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Os estertores de uma civilização

(*) Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Desde há muito tempo a nossa civilização, outrora freqüentemente designada como Ocidental Cristã, entrou em declínio que julgamos irreversível. A propósito de tal declínio e, em especial, de sua irreversibilidade, tivemos a oportunidade de, publicamente, enunciar o nosso ponto de vista acerca da aplicabilidade do conceito de limite de homeostase surgido em fins do século 19, também aos formatos civilizacionais. Aqui mesmo, nessas “Reflexões”, tivemos a oportunidade de referir-nos a ele que, até então, ao menos ao que saibamos, só era aplicado e concebido para sistemas em equilíbrio, em nossos dias, principalmente no referente aos ecossistemas e nos domínios da cibernética.

Na ocasião em que aventávamos a hipótese da sua aplicabilidade aos formatos civilizacionais, reforçando-a e amparando-a, expusemos quais eram as variáveis cuja ruptura estava acarretando o declínio irreversível da nossa civilização. Fizemo-lo há cerca de apenas quatro anos, primeiro no auditório da ESG e, pouco depois, em congresso internacional realizado em S. Paulo, a que compareceram participantes de 43 países do mundo. Nas oportunidades assinaladas, diante do enunciado das variáveis que, vulneradas, estavam determinando a inexorabilidade do declínio, a hipótese causou surpresa e despertou interesse. Supomos que, exatamente, à época, não estavam em curso ainda os atos de barbárie que hoje diariamente nos contundem a sensibilidade. A denúncia em que se constituiu o simbolismo dos atentados de 11 de setembro do ano passado, acerca da existência de um poder mundial, não formalizado ainda, mas atuante, soma-se agora à atitude do governo americano, absolutamente submisso e parcial em favor da truculência do Estado de Israel, que, em uma vergonhosa desproporção de forças e de meios de toda ordem, alega estar apenas se defendendo contra atos de terrorismo, realmente inaceitáveis mas que, pelo modo com que são realizados, implicando sempre na auto-imolação das vidas dos seus autores, evidenciam, diante da mais espessa insensibilidade, que eles não se suicidam por estarem se sentindo tratados bem e com justiça.

O poder mundial, porém, a que nos referimos há pouco, é formidável e vem conseguindo conter, até agora, condenações e atos mais vigorosos contra o sistemático e total desrespeito de Israel a todas as resoluções da ONU consideradas inconvenientes aos seus interesses, convenção que se tem mostrado válida até no próprio mundo árabe. De poucos dias para cá, porém, tal quadro, no que respeita à opinião pública no mundo ocidental vem se modificando rápida e perigosamente, a mesma modificação se verificando também, como é fácil entender, no mundo islâmico.

Não bastassem os fatores inquietantes apontados, ainda autoridades do governo americano, com o endosso do seu presidente, falam de combate ao terrorismo como algo a ser levado às suas fontes alimentadoras, que segundo se insinua, trazem em primeiro plano o Iraque, seguido do Irã, somando-se ainda a Coréia do Norte. A ter prosseguimento tal desvario, haverá quem não sinta que estamos nos aproximando de algo terrivelmente grave, de vez que outros países, entre os quais a China e a Rússia, têm manifestado a sua discordância em face dos desatinos anunciados?

Tudo isso não se parece muito com o rápido declínio de um formato civilizacional esgotado e suicida? Voltaremos ao assunto, se Deus quiser.

(*) Jorge Boaventura - e-mail:boaventura@jorgeboaven-tura.jor.br - home-page:www.jorgeboaventu-ra.jor.br

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