Cultura

Fazendo a sua cabeça

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 4 min

Nos anos 70, Chico Buarque provocava os censores do regime militar cantando “Jorge Maravilha”, uma música que tinha o seguinte refrão: “Você não gosta de mim/ mas sua filha gosta”. Trinta anos depois, temos a democracia, mas os conflitos de geração são como as nuvens, mudam sempre, mas estão sempre lá.

As filhas viraram mães, continuam gostando de Chico, mas suas filhas, nem sempre. Mesmo que não seja muito fã da MPB, o vocalista e letrista Marcelo D2, do Planet Hemp, poderia cantar a música sem medo de soar datado.

Algumas meninas de hoje têm hábitos mais radicais que os de suas mães. Usam roupas de menino, brincos em lugares estranhos e curtem músicas barulhentas e contestadoras. Os meninos, se não usam roupas de meninas, tem outras manias que os mais velhos podem achar esquisitas. E boa parte dos jovens gostam de Planet Hemp e consideram D2 um ídolo.

Há dez anos, quando a banda começou a aparecer na mídia, ganhou a antipatia dos conservadores com seu discursos pela descriminalização do uso da maconha. Sem muito marketing, a contrapropaganda elevou as vendas do álbum “Usuário”, que teve tiragem de mais de 300 mil cópias nos cálculos da banda.

Depois disso, há sete anos, veio um contrato com a Sony. Na contramão do ódio, conquistaram muitos fãs e 1 milhão de discos vendidos. Hoje, o discurso e o som ganharam mais consistência, e até as crianças gostam.

D2, que tem três filhos, uma menina e dois garotos, um deles recém-nascido, passa por uma fase “família”, mas não perde a rebeldia. Leia a seguir entrevista com o vocalista, que apresenta-se com o Planet Hemp amanhã, às 23 horas, na Cervejaria dos Monges.

JC Cultura - O show que vocês vão fazer aqui em Bauru é mais ou menos o repertório do “Ao Vivo MTV”? Marcelo D2 - Nós estamos fazendo esse show desde o ano passado. Então, a gente não usa mais o set list (relação de músicas), não segue mais um roteiro, como na maneira tradicional. A gente está subindo no palco e saindo tocando as músicas.

JC Cultura - Que eu me lembre, vocês não tocam em Bauru desde 1998, vai soar muito diferente para o público? D2 - Outro dia a gente estava fazendo as contas, em dez anos já tocaram mais de 30 pessoas na banda. Neste “Ao Vivo”, a gente resolveu voltar a fazer um lance de guitarra-baixo-bateria e dois vocais, que era o começo da banda.

A gente tirou DJ, tirou percussão, tirou teclado. Com isso, o show ficou mais pesado e, ao mesmo tempo, nós estamos tocando mais sossegados no palco.

JC Cultura - O que representa para você ter 1 milhão de álbuns vendidos? D2- Eu ainda vejo o Planet Hemp como uma banda “underground”. Mesmo com todos esses discos vendidos, tem uma barreira que a gente não consegue passar para o mainstream.

A gente tem feito tudo o que a gente sempre quis fazer. Ter uma banda, fazer disco, fazer turnê, tocar nas cidades... Acho que tudo faz parte do que estamos planejando há dez anos.

JC Cultura - Mas são vocês que não querem o mainstream ou o contrário? D2 - Eu acho que é mútuo. Um programa como o do Faustão, a gente nunca quis tocar e eu acho que é vice-versa. Gugu, Faustão, esse tipo de programa, “Casa dos Artistas”. A gente nunca vai estar em um programa desse, mas também nunca vai ser chamado.

Os caras não querem a gente em um programa desse. Seríamos um mal exemplo.

JC Cultura - Pela posição da banda em relação à maconha, alguns críticos apostavam que o Planet Hemp não iria longe porque seria como uma piada repetida. Foi por isso que vocês mudaram o teor das letras, até para um caminho mais político, ou isso foi um processo? D2 - É uma coisa natural. A gente amadureceu como pessoa. Eu e Bernardo, que escrevemos as letras, passamos por muita coisa. Dez anos é muito tempo.

Nós perdemos um pouco daquele ímpeto adolescente de querer mudar o mundo, mas ganhamos também um pouco de sabedoria.

JC Cultura - E a política? D2 - Na verdade, a gente sempre foi uma banda muito política, as pessoas é que só enxergavam o assunto maconha.

JC Cultura - Mas você acha que falar sobre essa questão é política também? D2 - Com certeza. Ainda mais da maneira como a gente fala. A gente nunca falou “vamos fumar maconha”, “é legal fumar maconha”, como dizem por aí.

Nós somos uma das únicas bandas, se não a única, a falar sobre a política antidrogas, mostrar que usuário não é criminoso, pode ser até doente, dependente químico, mas criminoso não é.

A gente vem falando isso há dez anos, as pessoas tentam banalizar a coisa, mas para nós, isso é sério.

Serviço

Planet Hemp faz show amanhã, 23h, na Cervejaria dos Monges. Após, show com a banda Mommy Let’s Fuck it All. Preços não divulgados. Avenida Getúlio Vargas, 7-50. Informações: (14) 234-7773.

Comentários

Comentários