O casal vive tranqüila e harmoniosamente, na rotina de há muito estabelecida: a prestimosa esposa serve o café da manhã, segundo o gosto do marido; ele toma o café, dá uma olhada rápida no jornal, comenta alguma notícia mais relevante e lá se vai para o seu trabalho. Nessas alturas da vida, os filhos já casaram ou já partiram para outras atividades, mudando-se, às vezes, até de cidade.
Ficando sozinha em casa, a prestimosa esposa vai cuidar de seus afazeres: varrer a casa, tirar o pó dos móveis, pôr o lixo para fora, encher as garrafas, uma com água outra com refresco para o almoço, arrumar as camas ou a cama, tirar carne do congelador para temperar para o almoço, escolher o feijão, o arroz, lavar a verdura, enfim, todas as pequeninas coisas que a dona de casa prestimosa tem de fazer no seu dia-a-dia, que só aparece se ela deixar de fazer. E nisso vai quase toda a manhã e quando o marido chega o almoço deverá estar pronto, só faltando ir para a mesa e ambos sentarem-se e trocar algumas palavras referentes ao dia.
Mas, eis que chega a aposentadoria: o marido não vai trabalhar. Ficará em casa e a esposa prestimosa já começa a ficar apreensiva, sem saber bem o que ele espera que ela faça. Convém pedir para ele dar licença que ela precisa passar o aspirador? Será que não é melhor esperar ele sair para começar a sua rotina de trabalho? Mas e se ele não quiser sair? Oferece um cafezinho ou será melhor não oferecer para que ele não fume mais ainda, tomando café fora de hora?
Por sua vez, ele, marido não sabe bem como deverá agir. Deverá sair para que ela possa fazer melhor o serviço da casa, sem ele para atrapalhar? Deverá puxar prosa com ela, como ele faz na repartição, entre o despacho de um processo e outro? Mas de que falar com ela? Futebol ela não gosta nem entende, política menos ainda. Para sair e ir jogar conversa fora com os amigos em um bar, não é muito do seu feitio e começar a gastar no bar não é uma boa.
Acho que é nessa hora que o anjo da guarda do casal deve entrar em cena e cochichar no ouvido dele que existem muitas obras sociais na cidade, precisando de colaboradores e se ele for ser um deles, terá assunto com a mulher, com os novos amigos que fizer, e com o tempo, com certeza ela também vai se interessar e a aposentadoria não será um transtorno mas sim um novo traço de união entre eles e um bom motivo para se entenderem mutuamente. (Isolina Bresolin Vianna - Acad. Bauruense de Letras)