O deputado estadual Carlos Braga (PTB) contou ao JC, ontem, que não vai disputar a eleição deste ano porque tem a pretensão de ser prefeito da cidade em 2004. A notícia surpreende, por um lado, e mexe no tabuleiro político local, por outro. Braga conta que não vai tentar uma cadeira a deputado federal para não trair o eleitorado. Ele argumenta que se o projeto de seu grupo é colaborar com a cidade na Prefeitura, onde terá a caneta na mão, não teria sentido mudar o discurso só por uma conveniência eleitoral.
A decisão do deputado de não disputar uma vaga na Câmara Federal abre espaço para o fortalecimento de outras candidaturas locais. Todavia, Carlos Braga antecipa que vai apoiar Tuga Angerami (PSB) à Assembléia Legislativa (AL). Leia os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade - Qual é a definição para sua participação na eleição deste ano? Carlos Braga - Minha definição política nas eleições de outubro deste ano é que eu não me candidato nem à reeleição, nem a deputado federal porque sou pré-candidato a prefeito de Bauru em 2004.
JC - O que o levou a tomar essa decisão? Braga - O mais importante é a forma como tomei esta decisão. Acho que o político tem que ter como dois atributos fundamentais a coerência e o respeito. Na eleição passada à Prefeitura, eu apoiei o ex-deputado Tuga Angerami, que preferiu não ser candidato à reeleição a deputado, embora tenha sido pressionado para isso, porque queria ser prefeito de Bauru. Na campanha dele eu me mantive fiel a essa postura e disse o tempo todo que não concordo com um político abandonar o cargo no meio do mandato para disputar outro. Não acho correto isso. O político tem que saber o que ele quer e dizer isso honestamente para a população. É desonesto com o eleitor largar o mandato no meio do caminho. Muito menos honesto é usar uma campanha a deputado para promover o nome. Em respeito à população, aos amigos, a àqueles que confiaram em meu trabalho é que não deixo o meu cargo para disputar outro cargo sem terminar o mandato.
JC - O que dizer então aos eleitores ou correligionários de outras cidades que podem preferir que o Braga permaneça deputado? Braga - Seria traição não dizer agora aos amigos, a esses parceiros, aos integrantes do meu grupo, não deixar claro qual é o projeto político. Você não pode em um ano sair na região pedindo o voto das pessoas para ser deputado, para representar essa massa, e depois dizer que não quer mais. A região não tem como substituir seu deputado por outro da região no meio do caminho. Isso é injusto e é uma conduta desonesta. Meu grupo não vai fazer isso. Até acredito que poderia ter facilidades para a reeleição, por já ser deputado. Mas não é honesto pedir voto para depois dizer que quero ser prefeito. É melhor dar oportunidade para a população escolher um deputado que vai representá-la por quatro anos. Quem quer ser deputado se candidata a deputado, senão é usar a boa fé do eleitor.
JC - Mas o senhor chegou a discutir a possibilidade de ser candidato a deputado federal? Braga - É natural a discussão do projeto político do grupo e isso foi feito. Até porque precisávamos verificar junto aos amigos se a vontade de ser prefeito combinaria com os anseios da cidade. A região precisa de um deputado federal daqui, que mora e vive aqui. O anseio e a necessidade levaram a me sugerir a candidatura a deputado federal. Mas também foi me colocado a necessidade da cidade ter um prefeito em condições de retomar a auto-estima, o desenvolvimento da cidade. Veja que esta decisão minha também abre um leque honesto de opções para o eleitor, que poderá escolher alguém que tenha a missão de representar Bauru e região em Brasília. Não vou jogar fora os votos que as pessoas me deram.
JC - O que te motiva a ser candidato a prefeito? Braga - Primeiro, uma postura honesta com o eleitor, como disse. Acho que posso ajudar muito mais Bauru como prefeito do que como deputado. O deputado tem sua função, mas meu desejo e esperança é de colaborar para que a cidade cresça, que volte a ser dinâmica. Bauru está com a auto-estima muito em baixa. A cidade está esburacada, indústrias estão indo embora, o povo está desanimado. É uma enorme motivação ajudar a cidade, resgatar o valor de Bauru. Chega de dizer que a feira agropecuária de Bauru era boa, que o amor pela cidade era maior, que o comércio era mais forte antes.
JC - O problema é de auto-estima ou de comando? Braga - A carência de auto-estima é produto dos desmandos que a cidade viveu. Isso é conseqüência, não é causa. É preciso um esforço para reaglutinar as forças políticas da cidade e criar um ambiente favorável à cidade. Uma empresa não virá se o prefeito não promover condições para isso. O empresário não vai avaliar só a doação do terreno. Por outro lado, a lei fiscal combate a renúncia de receita para a isenção fiscal. O terreno acaba sendo a menor parte no custo de implantação de uma empresa. Mas o empresário quer saber se os filhos dos funcionários terão uma boa creche, uma boa escola, um transporte coletivo decente, opções de lazer, segurança. Bauru já tem um povo bom e com capacitação profissional. Precisa reunir as outras condições. O prefeito precisa ser mais ágil, ter postura para dar respostas para as solicitações da população. Por isso me proponho a ser pré-candidato a prefeito. Bauru precisa ter comando para que seja devolvido a ela o que lhe pertence.
JC - Você diz que quer contribuir tendo a caneta na mão, pois ela decide. O prefeito não está usando a caneta? Braga - É preciso fazer, realizar. Não se pode demorar tanto tempo e só com desculpas. Com dinheiro na mão qualquer prefeito realiza. Quero ver fazer com determinação, dinamismo, garra, com projeto, ouvindo a população. É preciso ouvir da boca do cidadão o que ele quer, não sentado no gabinete ouvindo meia dúzia de colaboradores. Com esse trabalho, espero que a cidade e a região tenha vários deputados. Quanto mais deputado Bauru tiver, a federal e estadual, melhor é para a cidade. Como político de Bauru eu voto em candidato de Bauru. E o meu voto a deputado estadual é do Tuga Angerami.
JC - E quem vai preencher a lacuna como candidato a deputado federal? Braga - Vou esperar as candidaturas se definirem, muitos partidos ainda estão discutindo, conversando e isso é normal. Quando os nomes se definirem, eu me posiciono. Posso garantir e adiantar que meu voto será para um candidato a deputado federal de Bauru. O voto no Tuga é pelo respeito, admiração e relacionamento político que construí com o Tuga na eleição para prefeito. Vou apoiá-lo a deputado estadual e ele tem muito para colaborar com Bauru na Assembléia. Na política você tem que se espelhar no bom exemplo, não no mau. Prefiro seguir o bom exemplo do Tuga que não quis ser candidato a deputado federal na eleição passada porque pretendia ser prefeito.
JC - Como será administrada a aliança PTB-PPS em nível nacional aqui em Bauru pelo senhor? Braga - A questão nacional não cria problemas aqui na cidade. Temos uma realidade diferente aqui na cidade e tenho certeza que a conjuntura das alianças não cria nenhum problema na região para meu partido.
JC - Onde o governo Alckmin acerta e onde falha? Braga - O Governo do Estado peca na segurança, aliás na sensação de insegurança vivida pela população, e há ausência de investimentos em áreas estruturais. O governo Covas primou pelo saneamento das contas públicas e o custo foi transferir para a população a redução em investimentos. Ocorreram privatizações, vieram os pedágios. Agora é inegável que o governador Alckmin é um político sério, honesto, que vem tentando imprimir seu estilo em seu pouco tempo de governo. Ele recebeu uma herança de política fiscal de eliminação do déficit e vem tentando mostrar sua postura, sua personalidade política.