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Saúde orienta sacrificar aves de chácaras vizinhas à Ajax

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

O Departamento de Saúde Coletiva (DSC), órgão da Secretaria Municipal da Saúde, recomenda que as aves criadas nas chácaras próximas à fábrica de baterias Acumuladores Ajax sejam sacrificadas. Os ovos das propriedades rurais analisados pelo Instituto Adolfo Lutz, assim como o leite das vacas criadas no pasto e a hortelã plantada na horta das propriedades, estão contaminados por chumbo.

A concentração do metal no organismo causa uma doença chamada saturnismo. Os sintomas são anorexia, vômitos, convulsão, dano cerebral permanente e lesão renal irreversível. A fábrica, que está interditada, fica às margens da rodovia Bauru-Jaú, na altura do km 112. A direção da empresa, procurada pelo JC, prefere aguardar o recebimento de todos os laudos para pronunciar-se sobre o assunto.

Outros alimentos analisados - berinjela, mamão, abacate, laranja e couve -, não apresentaram nenhuma contaminação. Por enquanto, o DSC não vê necessidade de retirar os moradores das chácaras do local, informa a assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru. A adoção ou não da medida depende do resultado da análise do solo das propriedades rurais, que será feita pela Agência de Bauru da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Porém, os moradores das chácaras estão preocupados. Adilson Roberto Bighetti, proprietário da Chácaras Bighetti, que já contabiliza prejuízos, está estudando entrar na Justiça contra a fábrica de baterias. “Eu não vou poder consumir o que sempre produzi na minha propriedade e ainda terei que sacrificar os animais. Por enquanto, a orientação é para sacrificar só as galinhas e retirar da propriedade os cerca de 200 suínos, 60 caprinos e 16 bovinos que temos. Mas onde vamos colocar esses animais?”, questiona.

Além dos dois proprietários, moram nas chácaras mais três famílias de caseiros, num total de 18 pessoas. A produção de leite, carne, hortaliças e verduras não é destinada à comercialização, apenas para consumo dos moradores, de acordo com Bighetti. Se sacrificar todos os animais, ele calcula que terá prejuízo de R$ 30 mil. “Só um touro da raça limousin que vale R$ 6 mil. Além disso, se tiver que sair de lá, vou ter que alugar uma casa”, conta.

Ontem, após receber orientações de técnicos do DSC e saber o resultado das análises dos alimentos, os moradores suspenderam o consumo de leite e ovos produzidos nas chácaras. Para evitar qualquer risco de contaminação, os técnicos do DSC orientaram que as aves - galinhas, patos e gansos - sejam sacrificadas, para que não ocorra o consumo de ovos e carne.

Reginaldo dos Santos Sales, caseiro da Chácara Bighetti, está preocupado com a situação e lamenta a necessidade de matar as aves. â€œÉ uma judiação ter que sacrificar todas essas galinhas. Muitas estão com ninhada”, conta ele que até ontem consumia os ovos e leite da propriedade e agora já está preocupado até com a manutenção de seu emprego. “A gente ainda não sabe como vai ficar e é claro que fica preocupado”, diz.

Já com relação ao leite, o produto deve ser evitado até que novo exame verifique se a contaminação está ou não diminuindo. O DSC aguarda orientação da Vigilância Epidemiológica do Estado no sentido de estabelecer o tempo para a realização de novos exames. A recomendação é para que o gado de leite seja transferido para outro local. Se não for verificada contaminação nos próximos meses, o leite será liberado para consumo.

Vidágua cobra Cetesb

O Instituto Ambiental Vidágua está cobrando um posicionamento da Cetesb quanto a necessidade ou não da retirada das famílias que moram próximas à fábrica de baterias. A ONG também quer que todos os moradores dos bairros próximos à fábrica, inclusive os adultos, sejam submetidos a exames de sangue, conta o vereador Rodrigo Agostinho, que é diretor da entidade. “Queremos saber com exatidão o raio de contaminação a partir da fábrica e vamos acompanhar de perto o tratamento.”

Os órgãos de Saúde estão investigando a contaminação em crianças de até 12 anos que moram num raio de 1.000 metros da fábrica, o que inclui o Tangarás, Núcleo José Regino, entre outros bairros. “Vamos acompanhar de perto esse levantamento e o tratamento dos contaminados”, avisa Rodrigo.

A Direção Regional de Saúde (DIR-10), de acordo com o DSC, ficou encarregada, através do Grupo de Vigilância Sanitária, de solicitar à Cetesb, análise do solo da região, bem como de vistoria e demais ações sobre o ambiente de trabalho.

A fábrica de baterias está interditada desde o final de janeiro, por determinação da Cetesb. Análises feitas pelo órgão nas dependências da empresa constataram a presença de chumbo no ar, água e solo. No final do mês passado, a Justiça, em resposta a uma ação civil impetrada pelo Vidágua, expediu liminar suspendendo as atividades do setor metalúrgico da indústria.

A liminar também manda a empresa a pagar o levantamento para verificar a presença de chumbo no sangue da população num raio de 1.000 metros da fábrica e ainda decretou indisponíveis os bens da empresa e de seus sócios como garantia do pagamento de indenizações e penalidades cabíveis.

A Delegacia Regional do Trabalho, órgão pertencente ao Ministério do Trabalho, foi comunicada oficialmente pelas Secretarias estadual e municipal da Saúde, tendo ocorrido duas reuniões, com a participação da Ajax, mas não foi apresentado ao DSC nenhum documento referente aos exames de controle dos trabalhadores e do ambiente de trabalho na empresa.

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