia ser resolvida por um bom agrimensor. As terras situadas a leste do Mediterrâneo, vizinhanças do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho, foram destinadas a centralizar boa parte das esperanças da humanidade. Ali floresceu a civilização egípcia do tempo dos faraós. Os fenícios descobriram o mundo partindo do Líbano atual. Isac fundou a tribo de Israel e seu meio-irmão Ismael deu início à formação do povo árabe. Foi ali que nasceram e viveram Jesus e Maomé, profetas responsáveis por grande parte da herança religiosa que até hoje guia os homens.

Isac, filho de Abraão com Sara e Ismael, fruto de uma escapada do velho com a escrava Agar, brigaram pelas terras deixadas pelo patriarca depois da sua morte. Começou assim, por mera questão de divisão de terras, a briga interrompida por mais de dois mil anos para ressurgir novamente em 1948 quando os judeus decidiram reverter o êxodo para voltar à antiga Terra Prometida. A presença de núcleos judeus e muçulmanos em quase todos os pontos do Planeta universaliza aquele conflito local, traçando vetores de tensão, perplexidade e angústia em todos os pontos do Planeta.

A guerra que há lá fora também existe aqui, mas por outras razões. A criminalidade no Brasil faz mais vítimas do que o conflito no Oriente Médio. Nos morros e nas periferias das grandes cidades, a intolerância, a exclusão, a ignorância e o descaso matam todos os dias, sem que levantemos a nossa indignação a ponto de exigir mudanças imediatas nas políticas públicas. Lá, a guerra é declarada. Aqui, vivemos uma guerra disfarçada de paz. Passamos ao lado de mortos e feridos fazendo de conta que não é nada conosco. Lá como aqui, a atitude correta seria nunca aceitar a violência como imposição do destino.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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