Geral

Filhos se realizam na profissão dos pais

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

A profissão que uma pessoa vai seguir não está no código genético. A expressão “filho de peixe, peixinho é” também não se aplica como regra. Mas tem muitos filhos que admitem seguir os passos “dos velhos” por pura influência, sim.

É o caso do trumpetista e pianista Edeward Viotto Júnior, o Badezinho, de 40 anos e da cantora Cezira Helena Viotto, de 38 anos. A música sempre esteve presente na casa do maestro Badê, muito mais conhecido dessa maneira do que pelo nome de batismo, Edeward Viotto.

Badê tem 61 anos e em maio de 2003 completa 50 anos de carreira musical e diz que os dois momentos mais felizes de sua vida foi poder gravar um CD de jazz com o filho, integrante da Bauru Jazz Band, e outro de bossa nova com a filha, dentro de um projeto de sua autoria chamado “Bossa Viva”. Mas muitas alegrias ainda devem fazer o coração do maestro bater num sincopado diferente: a neta Juliana, de 13 anos, já solta a voz em algumas apresentações do grupo.

O pai orgulhoso comemora a decisão dos filhos, mas confessa que desde cedo foi o grande incentivador de Cezira e Badezinho. “Apresentei as músicas, ensinei as primeiras notas e pouco depois coloquei os dois no Conservatório Bauruense de Música para aprenderem, além de toda a teoria, os solfejos e o toque de um instrumento. Os dois têm diploma de piano”, conta.

“Nós nascemos no meio da música. Desde menina eu gostava de música italiana, instrumental, era apaixonada pelas bandas marciais. Sempre quis cantar, mas tinha vergonha em falar para meu pai, não me sentia preparada.” Com o tempo foi se soltando e participando dos ensaios. Numa noite, o cantor da banda do pai ficou doente e ele disse para a filha: “hoje você vai ter que cantar!”

A partir daí, Cezira contabiliza 10 anos de carreira profissional, com direito a carteirinha da Ordem dos Músicos.

Mas nesta família quem sempre seguiu os acordes do pai foi Badezinho, que há 20 anos, toca na noite. “Sempre admirei o trabalho do meu pai. Acompanhava todos os ensaios e pude perceber toda a evolução do seu trabalho e da própria tecnologia. Sem contar que ele é um crítico, muito exigente.”

Sempre muito unidos e trabalhando em família, o trio acredita que atuar desta maneira é ainda mais valioso. “A lealdade traz solidez”, diz Badê filho. “Por isso, gozamos de boa reputação”, conclui Badê pai.

Envaidecido, o maestro se comove a cada vez que sobe ao palco com um dos filhos, pois tem em mente que também herdou do pai, que era “um violeiro-cantador-catireiro” o dom da música.

Questionados de como se comporta a mãe nesta partitura, os filhos respondem com bom humor. “Ela controla a afinação e os horários”.

Mão na massa

Arte também se pratica na casa de Alberto Rodrigues da Silva, de 48 anos, que é padeiro há 28 anos e trabalha quase 12 horas por noite numa padaria do Jardim Redentor. “Pão precisa ser feito um a um e com carinho”, explica.

Os pães apareceram na vida de Alberto, quando seu irmão mais velho, que era padeiro também, o convidou para entregar os pães de bicicleta e foi aos poucos ensinando o ofício. Antes de trabalhar e até ter uma padaria, Silva trabalhou numa fábrica de macarrão. “Mas sempre com a mão na massa, né?”, brinca.

Quando os filhos eram menores e a esposa precisava trabalhar, o padeiro levava os garotos para a cozinha e Anderson Rodrigues da Silva, hoje com 25 anos, acompanhava o pai atentamente. “Enquanto os outros dois dormiam em baixo de uma mesa, o Anderson olhava, e perguntava. Muitas vezes queria ajudar e em pouco tempo também já sabia fazer pão”, lembra o pai.

Anderson acredita que o pai foi seu grande exemplo. Afinal, a profissão que escolheu não é das mais fáceis e “precisa ter dom”, revela. “No começo acho que era só curiosidade, mas depois eu queria ajudar, depois fazer sozinho”, conta.

Com o tempo percebeu que os doces, bolos e tortas trabalhados eram o que lhe dava mais prazer em preparar. “O meu pão não ficava como o do meu pai mesmo. Mas acho que sou uma das poucas pessoas na cidade que sabe fazer uma torta Saint Honoré perfeita”, gaba-se.

Hoje, ele trabalha como confeiteiro em uma das lojas de uma rede supermercados em Bauru e diz que o maior prazer é fazer doces trabalhosos com massa folhada.

Os únicos momentos em que a profissão lhe deixou desapontado foi quando queimou algumas fornadas ou seus bolos não cresceram.

Mas confessa que entra em desespero quando leva horas para preparar um trabalhoso bolo de casamento e ele é devorado em menos de meia hora. “Dá um dó...”

Na casa dos padeiros, pão é o que não falta e eles também fazem questão de preparar suas receitas para a família e já ensinam a caçula de 13 anos os segredos de uma boa massa.

Plantão médico

A neuropediatra Lucin Yacubian Fernandes tem certeza de que seus filhos Adriano, de 33 anos e Rodrigo, de 27 foram influenciados por ela e pelo marido Laertel Fernandes Fassoni, neurologista, na escolha da profissão. Além de médicos, seguem especialidades na mesma área. O filho mais velho é neurologista e o mais novo radiologista, cujo trabalho está intimamente ligado à neurologia.

“Meus pais vieram da Armênia e estavam longe de ser médicos. Mas tenho um irmão médico que me inspirou a seguir a mesma profissão”, conta Lucin. Ela revela que desde criança o filho mais velho admirava a profissão dos pais.

Mas não se recorda de terem conversado sobre escolha das profissões. “Eles eram tão envolvidos com esporte que tanto eu, quanto o Laertel achávamos que eles iriam seguir carreira de atleta. Os dois jogaram tênis por muito tempo, até com o Guga. O Adriano seria tenista e o Rodrigo jogador de pólo aquático. Aliás, ele jogou na seleção brasileira e conheceu o mundo todo através do esporte.”

Entretanto, os dois filhos entraram em medicina na Universidade de São Paulo (USP), sem cursinho e nos primeiros lugares. Adriano em primeiro, aos 17 anos e Rodrigo, em décimo. “Não foi surpresa a colocação, pois eles sempre foram muito inteligentes e estudiosos. Mas fiquei orgulhosa da decisão dos dois.”

Neste verdadeiro plantão médico, em que conseguir uma entrevista com um destes doutores, é tarefa árdua (Adriano e Rodrigo participaram durante a semana de dois congressos diferentes), a única que não quis seguir a carreira dos pais foi a filha do meio, Luciana Yacubian Fernandes, que preferiu ser arquiteta.

“Nunca quis fazer a mesma coisa que eles. Achava muita concorrência para a mesma casa”, brinca. “Mas tinha uma tia bem bacana que era arquiteta e resolvi fazer arquitetura”. Hoje Luciana, se dedica ao paisagismo, que também não deixa de ser uma atividade terapêutica.

Comentários

Comentários